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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Raio X: Face the Emptiness - A história acabou antes mesmo de começar


 

A história acabou
Está finalizada, acabada
O sonho que você teve
Desapareceu na neblina

Parado na frente
Das ruinas do que você construiu
Chocado até os ossos
E esmagado

Quando gigantes caem e anjos choram
Você sabe – É difícil salvar o dia

A última palavra já está dita e feita
A história acaba onde ela começa
Você tem que encarar o vazio
Não tem como argumentar
Não tem como modificar
Você sabe
É aí que a chuva cai

Não há dúvida que você está acabado
A história termina sem nem começar
Venha e encare o vazio
Não há como se esconder
Você não pode correr, tem de ficar
Parado e assistir
A chuva caindo

Quanto mais alto você coloca seus objetivos
Mais fundo você pode cair
Algumas vezes a vida
Simplesmente não é Justa

Você é um guerreiro incansável
Você se levanta quando cai
Mesmos se você
Não conseguir entender ainda

A última palavra já está dita e feita
A história acaba onde ela começa
Você tem que encarar o vazio
Não tem como argumentar
Não tem como modificar
Você sabe
É aí que a chuva cai

Não há dúvida que você está acabado
A história termina sem nem começar
Venha e encare o vazio
Não há como se esconder
Você não pode correr, tem de ficar
Parado e assistir
A chuva caindo



Já vou me desculpando antecipadamente pela letra depressiva, mas considero que a mensagem passada na "Face the Emptiness" do Primal Fear vale a pena ser ouvida. Esse tipo de mensagem mais pessimista (ou realista, como acredito) é raro no Power Metal, normalmente, em músicas mais reflexivas do estilo, ou as músicas fomentam um sentimento de revolta, ou tentam te mostrar um lado positivo de algum tipo de aflição.

Quando estava traduzindo esta música, pensei seriamente em usar a palavra “estória” no lugar de “histórica” já que no inglês há a diferenciação entre history (disciplina que estuda o passado) e story (conto), mas percebi que ele mistura esses dois conceitos durante a música, como na ótima frase repetida na série Battlestar Galactica: All this has happened before, and all of it will happen again (tudo isso já aconteceu antes e tudo isso vai acontecer de novo). A música é uma repetição da mesma ideia: “encare o vazio, a hi(e)stória acaba antes de começar”. Mas essa ideia não é tão simples e é muito carregada de significado.



A música já começa falando que a história acabou, que os sonhos se perderam, que as ruinas do seu passado te esmagam; a música não te deixa nem respirar e já vai jogando pessimismo em você. Mas, pare para pensar, você deve ter vários planos e sonhos para seu futuro, principalmente se você for jovem. Mesmo que você seja o tipo de pessoa que vive o presente intensamente e deixa para se preocupar com o futuro só no futuro, não há como não criar grandes expectativas para o dia de amanhã. Não importa em qual área da sua vida você deposite sua confiança, você acredita que algo de bom está reservado para você, que você merece. Mas, mesmo que todas essas coisas se realizem, elas nunca são como imaginávamos, mesmo que já esperássemos, os problemas que surgem decorrentes de um futuro de sucesso (não importa em que esfera da vida) nunca são 100% previstos. É como se a angústia que tentamos aliviar hoje fosse irremediável.

Se mesmo quando as coisas ocorrem da forma que esperávamos não consigamos nos livrar da angústia; quando elas não acontecem, ou pior, quando os nossos sonhos ocorrem do avesso, esse sentimento de angústia se apodera da nossa alma e começamos a procurar um sentido para essas dificuldades, uma explicação. Apesar de, eventualmente, essa angústia se transformar em patologias, com o tempo acabamos cometendo os mesmos erros e sofrendo as mesmas decepções.



Há um momento em que se percebe na música a linha de pensamento para sustentar toda essa amargura, é o trecho: “Quando gigantes caem e anjos choram / Você sabe – É difícil salvar o dia”. Sempre estamos tentando salvar o dia, nem que seja só o nosso; mas nos frustramos, afinal não somos gigantes, muito menos anjos. Mesmo que você decida se alienar dos problemas a sua volta, pelo menos os seus problemas acabam, eventualmente, te revoltando.

Uma vez eu passei por uma situação que exemplifica bem esse sentimento de revolta despropositada. Certa vez, enquanto eu navegava na internet, me deparei com a notícia que em represália a ataques terroristas, o governo israelense havia atacado a faixa de gaza e deixado 1300 mortos e mais de 5.000 feridos. Aquilo era inaceitável! Claramente um ato condenável. Pelas imagens reproduzidas na reportagem que eu lia, os alvos principais eram civis; que, aliás, já sofriam o suficiente por viver como refugiados dentro de sua própria terra. A sensação de que eu precisava fazer algo para mudar aquela situação me preencheu como nunca antes uma notícia sobre algo em outro país havia feito. E era importante que eu fizesse algo que realmente interferisse; mas, em poucos segundos, eu percebi que aquilo não me pertencia e que eu estava fadado a tentar conscientizar as pessoas próximas a mim dos horrores acontecidos naquela região.



O sentimento que veio quando eu caí na real, é parecido com o que a música te aconselha a encarar. Mesmo que haja uma consciência responsável pelos rumos que o universo toma, ninguém é capaz de compreendê-los. Você não pode deixar essa angústia de que algo está faltando escondida dentro de ilusões, pois assim você nunca aprenderá a lidar com ela. Os momentos de angústia têm que ser aproveitados, pois é quando você está realmente angustiado, que você tem coragem de refletir sobre as suas ações. Quando as coisas parecem dar certo, talvez você tenha a ilusão de que está seguindo um caminho seguro, ou que algo no universo está olhando por você e te protegendo da imperfeição da vida. Mas quando isso não se confirma, é difícil se reerguer e recomeçar depois de toda a decepção.

Uma técnica legal que os caras usaram na letra para te causar estranhamento é escrever a letra falando direto com o interlocutor, toda música passa a mensagem para “você”, enquanto normalmente em questões mais abrangentes e determinantes o normal é falar para “nós”. Aparentemente o objetivo é chamar para reflexão, e eu também tentei usar essa técnica nesse texto, espero que não tenha sido muita pretensão.

Se aprendermos (agora parei de falar só de você) a lidar com a angústia, a encarar o vazio de nossa alma, entender que ele é parte estrutural de nossa mente; talvez consigamos traçar caminhos mais inusitados para a nós, formas mais realistas de enfrentar as dificuldades. Mesmo nos momentos de euforia, aprender a evitar as ilusões, evitar esconder a angústia no nosso subconsciente, talvez nos prepare para quando tivermos que cair na real.


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Universo Headbanger: A temida e implacável Morte

Atenção: Esse post é melhor apreciado ao som de Morbid Angel e de Black Sabbath.

O desenvolvimento científico e a consequente apropriação da Natureza mudaram a nossa relação com o conhecimento. Vários mistérios receberam respostas elegantes e lógicas. Hoje temos boas teorias científicas para questões polêmicas como a origem do universo, as forças que regem o movimento, a origem das espécies, o funcionamento fisiológico de nossos corpos etc. Esse tipo de conquista acabou gerando uma sociedade, principalmente no ocidente, mais materialista. Não confunda com aquele materialismo pejorativo no qual a pessoa valoriza mais os objetos do que as outras pessoas, o materialismo que falo aqui é o filosófico, no qual se compreende que tudo que existe é formado por matéria ou reduzível a processos de natureza material. Com essa visão mais materialista do mundo, um problema fica em aberto dentro do imaginário social: O que acontece depois da morte?

Ainda há, é claro, as explicações religiosas. Porém, a partir do momento que a ciência é a moeda de troca do conhecimento em nossa época e as instituições religiosas vão se relativizando e se adaptando a novos paradigmas, as nossas crenças subjetivas e espirituais garantem cada vez menos conforto. Nesse contexto, vai ser no espaço da morte que residirá nossas grandes dúvidas e, consequentemente, nossos grandes medos.



Esse espaço não poderia ser preenchido se não pela arte, inclusive, o heavy metal. O heavy Metal, no geral, se comunica através do choque, do conflito. Mesmo uma banda mais reflexiva vai usar elementos de conflito para atrair a atenção de seus ouvintes. Relacionar o tema da morte nas músicas vai se mostrar como um ótimo atrativo para a mensagem que a banda quer passar. A forma como a morte é apropriada pelo heavy metal varia e se confunde com as formas que a morte é apropriada na nossa vida e em nossa cultura.

Na antiguidade a morte era tratada mitologicamente de forma muito mais tranquila do que hoje. Na mitologia grega a morte do herói era também o ápice de sua vida. Era em seu momento de morte que ele alcançava o seu limite. Isso acabava tornando a morte também como uma ferramenta de autoconhecimento, pois e só na morte que o personagem cumpria (e conhecia) todo o seu potencial. Em algumas culturas a morte heroica é vista como uma forma de salvação. Na mitologia nórdica, por exemplo, o dia da sua morte já é predeterminado, porém, caso o viking morresse em batalha, ele iria para Valhalla, terra onde Odin reunia seu exército para a guerra do fim do mundo (ragnarok), lá seria um lugar onde os guerreiros passariam a vida lutando e bebendo esperando alegremente a última batalha. Já os que morressem de morte natural ou acidental (menos em naufrágios) iriam para o Hel que era uma terra melancólica onde os espíritos vagavam por toda a eternidade. Outra cultura que valoriza a morte heroica é o islã, onde, caso o fiel entregue a sua vida a Alá, ele garante o seu lugar no paraíso.

A morte heroica é uma das mais presentes no metal, principalmente nos estilos da família do power metal. Não tem forma melhor de dizer que a história foi dramática e que o sacrifício do protagonista foi enorme do que matando ele no fim, ou pelo menos deixando claro que a morte é o risco. A "Keeper of the Seven Keys" do Helloween é emblemática nesse sentido. Ela segue um ritmo de certa forma contínuo e rápido, até que chega no trecho em que Michael Kiske canta (grita):“Throw the key or you may die!” e o solo que segue é a parte mais melancólica da música. É importante dar ênfase que a jornada do guardião é mortal, é isso que faz grandes clássicos de músicas como essa.



Mesmo no início do cristianismo a morte era tratada apenas como uma passagem. A ideia de céu e inferno e da infinita misericórdia divina davam um aspecto natural ao falecimento. Porém, com a peste negra, a relação da morte com o desconhecido se intensificou. Um período onde um terço dos europeus morreu devido há uma doença desconhecida causou uma profunda ferida no inconsciente coletivo cristão. Desde então o medo da morte se intensificou na cultura ocidental. Com o renascimento e, posteriormente, com o desencantamento do mundo, esse medo teve o acréscimo da incerteza. Não mais vemos o paraíso como um lugar físico. Já viajamos pelo céu e sabemos que ele não está lá. Mesmo a religião cristã se mantendo forte até hoje, as vertentes protestantes tiraram o aspecto “mágico” que a religião tinha até então, fazendo com que as indulgências e a prática ritual não fossem mais garantias de salvação. Dentro da visão calvinista, por exemplo, não cabia ao indivíduo a sua própria salvação, mas sim a Deus. Nessa visão, Deus já havia escolhido, no momento da criação, as almas a serem salvas. A única “dica” que as pessoas teriam sobre o seu próprio salvamento seria a sua conduta, o fiel deveria viver como que se estivesse de passagem no mundo material, abnegando os prazeres e vivendo apenas para glorificar a Deus. Essa relação conflituosa com a morte e com a vida após a morte cria essa sensação terrível de incerteza.



Esse medo da morte é muito bem explorado no heavy metal. Como o estilo começou contando histórias ocultistas e de terror, a morte nesse sentido está presente em diversas vertentes do estilo. Uma música que explora muito bem o sentimento da peste negra é a "Plague and Fyre" da banda Hell. Uma música mais famosa que representa esse medo da morte é a "Raining Blood" do Slayer que fala de um juízo final duro e terrível. A força da música está na representação da espera tortuosa pelo juízo final no purgatório, uma clara ironia a benevolência das crenças cristãs.

O heavy metal tem uma estética muito ligada à força e ao poder. Em relação à morte não poderia ser diferente. As bandas mais pesadas normalmente tratam a morte como algo superável, ou controlável. Acho que não há melhor exemplo do que a "Stronger than Death" do Black Label Society que é uma análise bem peculiar da morte, tratando-a de uma forma bem fria e realista. Há também a apropriação do inferno como símbolo de força, como na "Welcome to Hell" do Venom. A simbologia da morte está também muito presente, como na adoção da personificação da morte como mascote pelo Children of Bodom ou o próprio morto-vivo Eddie, mascote do Iron Maiden.



A simbologia da morte é muito rica nas artes. A morte é a prova que estamos vivos e a vida é a prova que vamos morrer. O Mito grego de Sísifo é muito interessante para pensarmos simbolicamente a relação entre a morte e a vida. Sísifo era um cara muito esperto que conseguia tudo na lábia, era tão bom que acabou enganando até os deuses. Sísifo contou a Asopo, deus dos rios, que Zeus havia sequestrado sua filha Egina. Zeus ficou furioso e mandou Tanatos, deus da morte, perseguir Sísifo. Porém Sísifo prendeu Tanatos impedindo que as pessoas pudessem morrer. Ares então interviu e libertou Tanátos. Sísifo viu que não tinha como escapar e então pediu a sua esposa que não executasse os rituais funerários. Chegando ao mundo dos mortos, Sísifo se queixou a Hades da falta de consideração de sua esposa por não ter efetuado os rituais e solicitou permissão para que voltasse ao mundo dos vivos apenas para castiga-la. Hades aceitou e Sísifo não voltou ao mundo dos mortos até que morreu de velhice. Quando voltou Hades o condenou a empurrar uma pedra até o cume de um monte, caindo a pedra invariavelmente da montanha sempre que o topo era atingido. Esse processo foi repetido até a eternidade.



O mito de Sísifo é sujeito a diversas interpretações. A que eu mais gosto é que Sísifo viveu a sua vida toda com medo da morte e isso fez com que vivesse apenas lutando para evitar o fim. O seu maior anseio era viver eternamente, porém esse foi o seu próprio castigo. A ideia de carregar a pedra até o topo do morro pela eternidade pode ser encarada como uma metáfora para a vida. A vida é um constante carregar a pedra acima do morro, porém nunca conseguimos chegar até lá, o ideal seria que o nosso processo de carregar a pedra seja suficiente em si mesmo. Se esperarmos que a nossa vida só valha a pena quando a pedra estiver parada no topo, então nunca nos realizaremos, pois a morte chegará antes. Sísifo é um elogio a vida sem sentido. Ele é um dos poucos personagens da mitologia grega sem um objetivo definido, o seu único objetivo era viver, e ele acabou, ironicamente, conseguindo. Devemos sempre encarar a morte, pois é essa limitação que nos move, se tivéssemos certeza que viveríamos para sempre, jamais teríamos coragem de carregar as nossas pedras.


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Raio X: Yesterday Don't Mean Shit - Porque amanhã é o dia que temos que encarar



Não há nada especial nisso
Isso existe quer você nasça ou não
Pessoas dotadas com talento não são grande coisa
Bem-vindo à morte de um século.

Porque o ontem não significa nada
O que aconteceu, aconteceu e não há nada no meio
Ontem não significa nada
Porque o amanhã é o dia que você tem que encarar
Não há como voltar ao passado
Ontem não significa nada
Ontem não significa nada

Reviver velhas avaliações
É uma ferramenta inútil de confusão
Não prenda sua respiração para se virar
Entre no mundo de possibilidades infinitas

Porque o ontem não significa nada
O que aconteceu, aconteceu e não há nada no meio
Ontem não significa nada
Porque o amanhã é o dia que você tem que encarar
Não há como voltar ao passado
Ontem não significa nada
Ontem não significa nada

Eles irão te falar sobre culpa
E na hora certa você enfrentará a escuridão
Mas a escuridão é uma amiga para você
Abrace e voe através da loucura
Voando passados Deus, guerras e conflitos
O opressor em você
Arando pelas mentes e paranoia
O opressor em você
O opressor está em você

Porque o ontem não significa nada
O que aconteceu, aconteceu e não há nada no meio
Ontem não significa nada
Porque o amanhã é o dia que você tem que encarar
Não há como voltar ao passado
Ontem não significa nada
Ontem não significa nada

Ontem não significa porra nenhuma

Para te proteger e eu guardarei pra mim mesmo
É assim que tem que ser!



O Raio X de hoje é de uma música que vai mais direta ao ponto do que de costume. Como uma boa música de thrash metal, a melhor forma de passar uma ideia é mostrar claramente o que você pensa sobre o assunto, sem muitos rodeios. A significação do passado é o alvo da “Yesterday Don’t Mean Shit” do Pantera.

A tese da música é clara: O passado não importa, o que realmente importa é como você vive o “hoje”. Não acho que a intenção seja o esquecimento completo do passado, mas sim a sua superação. A impressão que a música passa é que o passado não deve ser um peso na hora de lidar com o presente, quando erramos temos que ser fortes o suficiente para não deixar esses erros influenciarem negativamente nossas decisões.

Acho que o auge da música é o trecho: “Ontem não significa nada porque o amanhã é o dia que você tem que encarar”. A ideia, apesar de simples, carrega um conselho muito difícil de ser seguido. Muitas vezes agimos de forma errada, ou, pelo menos, contra nossa vontade, para concertar equívocos do passado. Deixamos de ser e fazer o que queremos pelo que éramos e acreditávamos anteriormente. Algumas vezes é difícil aceitar as mudanças, é difícil perceber que as nossas antigas convicções não mais fazem sentido e que não nos tornamos quem nós projetamos.

Tente se lembrar de como você era há 10 anos, você se reconheceria hoje? Esse seu “eu” do passado se orgulharia do que você se tornou? Ele concordaria com suas crenças atuais, com suas visões de mundo, com sua rotina e com todo o resto que faz você querer sair da cama e enfrentar um novo dia? Acredito que a mensagem da música é que isso não importa mais, porque nós mudamos e isso é bom.



Quem leu o livro 1984 de George Orwell (se ainda não leu, você não sabe o que está perdendo!) deve se lembrar da visão do personagem O’Brien da realidade (que resumia a visão do partido único opressor): A realidade só existe no espírito e em nenhuma outra parte. O personagem questiona Winston, protagonista do livro, se o passado existe em algum lugar, se ele está acontecendo paralelamente ao presente. A conclusão de Winston é que o passado existe apenas nos registros e na memória das pessoas. Porém, a partir disso, O’Brien mostra que o passado não é algo fixo, considerando que o partido controla os registros e que a mente individual é falha.

Essa referência ajuda a reforçar a relativização que a “Yesterday don’t Mean Shit” faz do passado. O passado não é uma “coisa”, ele não é algo que existe fora da gente. Se um vírus surgisse e acabasse com a vida na terra, nada do que aconteceu antes teria a menor importância para o resto do universo (a não ser que outros seres inteligentes resolvessem estudar nossa história). O que a gente faz e as coisas que acontecem desaparecem no exato instante seguinte, a não ser que fique registrado na memória de alguém, ou em alguma outra forma de registro. Filosoficamente falando, os nossos fantasmas do passado só nos assombram porque nós permitimos, o que passou não tem existência necessária, essas coisas só influenciam o presente se alguém não for capaz de esquecê-las.



Claro que esse tipo de visão é muito polarizada. Não é porque o passado pode ser esquecido que ele deva ser esquecido. O passado pode ter uma função parecida do mito, no sentido de nos dar exemplos, de nos fazer refletir sobre o presente. Quando o mito diz que Eva e Adão comeram do fruto proibido e que, graças a isso, Jeová expulsou o casal primordial do Jardim do Éden, a importância não é explicar literalmente o passado, mas ajudar a entender o presente. Essa história não teria valor nenhum se não fosse pela sua simbologia, ela ajuda a entender o pecado, a relação entre o homem e a mulher, a questão do conhecimento, do prazer e de várias coisas a partir da visão bíblica.

No mundo menos espiritual que vivemos hoje em dia, muitas vezes os mitos místicos não conseguem mais nos servir como guia para avaliar o presente e a história materialista acaba cumprindo essa função. Experimente tentar ver um personagem icônico como Hitler de uma forma menos polarizada e veja a reação das pessoas. Muitas delas não irão aceitar com facilidade. Um personagem demonizado como Hitler é importante para reforçar certos valores atuais, o valor de ainda sabermos quem ele era e o que ele fez não é apenas o mero registro. O que importa é que ele acabou se tornando, no imaginário coletivo, uma personificação dos erros da civilização no século XX. A trajetória dele e do nazismo mostrou para onde o racionalismo impessoal e a supervalorização do progresso técnico-científico pode nos levar se não houver uma maior reflexão crítica desses processos.



É claro que isso é só a minha visão e que a música em si valoriza muito mais o hoje do que eu, particularmente. Na tradução dessa letra no Whiplash, o tradutor diz que essa música foi uma resposta aos críticos que insistiam em lembrar do início glam metal da banda. Caso isso seja verdade, a mensagem é clara: você deve avaliar a qualidade de algo baseado apenas nele, não deve deixar os preconceitos ofuscar a verdadeira essência do presente. Não é porque o Sol nasce todos os dias no horizonte que ele vai continuar nascendo para sempre, e nada impede que a aurora de amanhã seja a mais bela de todas.


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Raio X: These Days - Não restou ninguém a não ser nós




Eu andava por aí, apenas mais um na multidão
Tentando me proteger da chuva
Quando vi um rei mendigo, com sua coroa de isopor
E imaginei se um dia terminaria assim também.

Há um homem na esquina cantando velhas canções sobre mudanças
Todos têm sua cruz para carregar nos dias de hoje.
Ela veio procurando por abrigo, com sua mala cheia de sonhos
Veio para um quarto de motel na avenida
Acho que ela estava tentando ser James Dean
Ela conheceu todos os discípulos, e todos os imitadores
Ninguém quer ser si mesmo nos dias de hoje.
E, ainda assim, não há nada em que se agarrar hoje em dia.

Hoje em dia, as estrelas parecem fora de alcance
Hoje em dia, não há uma escada sequer nas ruas
Os dias de hoje passam rápido, e nada dura nesta época perdida
Não restou ninguém a não ser nós, nos dias de hoje.

Jimmy Shoes quebrou suas duas pernas tentando aprender a voar
De uma janela do segundo andar ele simplesmente saltou, de olhos fechados
Sua mãe o chamou de louco, e ele disse “Mãe, eu tenho que tentar”
“Você não sabe que todos os meus heróis morreram?
E acho que eu preferiria morrer a ser esquecido.”

Hoje em dia, as estrelas não estão fora de alcance
Mas, hoje em dia, não há uma escada sequer nas ruas
Os dias de hoje passam rápido, e nada dura nesta época perdida
Até mesmo a inocência se foi no trem da meia-noite    
E não restou ninguém a não ser nós, nos dias de hoje.

Eu sei que Roma ainda arde em chamas
Mesmo que os tempos tenham mudado
Este mundo continua girando, e girando, e girando
Nos dias de hoje.

Hoje em dia, as estrelas não estão fora de alcance
Mas, hoje em dia, não há uma escada sequer nas ruas
Os dias de hoje passam rápido, o amor não perdura nesta época perdida
Até mesmo a inocência se foi no trem da meia-noite

Hoje em dia, as estrelas não estão fora de alcance
Mas, hoje em dia, não há uma escada sequer nas ruas
Os dias de hoje passam rápido, nada dura, não há tempo a perder
E não sobrou ninguém para levar a culpa
E não restou ninguém a não ser nós, nos dias de hoje.



Hoje temos um Raio X especial e diferente. Especial porque é o primeiro texto do blog que não foi escrito por mim (Vinícius), mas pelo meu grande amigo Daniel Santa Cruz. Também é um texto diferente porque trata de uma banda que não tem muita ligação com o metal, apesar de ter muita ligação com bandas de Hard Rock americano dos anos 80. Acredito que muitos que acompanham o blog não o acompanham apenas por que trata de heavy metal, mas porque gostam de textos que fazem refletir, e Bon Jovi é cheio de músicas inteligentes. Eu sou muito fã da banda e gostei muito do texto, espero que vocês também gostem, fiquem com a análise tensa e sóbria de Daniel.

O ano era 1995. Depois de uma época considerada por muitos a “década perdida” (os anos 1980), o mundo experimentava os primeiros anos de uma geopolítica estadunidense oficialmente hegemônica, após quatro décadas de Guerra Fria. Alguns anos após a queda do Muro de Berlim, parecia haver um vazio de objetivos a atingir.

E esse contexto parece ter inspirado These Days, o disco mais soturno do Bon Jovi. A banda sempre teve em suas canções um forte componente sentimental até Keep The Faith, que em 1992 marcou uma transição para letras mais políticas, culminando no álbum significativamente negativista que o sucedeu em 95.

These Days, faixa-título do álbum, expressa muito bem essa mudança da temática de sexo, drogas e rock and roll, característica do hard rock dos anos 70 e 80, para uma visão mais crítica da sociedade.

Não há nem muito que analisar, é tudo quase literal. As pessoas, nos dias de hoje, ainda buscam seus heróis mortos de outrora, sem nada que possa sustentar seus sonhos. O homem tem as estrelas a seu alcance, mas não consegue tocá-las, pois só quem restou fomos nós, pessoas comuns. E mesmo a inocência, enfim, pegou o último trem e foi-se embora.

Não temos personalidade própria, e nossos ideais ainda são resquícios do passado.



Pesado, não? Pois é. Essa letra me atrai pelo fato de – além de ser uma mudança radical na banda que anos antes gravara “I’ll Be There for You”, clássico dos corações partidos – ser extremamente atual.

Quem são nossos grandes ídolos hoje? Olhando para a música, os únicos que poderiam ostentar tal título ou estão mortos, ou estão bem velhos. Quais são os grandes ideais, numa época de mentes que se tornam mais volúveis e superficiais à medida que ficam mais tolerantes?

Gilles Lipovetsky* e Zygmunt Bauman** são dois caras muito interessantes que exploram essa característica acelerada, contraditória e insegura do mundo atual, ou hipermoderno – como diria Lipovetsky.

Segundo eles, as relações humanas hoje são pautadas pela superficialidade, pois são fundamentadas na rapidez e na volatilidade do mundo atual. As ideologias e convicções deram lugar a fragmentos de pensamento, trocados e modificados a cada instante como peças de roupa. Estamos conectados a cada vez mais pessoas, mas nossos laços são cada vez mais frágeis, convenientes e instáveis. E, segundo Bauman, o consumo acaba por preencher o espaço vazio antes ocupado por relações interpessoais mais profundas.

É, sem dúvida, uma análise pessimista da vida. E, em muitos pontos, concordo com ela.



Mesmo assim, acho que a ausência de certezas e a mudança de paradigmas que vivemos hoje podem ser benéficas. Não é à toa que os últimos regimes autoritários estão ruindo – interesses geopolíticos e econômicos à parte. As pessoas lentamente passam a aceitar as diferenças, e isso é bom, mesmo que signifique às vezes a perda de uma posição firme.

Mesmo sendo pessimista na maioria das vezes, insisto em crer que a humanidade tem salvação. E acredito que a salvação esteja na consciência de que estamos todos fodidos, nesta barca furada que chamamos de Terra, esta geoide maltratada que continua girando mesmo com todo o prejuízo que causamos a ela.

Lentamente, começamos a nos preocupar com o meio ambiente, com a miséria e com a escravidão moderna – ainda que para aplacar nossas consciências pesadas.

A passos de formiga, vamos aprendendo que somos todos seres humanos, e que nossa sobrevivência neste “milagre probabilístico” (gostaria de ter pensado nessa definição brilhante antes de meu grande amigo Vinícius) depende de uma mudança que deve começar agora, ainda que já seja meio tarde.

E você, concorda comigo?



*Gilles Lipovetsky é um filósofo francês. Recomendo: “Os Tempos Hipermodernos”.
** Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês. Recomendo: “Modernidade Líquida”.
 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Raio X: Born in a Mourning Hall - "Preso dentro de uma teia chamada vida"




“De fato isso foi quase uma explosão (fallout) real
Tudo está sob controle”
O narrador disse com um sorriso sério
Atrás de sua máscara
Ele sabia a verdade
“Eu trarei uma nova era de melhores caminhos”
O pregador da TV disse
“Apenas pague hoje
Pague hoje”

O mundo está vestido de preto
No dia do julgamento da terra
E eu?
Eu sei que isto não pode continuar
Sinais proibidos aumentam
Eu estou sentado em casa
E observando

Nascido em um aposento de lamentações
Nuvens pálidas temeram
A criança não nascida
Então ela cresceu com planos crescentes
De suicídio
Nascido em um aposento de lamentações
Sombras deixam o medo dentro
Aquele Peter Pan nunca irá alcançar
O outro lado

É aterrorizante
Excitante sentar em casa
E observar os campos em chamas
Ser hipnotizado pela cobra da TV

Obedeça, trabalhe duro
E não sinta raiva
Apenas simpatia pela alta classe
Não há chance de mudar as coisas
Porque eu sou

Nascido em um aposento de lamentações
Gritos silenciosos ocorrem
Quando o berço quebra
Sonhos destruídos não foram ouvidos
No outro lado
Nascido em um aposento de lamentações
Sombras deixam o medo
na criança recém-nascida
Aquele Peter Pan nunca irá alcançar
O outro lado

E eu sou parte da máquina
Um fantoche nas cordas
Um rebelde, outrora
Agora eu sou um homem velho

Eu sei que isto não pode continuar
Mas o fantasma chamado medo interior
Aleija minha língua
Meus nervos, minha mente
Queda eterna
Alguém corta as cordas
Eu não consigo me mexer
Para recuperar a coragem
Eu tenho que encarar a verdade
Mas não hoje
Adeus

Nascido em um aposento de lamentações
Preso dentro de uma teia chamada vida
O único jeito de sair dela logo
É o suicídio
Nascido em um aposento de lamentações
Almas pálidas constroem um mundo gelado
Cérebros infectados
Nunca alcançarão o outro lado
O outro lado



O post de hoje vai falar da ótima “Born in a Mourning Hall” do Blind Guardian! Se você gosta de músicas que não tenham apenas letras, mas sim poemas, Blind Guardian é a banda para você. Eles são mestres na arte da composição, eles elevam a arte de fazer heavy metal a outro patamar. Uma das coisas mais impressionantes é que eles conseguem fazer quase todas as músicas sem rimar e é muito difícil de perceber quando você ouve despreocupadamente. Além disso, a grande maioria das músicas dos caras são interpretações de obras de ficção, de momentos históricos ou de passagens mitológicas. O interessante é que eles não recontam as obras em suas músicas, eles revivem os personagens. Ouvir Blind Guardian cantando sobre um algo que você goste é uma experiência ímpar.

Born in a Mourning Hall foge um pouco da regra, pois o personagem que a banda nos apresenta está falando sobre a realidade atual (de 1996). Assim como em Paradise e Livin’ on a Chain Gang, o eu lírico começa assistindo TV, nesse caso a TV é o que motiva a reflexão sobre o mundo, principalmente pelo que ela não diz. Temos duas críticas já na primeira estrofe, mas elas se interligam. O jornalismo da TV tenta manter as pessoas em medo constante, no caso relatado, o medo é em relação a um acidente radioativo (fallout). Já a religião da TV se aproveita deste mesmo medo, para que você contribua financeiramente.

É interessante essa ideia de medo constante. Apesar de vivermos em um país violento, ninguém estranha termos vários programas que ficam “caçando” desgraça pelas ruas durante a tarde? Será que não há nenhum outro tipo de notícia para transmitir? Apesar de ser triste, não sei por que é tão importante que saibamos de todos os delitos cometidos durante o dia. A melhor explicação pra isso que eu já ouvi vem do documentário “Tiros em Columbine” de Michael Moore: Enquanto as pessoas estiverem com medo, não arriscarão subverter o status quo, enquanto não estiverem seguras em sair na rua, não vale a pena tentar resolver problemas mais urgentes. Esse tipo de argumento é ainda mais aprofundado no livro “1984” de George Orwell, onde o governo de “Oceania” está em guerra constante contra seus inimigos, muito provavelmente apenas para justificar todos os abusos de poder.



No decorrer da música somos apresentados a uma pessoa consciente das contradições do sistema, mas que se vê impossibilitada de agir. Aparentemente, o personagem descrito lutou contra tudo isso e falhou em seus objetivos. Mas não foi uma derrota física, foi uma derrota mental. A própria experiência de vida mostrou insistentemente que ele era muito insignificante perto da magnitude da estrutura estabelecida. Creio que muitas pessoas se sentem assim (eu sou uma delas): apesar de considerarem que o mundo poderia ser bem melhor, não encontram nenhum tipo de opção que traga algum horizonte de melhora. É claro que sempre podemos melhorar um pouco a vida das pessoas a nossa volta, mas com o tempo as coisas voltam a ser como sempre foram. A impressão é que nada nunca muda.

Porém, nos refrões, quem se comunica com o ouvinte é uma espécie de narrador que, através de metáforas, explicam o porquê de toda essa imobilidade. A impotência do personagem é muito mais interior do que exterior: Almas pálidas constroem um mundo gelado / Cérebros infectados / Nunca alcançarão o outro lado. O mundo em que vivemos é um pouco cruel nesse sentido. Diferentemente de outras épocas, em que as coisas eram como eram porque deveriam ser daquele jeito, qualquer um tem acesso fácil a diversos livros subversivos que vão do Manifesto Comunista até o Mein Kampf hoje em dia. Qualquer um que se interesse tem acesso aos mais diversos tipos de visão de mundo, mas somos tão condicionados a aceitar que o Estado e o sistema econômico são inatingíveis, que não enxergamos nenhum horizonte de mudança real, pelo menos não para melhor. É muito comum as pessoas não simpatizarem com seus governos e com o mundo em geral, mas mesmo assim, seus cérebros infectados não conseguem dar o primeiro passo em direção ao outro lado.

A mensagem que essa música passa é um pouco desanimadora, mas, apesar disso, ela causa um incômodo benéfico na minha opinião. A única coisa que não pode impedir-nos de fazer o que achamos certo é nós mesmos. Nunca saberemos se é possível mudar se não tentarmos, deixar de acreditar em algo sem antes tentar colocar em prática, pode ser um desperdício sem tamanho. Mesmo que acabemos como um rebelde frustrado, pelo menos teremos consciência que tentamos.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Raio X: Crazy Train - Todos abordo!!!!



Louco, mas é assim que as coisas são
Milhões de pessoas vivendo como inimigas
Talvez não seja tarde demais
Para aprender a amar
E esquecer como odiar

Feridas mentais não têm cura
A vida é uma vergonha amarga
Estou saindo dos trilhos num trem maluco
Estou saindo dos trilhos num trem maluco

Eu escutei os pregadores
Eu escutei os tolos
Eu vi quem abandonou os estudos
Que fazem suas próprias regras
Uma pessoa condicionada
A mandar e controlar
A mídia vende isto
E você vive o papel

Feridas mentais ainda gritam
Deixando-me louco
Estou saindo dos trilhos num trem maluco
Estou saindo dos trilhos num trem maluco

Sei que as coisas estão saindo erradas para mim
Você precisa escutar minhas palavras

Herdeiros de uma guerra fria
Foi o que nos tornamos
Herdando problemas
Estou mentalmente anestesiado
Louco, eu simplesmente não consigo suportar
Estou vivendo com algo
Que simplesmente não é justo

Feridas mentais não têm cura
Quem e o que culpar
Estou saindo dos trilhos num trem maluco
Estou saindo dos trilhos num trem maluco


Mais um clássico do heavy metal será analisado no raio x de hoje. Nada mais, nada menos que Crazy Train de Ozzy Osbourn. Ozzy talvez seja a figura mais icônica do Heavy Metal, quase como se fosse a caricatura do próprio estilo que ele ajudou a inventar. Crazy Train é uma música que, além de ser uma ótima composição, parece dizer muito do que se passa na cabeça do príncipe das trevas (que apelido foda, pqp!)

Como era de se esperar, a música é meio louca. Em alguns momentos parece um elogio à própria loucura, em outros, a loucura é próprio problema. O que fica claro na música é a crítica à “normalidade” que é pregada pela sociedade.  O interessante é que em nenhum momento ele diz que, ao sair do ponto comum, você terá alívio. Pelo contrário, a música é quase um manifesto de alguém que desistiu deste mesmo “alívio”.

Este ponto é interessante, você pode viver a vida que esperam de você e sofrer por não poder dar vazão a seus anseios, ou você pode abandonar os estereótipos e, talvez, se perder em uma busca pela identidade. Pelo visto, foi a segunda alternativa que o eu lírico escolheu (e aposto que também o próprio Ozzy). A música não é muito animadora, ela indica que há uma pressão externa para que sejamos algo, mas este “algo” não condiz com o que realmente queremos e podemos ser.

Crazy Train não fica só em uma reflexão abstrata, ela aponta alguns culpados. No final da letra ela entrega uma das fontes do problema: a Guerra Fria. No meio da música, a mídia é citada como uma pressão externa e isso não é nenhuma novidade, mas quando a letra aponta o dedo para o período de embate entre os EUA e a URSS, as possibilidades de análise (leia: possibilidades de viagem) começam a sair um pouco do clichê.

A guerra fria, como o próprio nome já entrega, foi uma guerra disputada por meios não convencionais. Era uma guerra principalmente de propaganda. Não importava tanto se cada um estava satisfeito individualmente, mas que todos acreditassem que trocar de sistema econômico pioraria muito as coisas. No lado capitalista era importante mostrar a prosperidade e as diversas oportunidades. Basicamente, se você estivesse infeliz, a culpa era sua.



A publicidade em geral é muito policiada hoje em dia. Ela ainda segue a lógica de tentar te convencer a gastar seu dinheiro ou seu tempo em algo. Porém, por mais idiota que nós (consumidores) aparentamos ser, aprendemos a não engolir qualquer coisa que nos vendem com o tempo. Além do fato de a própria concorrência entre as marcas mostrarem, eventualmente, as contradições dentro do que nos é vinculado. Isso faz com que a publicidade no século XXI procure ter alguma relevância em suas estratégias e não tentar vender algo que não queremos. Mas, no auge da guerra fria, as coisas eram diferentes. Você precisava odiar os comunistas! A melhor forma de te convencer isso é fazer com que você ame o capitalismo e acredite em todas as suas promessas.

Um grande grupo de pessoas (o Ozzy incluído) foi criado em uma época na qual se acreditava que só o que você precisava para ser feliz era seguir corretamente a cartilha do “american way of life”. Muitos buscaram incessantemente por isso. Mas, no momento que esperavam colher os frutos, alguns se decepcionaram. Perceberam que mesmo tendo estabilidade financeira, poder de consumo e uma família padrão, você ainda pode ter aquele sentimento que tem algo faltando, porém, você não tem mais nenhuma cartilha para te dizer como preencher esse vazio.

Esse sentimento de angústia pode ser atribuído a outros fatores além da decepção com o modelo ocidental. Normalmente ficamos muito satisfeitos quando atingimos certos objetivos na vida, como por exemplo, cursar uma faculdade, conseguir um bom emprego etc. Porém, quando nos damos conta, nem mesmo começamos a aproveitar a nova vida e já estamos dedicando todos os nossos esforços para cumprir outro objetivo futuro. Se não pararmos de vez em quando e nos dedicar a nós mesmos, a vida acaba se tornando uma corrida para morte.

É claro que é possível que nada disso tenha passado na cabeça dos caras na hora de compor essa música, talvez tenha passado muito mais coisa. Mas o legal de uma obra de arte é que, assim que ela é finalizada, ela sai do controle do artista e se comunica com cada interlocutor a partir das próprias experiências de cada um.


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Raio X: Sad but True - Não somos os mestres de nós mesmos


Ei, eu sou sua vida
Sou aquele que o levou lá
Ei, eu sou a sua vida, sou o que se importa
Eles, Eles traem
Eu sou o seu único amigo verdadeiro agora
Eles, eles irão trair
Eu estarei sempre lá

Eu sou o seu sonho, faço-o real
Sou os seus olhos quando você precisa roubar
Sou sua dor quando você não pode sentir
Triste, mas é verdade.

Eu sou o seu sonho, mente perdida
Sou seus olhos enquanto você está distraído
Sou sua dor quando você rebate
Você sabe, é triste, mas é verdade

Você, você é a minha máscara
Você é a minha cobertura, meu casulo
Você, você é a minha máscara
Você é quem é culpado

Faça, faça meu trabalho
Faça meu trabalho sujo, bode expiatório
Faça, faça meus deveres
Para que só você se envergonhe.

Ódio, eu sou o seu ódio
Sou o seu ódio quando você quer amar
Pague, pague o preço
Pague por nada ser justo

Ei, eu sou sua vida
Fui eu que o trouxe aqui
Ei, eu sou a sua vida
E eu não me importo mais

Sou sua verdade, mentindo
Sou seus álibis racionais
Eu estou dentro, abra seus olhos
Eu sou você




Nessa semana analisaremos a letra de “Sad but True” do Metallica, uma das mais importantes bandas de heavy metal e uma das pioneiras do estilo nas Américas, além de ajudar a formar o Thrash Metal. O desafio de analisar uma música como a Sad but True é a sua falta de linearidade o que obriga uma fuga maior do universo da música.

A música trata de um dilema muito comum a qualquer pessoa que pare eventualmente para refletir. O que somos nós, individualmente falando? Essa pergunta é impossível de responder tendo base apenas com o conhecimento antes de Freud. O pensamento mais comum envolve coisas subjetivas, como alma, espírito, reencarnação, que varia da crença de cada um e que não serão discutidas aqui.

O conceito trazido pela psicanálise que há algo dentro da gente, da qual não temos controle e que, muitas vezes, controla nossas ações é um pouco mais complexo. Normalmente temos a sensação de sermos senhores de nós mesmos, quase como um ente superior que habita o nosso corpo e o utiliza a seu bel-prazer. Porém, há escolhas na nossa vida que, por mais que analisemos, não encontramos nossas verdadeiras motivações, algumas vezes até pensamos que seria melhor voltar no tempo e fazer diferente. O engraçado é que, mesmo assim, muitos de nós acabamos cometendo os mesmos erros no futuro.



O que fazer diante desse incontrolável eu? Quantas vezes não nos deparamos no nosso dia-a-dia com pessoas fazendo coisas que criticam, ou criticando coisas que fazem? Bem, caso você também se incomode com isso, comece olhando para dentro. Imagino que seja impossível controlar todos os nossos impulsos, mas isso não é desculpa para sermos incoerentes.

Voltando a letra da música, ela fala de um “eu” interior de uma forma nem um pouco animadora. Basicamente como se houvesse uma luta entre a nossa consciência e os nossos instintos. Pensando de uma forma mais darwinista, a hipótese da música faz todo sentido. Nós só estamos aqui hoje, porque todos os nossos ancestrais foram bons o suficiente em apenas duas coisas: sobreviver e procriar. Pensando que nossos impulsos irracionais, no fim das contas, são controlados por nossos genes, todos os genes que nos ajudaram a sobreviver e a procriar tiveram mais chances de se manter replicando. Os que nos ajudariam a ser bondosos, éticos, compreensíveis ou qualquer outra qualidade enfatizada nas diversas morais, não necessariamente resistem ao passar de milhares de anos.

Porém, há algo em nós humanos que quebra com essa lógica da seleção natural. No limite, somos a única espécie (na terra) que entendeu esse processo. Essa diferença nos deu, durante toda a história da civilização, a oportunidade de criar nossas próprias regras de convivência e comportamento. O processo evolutivo de milhões de anos confrontado pela vivência social nesses últimos milhares de anos, talvez tenha gerado essa disputa interna de uma parte consciente que é capaz de racionalizar nossas ações e outra que apenas faz o que a gente sempre fez, lutou pela nossa sobrevivência.

Poderia falar mais sobre esse tema, mas corro o risco de ficar muito maçante e de esgotar um tema muito complicado em apenas uma música. Sad but True é uma ótima música para refletirmos até que ponto escolhemos as coisas certas para nós mesmos e até que ponto somos mestres de nossa própria vida.