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domingo, 15 de janeiro de 2012

Review - Unbreakable: "Bad Guys" tocam heavy metal old school

Em um estilo musical com tantas bandas, estilos e tipos diferentes de fãs é normal que não seja um estilo estático. Aliás, é bem possível que a resistência que o heavy metal demonstra em não envelhecer venha do fato de estar sempre se reinventando. Claro que esse fenômeno tem seus efeitos colaterais, muitas bandas conseguem apresentar uma sonoridade interessante em seus primeiros CDs, ganham notoriedade com ela; mas, quando dão sequência em suas carreiras, fazem escolhas ruins e acabam vivendo de um ou dois CDs. Ou então há casos em que bandas se prendem tanto em um único tipo de sonoridade que começam a ficar repetitivas. O “Unbreakable” do Primal Fear não comete nenhum desses dois erros.
 


O Primal Fear é muito fiel a sua sonoridade e é o tipo de banda que corre o risco de ser repetitiva. Eu não duvido que haja pessoas que pensem isso do Unbreakable, porém o tipo de metal que o Primal Fear faz merece ser explorado mais. O som da banda é muito marcado por riffs, pelo vocal agudo do Scheepers e pelos refrões bem trabalhados. Descrever a sonoridade do Primal Fear é praticamente definir o heavy metal, exigir de bandas que fazem esse som mais “cru” que se atualizem, ou que se “modernizem” pode ser um tiro no pé. Primeiro porque teria que se admitir o risco de um CD muito mais artificial, segundo que ficaria um buraco no estilo. Lançamentos de bandas como Primal Fear, Judas Priest ou AC/DC são garantias de boas músicas, porque sabemos que eles não vão arriscar.

Claro que também não dá pra falar que o Primal Fear não muda. Fazendo uma análise da discografia da banda dá pra perceber um movimento. A banda em seus primeiros CDs era muito mais melódica, com músicas mais “arrastadas” por assim dizer. Mas essas mudanças não ocorreram de um CD para o outro, ela percorre toda a obra da banda, parecendo que foi algo não premeditado.


 
Unbreakable tem ótimas músicas, apesar de muitas parecidas entre si, o estilo do Primal Fear é difícil de enjoar. Gostei muito da “Give ‘em Hell”, da “And There Was Silence” e da “Blaze of Glory”. Eu acho muito legal também os temas das letras do álbum. Não tem tema melhor pra se fazer uma música de heavy metal que o próprio heavy metal e coisas como guerra, orgulho etc. O ano de 2012 começa já muito bem com Unbreakable, não deixe de ouvir.



quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Profile: Tente falar "New Wave Of British Heavy Metal" três vezes rápido!


O New Wave of British of Heavy Metal (NWOBHM) é o evento mais importante da história do heavy metal, se ele não tivesse ocorrido, talvez o heavy metal não sobrevivesse os anos 80. Foi esse movimento que trouxe o heavy metal para mídia como um movimento, não como uma sonoridade experimental de algumas bandas. Poucas bandas conseguiram sobreviver até hoje com um sucesso expressivo, mas graças ao NWOBHM o metal proliferou pelo mundo.


Apesar de ser visto como um movimento espontâneo, independente da mídia e de desmandos de gravadoras, houve um jornal que foi determinante para a divulgação do movimento, o periódico se chamava “Sounds”. Esse jornal também foi responsável por cunhar pela primeira vez o termo NWOBHM. Mas, musicalmente falando, se alguém pode ser considerado responsável pelo movimento é o DJ Neal Kay, dono da Soundhouse, clube em que o Iron Maiden fez a sua primeira gravação. Kay foi mentor e incentivador de bandas como Iron Maiden, Saxon, Samson, Angel Witch e Praying Mants. Ele também começou a escrever para sounds artigos sobre as bandas do movimento.

Uma das primeiras bandas do movimento e a mais famosa é o Iron Maiden. Ainda no fim da década de 70 eles lançaram o “The Soundhouse Tapes”. O EP foi gravado de forma independente e sintetiza muito bem o espírito do movimento. Houve muita influência do Punk, a ideia do “Do it yourself” estava presente. O som era mais alto e agressivo do que os antecessores e a influência do blues já não era mais perceptível. Apesar de os músicos do Iron mostrarem ao longo do tempo que eram exímios músicos, nesse momento o importante era o entusiasmo. A sonoridade da banda na era Paul Di’Anno é bem diferente da sonoridade que a banda adotaria depois, mais leve e mais melódica.

O Iron Maiden (e também o Metallica) é, muitas vezes, a banda responsável pelo primeiro contato que as pessoas têm com o heavy metal e isso não é à toa. Além de eles terem sido pioneiros em um dos momentos mais importantes da história do metal, eles conseguiram sair do paradigma do começo dos anos 80 e passou todos esses anos produzindo um som de qualidade. Músicas como "Fear of the Dark" e "The Number of the Beast” estão marcadas na história do rock e são poucos que não as conhecem. A banda também incorporou elementos de História e Literatura em suas composições, abrindo um leque de possibilidades que posteriormente seria adotado por diversas bandas do gênero. A discografia da banda é grande e são muitas músicas ótimas. Além das duas músicas já citadas neste parágrafo, não deixe de ouvir "Holy Smoke" e "Wasted Years”, minhas músicas preferidas da banda.


Apesar do clube Soundhouse, o Iron Maiden e o periódico Sound serem de Londres, o NWOBHM foi um evento que ocorreu simultaneamente em toda Inglaterra. Uma banda da cidade de Sheffield que também ajudou a iniciar o movimento foi o Def Leppard. Eles começaram a fazer seus shows ainda em 1977 e conseguiram uma rápida notoriedade. Porém, quando, em 1980 lançaram seu primeiro disco, o “On Through the Night”, eles se desviaram da idéia do NWOBHM e adotaram uma sonoridade mais acessível, inspirada no hard rock nascente nos EUA. Por mais blasfêmico que isso possa ter parecido na época, foi dessa forma que a banda conseguiu se consagrar na história do rock, atingindo marcas impressionantes, inclusive uma marca no Guinness Book por ter tocado em três continentes em um único  dia! Ouçam "High’n Dry” e "Let’s Get Rocked" que vocês não vão se arrepender.

Outra banda que conseguiu se manter firme até a atualidade foi o Saxon. Entre 79 e 83 a banda lançou cinco álbuns com ótima crítica, sendo que quatro deles conseguiram boas colocações das listas inglesas. Em 1984 a banda lançou o álbum Crusader que, mesmo sendo considerado um dos melhores álbuns da banda, já mostrava uma “americanização” da sonoridade da banda. O NWOBHM foi cruel com as bandas que não souberam se atualizar, poucas tiveram fôlego para chegar aos anos 90 com alguma visibilidade. Talvez essa comercialização do som do Saxon (o mesmo para as mudanças do Iron Maiden e do Def Leppard) tenha sido crucial para o sucesso da banda que está firme e forte até hoje. Ouça "Rock City" e "Surviving Against the Odds”!


Uma das bandas desse movimento que mais influenciou o que viria posteriormente foi o Venom. Muitas vezes vistos como os pais do metal extremo, o Venom foi a primeira banda a usar temas satânicos com um papel de destaque em suas composições. O resultado disso é meio óbvio, aclamados por fãs de metal pesado, mas duramente criticados pela crítica, o Venom não conseguiu alcançar o mesmo patamar das outras bandas citadas aqui. Mas não é nada mal ficar marcado na história como a inspiração para o Black e o Death Metal! "Processed” e "Sadist” são minhas indicações.

Muitas bandas fizeram parte desse movimento que, temos que admitir, é datado. As bandas que realmente conseguiram superar o início dos anos 80 e deixar sua marca na história do rock foram aquelas que encontraram uma identidade própria ainda no começo da década. Apesar de breve, o NWOBHM influenciou praticamente tudo que foi produzido de heavy metal nos anos 80, do power metal até o black metal. Para quem quer entender melhor a sonoridade do movimento, a compilação New Wave of British Heavy Metal '79 Revisited é um CD bem legal, vale a pena!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Raio X: Face the Emptiness - A história acabou antes mesmo de começar


 

A história acabou
Está finalizada, acabada
O sonho que você teve
Desapareceu na neblina

Parado na frente
Das ruinas do que você construiu
Chocado até os ossos
E esmagado

Quando gigantes caem e anjos choram
Você sabe – É difícil salvar o dia

A última palavra já está dita e feita
A história acaba onde ela começa
Você tem que encarar o vazio
Não tem como argumentar
Não tem como modificar
Você sabe
É aí que a chuva cai

Não há dúvida que você está acabado
A história termina sem nem começar
Venha e encare o vazio
Não há como se esconder
Você não pode correr, tem de ficar
Parado e assistir
A chuva caindo

Quanto mais alto você coloca seus objetivos
Mais fundo você pode cair
Algumas vezes a vida
Simplesmente não é Justa

Você é um guerreiro incansável
Você se levanta quando cai
Mesmos se você
Não conseguir entender ainda

A última palavra já está dita e feita
A história acaba onde ela começa
Você tem que encarar o vazio
Não tem como argumentar
Não tem como modificar
Você sabe
É aí que a chuva cai

Não há dúvida que você está acabado
A história termina sem nem começar
Venha e encare o vazio
Não há como se esconder
Você não pode correr, tem de ficar
Parado e assistir
A chuva caindo



Já vou me desculpando antecipadamente pela letra depressiva, mas considero que a mensagem passada na "Face the Emptiness" do Primal Fear vale a pena ser ouvida. Esse tipo de mensagem mais pessimista (ou realista, como acredito) é raro no Power Metal, normalmente, em músicas mais reflexivas do estilo, ou as músicas fomentam um sentimento de revolta, ou tentam te mostrar um lado positivo de algum tipo de aflição.

Quando estava traduzindo esta música, pensei seriamente em usar a palavra “estória” no lugar de “histórica” já que no inglês há a diferenciação entre history (disciplina que estuda o passado) e story (conto), mas percebi que ele mistura esses dois conceitos durante a música, como na ótima frase repetida na série Battlestar Galactica: All this has happened before, and all of it will happen again (tudo isso já aconteceu antes e tudo isso vai acontecer de novo). A música é uma repetição da mesma ideia: “encare o vazio, a hi(e)stória acaba antes de começar”. Mas essa ideia não é tão simples e é muito carregada de significado.



A música já começa falando que a história acabou, que os sonhos se perderam, que as ruinas do seu passado te esmagam; a música não te deixa nem respirar e já vai jogando pessimismo em você. Mas, pare para pensar, você deve ter vários planos e sonhos para seu futuro, principalmente se você for jovem. Mesmo que você seja o tipo de pessoa que vive o presente intensamente e deixa para se preocupar com o futuro só no futuro, não há como não criar grandes expectativas para o dia de amanhã. Não importa em qual área da sua vida você deposite sua confiança, você acredita que algo de bom está reservado para você, que você merece. Mas, mesmo que todas essas coisas se realizem, elas nunca são como imaginávamos, mesmo que já esperássemos, os problemas que surgem decorrentes de um futuro de sucesso (não importa em que esfera da vida) nunca são 100% previstos. É como se a angústia que tentamos aliviar hoje fosse irremediável.

Se mesmo quando as coisas ocorrem da forma que esperávamos não consigamos nos livrar da angústia; quando elas não acontecem, ou pior, quando os nossos sonhos ocorrem do avesso, esse sentimento de angústia se apodera da nossa alma e começamos a procurar um sentido para essas dificuldades, uma explicação. Apesar de, eventualmente, essa angústia se transformar em patologias, com o tempo acabamos cometendo os mesmos erros e sofrendo as mesmas decepções.



Há um momento em que se percebe na música a linha de pensamento para sustentar toda essa amargura, é o trecho: “Quando gigantes caem e anjos choram / Você sabe – É difícil salvar o dia”. Sempre estamos tentando salvar o dia, nem que seja só o nosso; mas nos frustramos, afinal não somos gigantes, muito menos anjos. Mesmo que você decida se alienar dos problemas a sua volta, pelo menos os seus problemas acabam, eventualmente, te revoltando.

Uma vez eu passei por uma situação que exemplifica bem esse sentimento de revolta despropositada. Certa vez, enquanto eu navegava na internet, me deparei com a notícia que em represália a ataques terroristas, o governo israelense havia atacado a faixa de gaza e deixado 1300 mortos e mais de 5.000 feridos. Aquilo era inaceitável! Claramente um ato condenável. Pelas imagens reproduzidas na reportagem que eu lia, os alvos principais eram civis; que, aliás, já sofriam o suficiente por viver como refugiados dentro de sua própria terra. A sensação de que eu precisava fazer algo para mudar aquela situação me preencheu como nunca antes uma notícia sobre algo em outro país havia feito. E era importante que eu fizesse algo que realmente interferisse; mas, em poucos segundos, eu percebi que aquilo não me pertencia e que eu estava fadado a tentar conscientizar as pessoas próximas a mim dos horrores acontecidos naquela região.



O sentimento que veio quando eu caí na real, é parecido com o que a música te aconselha a encarar. Mesmo que haja uma consciência responsável pelos rumos que o universo toma, ninguém é capaz de compreendê-los. Você não pode deixar essa angústia de que algo está faltando escondida dentro de ilusões, pois assim você nunca aprenderá a lidar com ela. Os momentos de angústia têm que ser aproveitados, pois é quando você está realmente angustiado, que você tem coragem de refletir sobre as suas ações. Quando as coisas parecem dar certo, talvez você tenha a ilusão de que está seguindo um caminho seguro, ou que algo no universo está olhando por você e te protegendo da imperfeição da vida. Mas quando isso não se confirma, é difícil se reerguer e recomeçar depois de toda a decepção.

Uma técnica legal que os caras usaram na letra para te causar estranhamento é escrever a letra falando direto com o interlocutor, toda música passa a mensagem para “você”, enquanto normalmente em questões mais abrangentes e determinantes o normal é falar para “nós”. Aparentemente o objetivo é chamar para reflexão, e eu também tentei usar essa técnica nesse texto, espero que não tenha sido muita pretensão.

Se aprendermos (agora parei de falar só de você) a lidar com a angústia, a encarar o vazio de nossa alma, entender que ele é parte estrutural de nossa mente; talvez consigamos traçar caminhos mais inusitados para a nós, formas mais realistas de enfrentar as dificuldades. Mesmo nos momentos de euforia, aprender a evitar as ilusões, evitar esconder a angústia no nosso subconsciente, talvez nos prepare para quando tivermos que cair na real.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Profile: Heavy Metal - A Origem

Hoje vamos falar do começo do heavy metal. É sempre muito difícil definir quando algo começa e termina na arte, acaba sendo sempre uma questão de convenção no fim das contas. Ainda no fim dos anos 60 houve uma mudança forte de perspectiva no Rock and Roll. Como já visto no profile anterior, alguns atribuem o inicio do Hard Rock ao primeiro disco da banda Blue Cheer. Em uma pesquisa rápida pela internet, você verá que eles também são considerados por alguns como o começo do heavy metal, mas, para a história, o disco homônimo de estreia do Black Sabbath é considerado pela maioria como o primeiro disco do estilo.



Claro que, se comparado com o rock produzido na Inglaterra nessa época, o Black Sabbath estava inserido dentro do Hard Rock nascente, não havia uma ruptura clara ainda nessa época. Mas o que fez o Álbum se diferenciar do resto e, visto posteriormente, ser atribuído como fundador do heavy metal, foi o seu distanciamento do clima lúdico tão característico do Rock and Roll ate então. Quando ouvimos as bandas do fim dos anos 60 e do começo dos anos 70, não encontramos o clima ocultista do Black Sabbath. Foi com Ozzy Osbourne (Vocal), Tommy Iommi (Guitarra), Geezer Butler (Baixo) e Bill Ward (Bateria) que o Rock começou a assumir de vez esse lado “preto” em oposição a toda psicodelia vigente. A idéia dos caras era fazer um som de terror, inspirados nos filmes e na literatura do estilo.

Com o passar dos anos 70, o Black Sabbath continuou sua forte caminhada para se tornar uma das mais importantes bandas de Rock da história. O segundo disco da banda foi o “Paranoid” que foi um grande sucesso de público e crítica. “Sabbath Bloody Sabbath” e “Sabotage” também marcaram a história dos anos 70 na música pesada. Apesar de grandes músicas compostas e diversos prêmios, a banda viveu tempos de altos e baixos devido, principalmente, ao abuso de drogas. No fim dos anos 70, a banda decidiu despedir Ozzy por pressão de gravadora e por sua falta de comprometimento. Em seu lugar foi contratado Ronnie James Dio que influenciou muito na sonoridade da banda graças a sua visão peculiar de composição e sua capacidade de criar linhas de vocal mais complexas. Foi nesse contexto que a banda lançou Heaven and Hell, um dos CDs mais bem sucedidos da carreira da banda. A história do Black Sabbath vai longe e recentemente foi anunciada a reunião dos integrantes originais para o lançamento de mais um CD, a torcida fica para que o legado continue! Músicas que eu gosto muito dos caras são a "Iron Man" e a "Heaven and Hell"



Apesar de a banda considerada como fundadora do heavy metal ser o Black Sabbath, foi o Judas Priest a primeira banda a definir o que separava realmente o heavy metal do hard rock dos anos 70. A grande importância do Judas Priest foi a superação da sonoridade mais puxada para o blues que o rock pesado tinha até então. Eles conseguiram reunir as inovações de bandas como Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep purple e unir com elementos próprios como o vocal mais agressivo de Rob Halford e a utilização de duas guitarras. Mesmo muito do heavy metal já estar no Black Sabbath, Judas é a primeira banda que é definitivamente heavy metal. Apesar de toda essa inovação, o sucesso maior da banda viria nos anos 80 devido ao New Wave of British Heavy Metal, que deixou o estilo mais em evidência. Judas Priest é uma banda que sempre soube se reinventar e tem diversos álbuns ótimos por toda a sua carreira. Minhas recomendações são "All Guns Blazing" e "Death Row".



Enquanto Judas Priest Foi importante para distinguir o heavy metal do hard rock dos anos 70, no final desta década, o Motörhead trouxe novos paradigmas que guiariam o estilo nos anos 80. Com forte influência do Punk, A banda fazia um som que alguns chegam a definir como o início do thrash metal e do speed metal. Além disso, a sonoridade Punk da banda acabaria influenciando bandas do NWOBH que beberam muito nessa fonte. "Ace of Spades" e "Iron Fist" são músicas que tem que estar no repertório de qualquer fã de metal!

Os anos 70 não foram tão generosos para as bandas de heavy metal quanto foram os anos 80. Mas foi nessa época que o estilo nasceu, mesmo sendo sustentado por apenas alguns grupos isolados. Vai ser na década seguinte que o heavy metal vai ter o grande boom criativo. Várias outras bandas de hard rock tinham suas músicas que se confundiam com o heavy metal nessa época, o que deixava o estilo um pouco na aba do hard rock, uma ovelha negra. Mesmo assim muita coisa boa foi produzida e é sempre bom voltar às origens.


domingo, 6 de novembro de 2011

Review: Call to Arms - Firme e forte contra todas as probabilidades


Quando se fala de um estilo de música que existe há 43 anos, é impossível esperar que ele se mantenha intacto por todo esse tempo. Junto com essas mudanças, tanto os fãs quanto as bandas têm que escolher entre seguir o fluxo ou manter-se em um paradigma temporal. É esse dilema que separa fãs de diversas bandas, enquanto alguns se fixam nos primeiros CDs como os únicos que merecem ser ouvidos, outros acompanham a trajetória da banda e, algumas vezes, até preferem os CDs mais atuais. O desafio de uma banda de heavy metal é sempre fazer um som que, ao mesmo tempo em que respeite a sua história, não deixa o seu som envelhecer. Em “Call to Arms” os caras do Saxon Conseguiram.



Call to Arms é um ótimo CD para quem gosta da sonoridade de um heavy metal mais clássico. Saxon não deixou para trás toda sua história neste disco. Ao mesmo tempo, As composições não são exatamente o que eram nos anos 80. Como um álbum mais “clássico”, vários elementos de heavy metal que normalmente buscamos são encontrados em abundância em “Call to Arms”: riffs presentes, refrões marcantes, temas épicos, temas despretensiosos, músicas lentas, músicas rápidas etc.

O impressionante é ver uma banda em seu 19º álbum e com músicas que respeitam sua história. Muitas bandas com o tempo acabam ou se reinventando, ou perdendo o jeito. O risco de uma banda com mais de 30 anos de história sempre corre é o risco de virar uma banda cover de si mesma. Isso definitivamente não acontece em “Call to Arms”



Gostei muito do disco, principalmente das músicas mais rápidas como “Afterburner” e “Surviving Against the Odds”. A “Back in 79” é muito interessante pelo seu clima nostálgico que representa muito bem o CD. O Álbum fecha com a ótima “Ballad of the Working Man” com uma letra foda. Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi arte da capa com o seu clima de primeira guerra mundial (ou alguma outra, sei lá). Ouçam “Call to Arms” não vão se arrepender!


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Raio X: Balls to the Walls - "Eles te farão beber o próprio sangue"




Tantos escravos neste mundo
Morrem por tortura e dor
Tantas pessoas não enxergam
Eles estão se mantando, enlouquecendo.

Tantas pessoas não sabem
Escravidão está sobre a raça humana
Eles acreditam que escravos sempre perdem
E este medo os mantém submissos

Cuidado com os condenados – Deus os abençoe
Eles vão quebrar as correntes
Não, você não pode detê-los – Deus os abençoe
Eles estão vindo te pegar!

E você terá suas bolas no muro, cara
Bolas no Muro
Você terá suas bolas no muro, cara
Bolas no Muro, Bolas no muro

Você pode confundir a mente deles
Você pode sacrificá-los também
Você pode deixa-los em carne viva
Você pode estuprar todos eles

Um dia os torturados se levantarão
E se revoltarão contra o mal
Eles te farão beber o próprio sangue
E te farão em pedaços

É melhor tomar cuidado com os condenados – Deus os abençoe
Eles vão quebrar as correntes
Não, você não pode detê-los  - Deus os Abençoe
Eles estão vindo para te pegar!

E você terá suas bolas no muro, cara
Bolas no Muro
Você terá suas bolas no muro, cara
Bolas no Muro, Bolas no muro

Vamos!

Ei cara, vamos nos erguer perante o mundo
Vamos enfiar uma bomba no cu de cada um
Se eles não nos deixarem viver
Nós vamos lutar pelos nossos direitos
Construa um muro com os corpos e você estará a salvo
Deixe o mundo apavorado
Vamos me mostre o sinal da vitória

E você terá suas bolas no muro, cara
Bolas no Muro
Você terá suas bolas no muro, cara
Bolas no Muro, Bolas no muro



Hoje farei um post totalmente contraditório com o raio x da semana passada, falarei da revoltada “Balls to the Walls” do Accept. A letra dessa música é daquelas que, de imediato, não toca no coração e nem faz refletir tanto – ela vai direto às entranhas e, se você se deixar levar, o sentimento de vingança e ódio se apodera imediatamente.

A música faz uma análise seca e amarga da sociedade: somos escravos. Apesar de a palavra ser forte, não chega a me surpreender este tipo de comparação. Levando essa análise para a época em que a música foi composta (1983), é importante lembrar que o muro de Berlim ainda estava de pé. O socialismo já estava em decadência e a geração que nasceu após a segunda guerra mundial já estava na casa dos 40 anos. Os motivos que dividiam a Alemanha em duas já não aparentavam tão legítimos. A diferença econômica entre essas duas Alemanhas já era gritante e clara, o muro de Berlim provavelmente foi a principal inspiração de Balls to the Walls.



Mas, pra mim, essa análise pode extrapolar a Guerra Fria e ainda pode ser aplicada a nossa realidade. Temos o nosso sentimento de liberdade, mas será que somos livres na prática? Já experimentou pensar em algum estilo de vida fora do padrão das “44 horas semanais”? Será que é realmente necessário que todos nós vivamos nossas vidas em função de nossa vida profissional? É difícil pensar em uma alternativa diferente dessas que não envolva diversos sacrifícios. Mas será que vale a pena gastar 26% de toda nossa semana? Atribuindo 1h diária para o transporte 1h para o almoço e 8h de sono, você tem para viver apenas um terço de sua semana, isso se você não faz nenhum tipo de curso.

Existem duas coisas que nos prendem nessa vida “padrão”. A primeira é a moral. Há a concepção de que o trabalho é necessário para a formação do caráter do indivíduo. Há uma ideia muito difundida de que não se pode ser “vagabundo”, e esse estigma é atribuído inclusive às pessoas que estudam e também às que trabalham de formas não convencionais (como free lancers, por exemplo). A segunda coisa é a valorização do consumo. Apesar de ser possível viver tranquilamente em um emprego que nos dê mais autonomia e tempo livre, há uma pressão para que tenhamos o máximo de produtos possíveis para que possamos nos encaixar nos padrões. Ter um carro, roupas de marca, frequentar lugares caros é muito mais importante para a sociedade do que ter tempo para aproveitar essas coisas.



Seja o opressor o capitalismo ou o socialismo, a música defende uma postura radical em favor da liberdade. A história da humanidade é preenchida por várias grandes civilizações em que poucos governavam e muitos obedeciam. Apesar dos avanços a lógica ainda permanece essa. É muito difícil destituir alguém do poder apenas com negociações, quanto mais toda uma classe. Os exemplos de verdadeiras mudanças de poder são sempre coloridos com muito sangue. Muitas vezes não percebemos que aqueles que estão no topo da sociedade morrem de medo do que os que não estão podem fazer. E, de acordo com a Balls to the Walls, eventualmente os “condenados” fazem alguma coisa.

Depois de um período de marasmo, estamos passando por uma época que as pessoas no mundo estão percebendo que algo precisa ser mudado. Os diversos movimentos que estão surgindo no mundo inspirados no “Ocupe Wall-Street” são uma demonstração que, pelo menos parte dos jovens, não vão mais aceitar o governo em favor dos 1% (que não são os motoqueiros do post anterior) e que os governos têm que dar um jeito de resolver a falta de renda que a crise de 2008 gerou. Que proporções esses movimentos vão tomar é difícil dizer, imagino que as coisas na Grécia ainda vão ficar muito feias, e é possível que jovens de países como Portugal e Espanha aprendam com o exemplo. Acho que a União Europeia está assinando seu atestado de óbito com a política de passar as dívidas contraídas para o povo. Enquanto eles não começarem a encontrar formas de produzir mais, a bola de neve das dívidas tende a crescer até que o povo tenha que tomar as rédeas da situação.


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Universo Headbanger: A livre e excitante vida sobre duas rodas.


Atenção: Esse post é melhor apreciado ao som de Saxon e Deep Purple.

Um tema sempre tratado em músicas de heavy metal é a Liberdade. Não apenas como um tema abstrato, mas contemplado em suas mais diversas formas. Mesmo quando uma banda não é muito inspirada politicamente, pode ter certeza que em alguma música a liberdade vai ser exaltada, mesmo que seja a liberdade de não ser inspirado politicamente. Esse sentimento de liberdade propagado pelas músicas de metal, além da sua alma contestadora, não poderia deixar de dialogar com o mundo de duas rodas.

Ser motociclista e fazer parte de um clube de motos é mais do que gostar de andar de moto, envolve todo o estilo de vida: A forma de se vestir, o jeito de falar e, principalmente, o jeito de ver o mundo. Apesar de grandes defensores da liberdade, internamente esses grupos têm suas próprias regras, uma estrutura organizacional algumas vezes rígida e um grande comprometimento com a sobrevivência do grupo. Dentro destes clubes há uma complexa relação de símbolos e rituais que asseguram a ligação do membro com seus “irmãos”.



A origem dos clubes de motociclistas como conhecemos tem muito a ver com o sentimento do pós-guerra no fim dos anos 40. Devido às experiências vividas em batalha, alguns veteranos não conseguiam aceitar levar uma vida pacata dentro dos moldes convencionais. A guerra mexe com a cabeça das pessoas e é difícil viver uma vida padrão após sucessivas experiências com altas taxas de adrenalina. A guerra do Vietnã foi também uma grande catalizadora deste tipo de indivíduo, pois, além de ter sido uma guerra longa e difícil, os veteranos eram hostilizados pelos crimes de guerra cometidos pelos militares como um todo. Somado a isso, muitos dos veteranos de guerra tiveram contato com motocicleta durante os treinamentos e ações de guerra. Além disso, o sentimento de lutar lado a lado com seus companheiros de batalha, arriscar a vida por eles e vê-los morrer para defender o grupo ajudou a criar em alguns veteranos essa cultura da "irmandade".

A imagem dos motociclistas na sociedade é muito controversa e as opiniões são muito polarizadas. Enquanto alguns os veem como bárbaros sobre rodas, vivendo à margem da sociedade e gerando insegurança, para outros eles são verdadeiramente livres e levam a vida fora da lógica repressora de nosso mundo. Enquanto a mídia os trata como gangues, eles preferem se ver como um clube. Nada muito diferente do que acontece com os headbangers, principalmente os fãs de estilos mais agressivos.

O termo inglês para designar os motoclubes tradicionais é “Outlaw Motorcycle Club” ou então os “1%” esses nomes vieram de uma confusão em uma cidade americana chamada Hollister em um evento organizado pela “American Motorcyclist Association” (AMA) que disse em um pronunciamento que os envolvidos representavam apenas 1% dos motociclistas presentes no evento. Alguns clubes então romperam com a AMA e se autoproclamaram os “1%” ou os “foras-da-lei”. Aqui no Brasil quando nos referimos aos clubes desse tipo apenas usamos o termo “tradicional”.



Não dá pra categorizar logo de cara todos os clubes de motociclistas como foras-da-lei ligados a arruaceiros e sem nenhuma relevância para a sociedade. A ideia dos clubes de motocicleta segue a lógica de “irmandade” Como diria “Maz” Harris do Hell’s Angels em sua autobiografia: “os motociclistas também são uma raça de homens que não se enquadram” citando um poema de Robert Service. Os clubes de motocicleta enxergam de forma diferente quem está dentro dele (insiders) e quem está fora (outsiders). Um clube pode até mostrar como funciona a dinâmica do grupo e algum de seus símbolos para um outsider, mas só um insider realmente tem acesso a todas as informações.

Nos EUA os Outlaw Motorcycle Club se dividem por regiões, diferentemente do Brasil, lá você não pode simplesmente criar um clube, pois, provavelmente, já existe algum clube dominando sua área. Dentro destes clubes (mesmo aqui no Brasil) há uma hierarquia e demora um pouco até que o iniciante seja realmente aceito. Estes clubes se identificam através de brasões e cores e, em geral, se respeitam mutualmente. A organização interna varia de grupo para grupo e não é muito divulgada. Os grandes clubes têm sedes em diversos lugares do mundo, têm marca registrada e até fazem ações de caridade.



As semelhanças com o mundo do heavy metal são marcantes. A própria forma de se vestir, a noção de moral mais individualizada e, principalmente, a não conformidade em relação ao senso comum são pontos de encontro que ligam fortemente os dois universos. É comum ver integrantes de bandas entrarem de moto no palco, como os caras do Manowar ou o Rob Halford do Judas Priest. Mesmo nas capas de CDs e nas letras das músicas, frequentemente há referencia ao mundo dos motociclistas como na Motorcycle man do Saxon: “Eu posso derrotar sua máquina de rua. Nós estamos assumindo riscos é isso que estamos dizendo, porque sou o homem de motocicleta”.

Mesmo eu não sendo um grande entusiasta do veículo motocicleta, acho que a cultura envolvida é muito interessante e acrescenta de forma positiva o heavy metal. Diferentemente do que acontece em um carro, ou em um avião, na imagem de alguém dirigindo uma moto há quase que uma simbiose entre o homem e a máquina. Quando alguém dirige uma moto a pessoa ainda está, de certa forma, fora dela. Viajar de moto produz uma sensação de unidade com o ambiente, você não está isolado dentro de uma máquina, você está em cima dela. A ideia de juntar os amigos e viajar sem saber por quanto tempo é tentador de mais para não virar tema de boas músicas.