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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Raio X: Run to the Hills - Assassinando por liberdade, esfaqueando pelas costas

 

O homem branco veio atravessando o mar
Ele nos trouxe dor e miséria
Ele matou nossa tribo, matou nossa crença
Ele pegou nosso jogo para seu próprio proveito
Nós lutamos forte, lutamos bem
Lá nas planícies, nós lhe demos o inferno
Mas muitos vieram, demais para acreditar
Oh, será que seremos libertados?

Cavalgando por nuvens de poeira e terras estéreis
Galopando em disparada nas planícies
Perseguindo os peles-vermelhas de volta para suas tocas
Lutando com eles em seu próprio jogo
Assassinando por liberdade, esfaqueando pelas costas
Mulheres, crianças e covardes, ataquem!

Corra para as colinas
Corram por suas vidas!
Corra para as colinas
Corram por suas vidas!

Soldado azul nas terras estéreis
Caçando e matando sua caça
Estuprando as mulheres
E enfraquecendo os homens
Os únicos índios bons são domados
Vendendo a eles Uísque
E tomando o seu ouro
Escravizando o jovem e destruindo o velho

Corra para as colinas
Corram por suas vidas!
Corra para as colinas
Corram por suas vidas!




O primeiro raio x do blog foi do Iron Maiden, então nada mais justo eles serem a primeira banda a ter um segundo raio x. Não é só por isso que escolhi repetir o Iron Maiden, todo fã de metal sabe da qualidade das letras da banda e principalmente daquelas que têm literatura ou história como tema. Pensando nas músicas com tema histórico do Iron, uma das mais aclamadas é a Run to the Hills.

A música fala das guerras que os colonos americanos travaram com os nativos dos EUA. É interessante como a letra é informativa e ao mesmo tempo sonora. Não é tão fácil narrar eventos históricos sem dar uma de professor, mas isso o Steve Harris consegue fazer muito bem na Run to the Hills. Até da pra imaginar as cenas dos cruéis soldados queimando vilas e matando Índios.

Antes dos Ingleses chegarem a América do Norte ela era dividida por várias tribos que no geral eram caçadores e coletores. Diferentemente das civilizações da América central e dos Andes, eles não tinham escrita e nem grandes cidades, mas eram povos complexos com rituais e mitos diversificados, além de diversas formas de se organizar socialmente. A base, entretanto, segue a lógica tribal de poder aos mais velhos, divisão do trabalho entre homens e mulheres e muitos rituais de passagem.



Muitas vezes ouvimos falar que a facilidade dos espanhóis em destruir toda a civilização ameríndia veio da diferença cultural das duas civilizações e isso teria causado a errada impressão que os espanhóis eram deuses. Apesar de realmente haver profecias de alguns povos sobre deuses vindos do mar e, em alguns lugares (como no Havaí), realmente os brancos terem sido tratados como representações de divindades, só isso é muito pouco para justificar o fim de uma civilização tão numerosa. Acredito que o fator principal da vitória dos europeus tenha sido, além da superioridade militar, a determinação em conquistar a América a qualquer custo. Os espanhóis foram tão cruéis em suas ações e tão mesquinhos em suas estratégias e traições, que um povo mais espiritual como os nativos da América não estavam preparados para enfrentar. A forma como eles tratavam os escravos e destruíam as vilas não devia ser fácil de assimilar por um povo que viveu tanto tempo isolado.



Voltando para a música, ela mostra o lado norte-americano da conquista e exprime muito bem o horror que nós brancos podemos causar quando achamos necessário. Apesar de os americanos terem sido famosos em sua luta pela liberdade e pela democracia, eles não mediram esforços para tomar as terras indígenas e praticar um genocídio no processo. O pensamento de tomar a força o que interessa não é exclusividade dos americanos, até o fim da segunda guerra mundial ainda se acreditava que o europeu colonizador estava levado civilização aos nativos.

É importante que músicas como Run to the Hills cantem sobre os nossos erros para que não os cometamos mais. O que acontece no Iraque e no Afeganistão hoje até pode ser encarado por esse prisma, alguns ainda acreditam que vale a pena entrar em guerra contra um povo para libertá-lo. Apesar de já ser vista com maus olhos pelo mundo hoje, qual será a versão sobre as guerras imperialistas atuais nos livros de história do futuro? E nas músicas de Heavy Metal?



quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Profile: Tente falar "New Wave Of British Heavy Metal" três vezes rápido!


O New Wave of British of Heavy Metal (NWOBHM) é o evento mais importante da história do heavy metal, se ele não tivesse ocorrido, talvez o heavy metal não sobrevivesse os anos 80. Foi esse movimento que trouxe o heavy metal para mídia como um movimento, não como uma sonoridade experimental de algumas bandas. Poucas bandas conseguiram sobreviver até hoje com um sucesso expressivo, mas graças ao NWOBHM o metal proliferou pelo mundo.


Apesar de ser visto como um movimento espontâneo, independente da mídia e de desmandos de gravadoras, houve um jornal que foi determinante para a divulgação do movimento, o periódico se chamava “Sounds”. Esse jornal também foi responsável por cunhar pela primeira vez o termo NWOBHM. Mas, musicalmente falando, se alguém pode ser considerado responsável pelo movimento é o DJ Neal Kay, dono da Soundhouse, clube em que o Iron Maiden fez a sua primeira gravação. Kay foi mentor e incentivador de bandas como Iron Maiden, Saxon, Samson, Angel Witch e Praying Mants. Ele também começou a escrever para sounds artigos sobre as bandas do movimento.

Uma das primeiras bandas do movimento e a mais famosa é o Iron Maiden. Ainda no fim da década de 70 eles lançaram o “The Soundhouse Tapes”. O EP foi gravado de forma independente e sintetiza muito bem o espírito do movimento. Houve muita influência do Punk, a ideia do “Do it yourself” estava presente. O som era mais alto e agressivo do que os antecessores e a influência do blues já não era mais perceptível. Apesar de os músicos do Iron mostrarem ao longo do tempo que eram exímios músicos, nesse momento o importante era o entusiasmo. A sonoridade da banda na era Paul Di’Anno é bem diferente da sonoridade que a banda adotaria depois, mais leve e mais melódica.

O Iron Maiden (e também o Metallica) é, muitas vezes, a banda responsável pelo primeiro contato que as pessoas têm com o heavy metal e isso não é à toa. Além de eles terem sido pioneiros em um dos momentos mais importantes da história do metal, eles conseguiram sair do paradigma do começo dos anos 80 e passou todos esses anos produzindo um som de qualidade. Músicas como "Fear of the Dark" e "The Number of the Beast” estão marcadas na história do rock e são poucos que não as conhecem. A banda também incorporou elementos de História e Literatura em suas composições, abrindo um leque de possibilidades que posteriormente seria adotado por diversas bandas do gênero. A discografia da banda é grande e são muitas músicas ótimas. Além das duas músicas já citadas neste parágrafo, não deixe de ouvir "Holy Smoke" e "Wasted Years”, minhas músicas preferidas da banda.


Apesar do clube Soundhouse, o Iron Maiden e o periódico Sound serem de Londres, o NWOBHM foi um evento que ocorreu simultaneamente em toda Inglaterra. Uma banda da cidade de Sheffield que também ajudou a iniciar o movimento foi o Def Leppard. Eles começaram a fazer seus shows ainda em 1977 e conseguiram uma rápida notoriedade. Porém, quando, em 1980 lançaram seu primeiro disco, o “On Through the Night”, eles se desviaram da idéia do NWOBHM e adotaram uma sonoridade mais acessível, inspirada no hard rock nascente nos EUA. Por mais blasfêmico que isso possa ter parecido na época, foi dessa forma que a banda conseguiu se consagrar na história do rock, atingindo marcas impressionantes, inclusive uma marca no Guinness Book por ter tocado em três continentes em um único  dia! Ouçam "High’n Dry” e "Let’s Get Rocked" que vocês não vão se arrepender.

Outra banda que conseguiu se manter firme até a atualidade foi o Saxon. Entre 79 e 83 a banda lançou cinco álbuns com ótima crítica, sendo que quatro deles conseguiram boas colocações das listas inglesas. Em 1984 a banda lançou o álbum Crusader que, mesmo sendo considerado um dos melhores álbuns da banda, já mostrava uma “americanização” da sonoridade da banda. O NWOBHM foi cruel com as bandas que não souberam se atualizar, poucas tiveram fôlego para chegar aos anos 90 com alguma visibilidade. Talvez essa comercialização do som do Saxon (o mesmo para as mudanças do Iron Maiden e do Def Leppard) tenha sido crucial para o sucesso da banda que está firme e forte até hoje. Ouça "Rock City" e "Surviving Against the Odds”!


Uma das bandas desse movimento que mais influenciou o que viria posteriormente foi o Venom. Muitas vezes vistos como os pais do metal extremo, o Venom foi a primeira banda a usar temas satânicos com um papel de destaque em suas composições. O resultado disso é meio óbvio, aclamados por fãs de metal pesado, mas duramente criticados pela crítica, o Venom não conseguiu alcançar o mesmo patamar das outras bandas citadas aqui. Mas não é nada mal ficar marcado na história como a inspiração para o Black e o Death Metal! "Processed” e "Sadist” são minhas indicações.

Muitas bandas fizeram parte desse movimento que, temos que admitir, é datado. As bandas que realmente conseguiram superar o início dos anos 80 e deixar sua marca na história do rock foram aquelas que encontraram uma identidade própria ainda no começo da década. Apesar de breve, o NWOBHM influenciou praticamente tudo que foi produzido de heavy metal nos anos 80, do power metal até o black metal. Para quem quer entender melhor a sonoridade do movimento, a compilação New Wave of British Heavy Metal '79 Revisited é um CD bem legal, vale a pena!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Raio X: The Number of the Beast - Culto ou Narrativa? (parte 2)

Não adianta ler a parte 2 sem ter lido a parte 1! Lá eu falo as minhas impressões sobre a The Number of the Beast e justifico o tema.

Para entender a motivação que levaria o Iron Maiden a escrever uma música mencionando um ritual satânico sem muito rodeio, precisamos voltar mais um pouco no tempo. Os anos 70 foram os anos do rock progressivo. Era o ápice do eruditismo no rock. Bandas como Pink Floyd e Jethro Tull incorporavam temas e instrumentos eruditos em suas músicas conceituais. Paralelamente, o Hard Rock e o Heavy Metal estavam consolidados na imagem de Bandas como o Led Zeppelin e o Deep Purple.

Não é incomum na arte que um novo estilo seja radicalmente oposto ao anterior, isso também ocorre no rock. Na metade dos anos 70 nascia o Punk Rock, um estilo agressivo caracterizado pela radicalização política e a filosofia do “faça você mesmo”. Porém, quando o punk começou a se firmar no cenário inglês,o heavy metal ameaçava ser deixado de lado, mas a resposta veio à altura, nascia o New Wave of British Heavy Metal.

O NWOBHM. Trazia de volta alguns elementos do heavy metal que já eram praticado nos anos 70, mas  incrementava com tempos mais rápidos e som mais pesado e até mesmo alguns elementos do próprio punk. Era um estilo jovem condizente com aquele momento de transição tanto musical quanto política. Foi o NWOBHM que possibilitou estilos de metal mais extremos como o thrash metal e o death metal.

Inserido no NWOBHM, o Iron Maiden se diferenciava das outras bandas de sua época. Enquanto as outras bandas cantavam sobre política, sexo e drogas, a banda de Steve Harris estava cantando sobre história (Genghis Khan) e literatura (Phantom of the Opera). Ainda que, no começo da banda, fosse possível perceber as influencias de sua época. No single Sanctuary vemos o Eddie assassinando a então primeira-ministra Margaret Thatcher.


Outro fator importante de ressaltar é que, nos anos 80, o histórico da religião contra o rock era bem recheado. A igreja se posicionava contra este estilo de música desde a época dos Beatles e nada melhor para incentivar alguém do que proibi-lo. Citações e críticas a elementos religiosos cresceram no rock de forma vertiginosa após John Lennon dizer que era mais famoso que Jesus. As críticas vão desde o “no religion too” da musica “Imagine”, do próprio Lennon, até bandas declaradamente satânicas de black metal. Mas é importante saber separar as coisas, algumas vezes os elementos religiosos não são utilizados como crítica, apenas como elementos de terror.

Nada melhor que o sobrenatural para criar um ambiente de horror na arte. Ninguém estranhou a explicação para os primeiros filmes de George A. Romero para os zumbis. A lógica era simples, o inferno estava lotado, os mortos não tinham outro lugar para andar que não fosse a própria terra. A Igreja católica também teve os seus momentos de terror na arte. A figura abaixo foi pintada por uma freira, em uma enciclopédia de imagens no século XII.



O terror como gênero artístico ajudou a fundar o Heavy Metal. O Black Sabbath com suas letras sombrias, fazendo referencias a rituais pagãos, moldaram muito do que seria a estética do Metal. Mesmo quando não relacionados com religião, os temas como morte, violência, ocultismo são marcantes no gênero até hoje. A donzela de ferro teve como um de seus principais méritos não se deixar levar pela onda minimalista de sua época, mas produzir músicas contestadoras de formas variadas, com um pouco do eruditismo dos anos 70 em suas composições.

Aparentemente, (entenda: “eu li na Wikipédia que...”) uma das inspirações de Steve Harris na composição de The Number of the Beast é um poema escrito no fim do século XVIII chamado Tam o' Shanter. Devido ao meu inglês aprendido em seriados e filmes pipoca (além de música é claro), não sou capaz de entender um poema em um inglês tão arcaico. A história parece ser de um fazendeiro que se deparou com umas bruxas fazendo um ritual sombrio, então ele foi então perseguido e morto por uma delas.
 
A semelhança mais marcante com a música do Iron Maiden é o fato de ser um poema narrativo, ou seja, um poema com enredo, um conceito que é muito utilizado no heavy metal até hoje. Não é raro encontrar músicas com mais de 10 minutos que narram grandes épicos (como em And Then There Was Silence). Talvez, os críticos religiosos não tenham percebido que nem sempre as músicas querem convencer o ouvinte de algo, quem ouve metal sabe que é muito normal que uma música queira apenas contar uma boa história. Porém quando analisamos uma obra de forma parcial, com uma leitura direcionada, encontramos mensagens satânicas até na música “paparazzi” da Lady Gaga!

Não sabemos o que pode ter passado exatamente na cabeça de Steve Harris quando ele compôs um dos principais clássicos do rock. Talvez até possa ter sido obra do Cão, mas olhar para essa pérola musical com preconceito, pode te privar de uma experiência musical única.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Raio X: The Number of the Beast - Fuja da Maligna Horda Cantante (parte 1)




Narrador: Por isso alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Ai dos que habitam na terra e no mar; porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo. (Apocalipse cap. XII ver. 12). Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis. (Apocalipse cap. XIII ver. 18)

Eu saí sozinho
Minha mente estava vazia
Eu precisei de tempo para pensar, para resgatar as memórias de minha mente

O que eu vi?
Poderia eu acreditar?
Que o que eu vi aquela noite era real e não apenas fantasia

Logo o que eu vi
Nos meus antigos sonhos
Seriam reflexões da minha mente perturbada me espreitando?

Porque nos meus sonhos
Está sempre lá
O rosto maligno que retorce minha mente e me leva ao desespero

Yeah!!

A noite está escura, não adianta eu me esconder
Porque eu tinha acabado de ver, alguém me observando
Na neblina, figuras negras se moviam e se retorciam
Será que era mesmo pra valer ou apenas alguma forma de inferno

666 o número da besta
Inferno e fogo foram gerados para serem liberados

Tochas foram acesas e cantos sagrados foram entoados
E eles começaram a clamar, com as mãos levantadas aos céus
Durante a noite, os fogos queimavam forte
O ritual tinha começado, o trabalho de Satã estava feito

666 o número da besta
O sacrifício está acontecendo nesta noite

Isso não pode continuar, eu preciso informar as autoridades.
Isso ainda poderia ser real, ou apenas um sonho maluco?
Mas me sinto atraído para a maligna horda cantante
Parecem hipnotizar, não dá para evitar seus olhos.

666 o número da besta
666 o número para mim e para você

Eu estou voltando, eu retornarei
E possuirei seu corpo e te farei queimar
Eu tenho o fogo, tenho o poder
Tenho o poder de fazer o meu mal seguir o seu curso


Esta é a minha tradução do clássico “the number of the beast” do Iron Maiden. Essa música está sempre entre as citadas para comprovar o satanismo no heavy metal, a ponto de terem censurado a banda de tocar no Chile em 1992. Hoje em dia essa discussão está um pouco ultrapassada, mas ainda gera discórdia, afinal, por que eles não falam de outra coisa?

Claramente a música narra um evento sinistro, que não parece acabar muito bem. Pense bem, você tem constantemente sonhos assustadores com o anjo caído, resolve sair à noite sozinho e de repente o sonho começa a se repetir. Você não sabe se é realidade ou não, só o que você sabe é que hordas cantando músicas satânicas começam a te deixar maluco. O nível de insanidade é tão grande, a ponto de você achar realmente importante “avisar as autoridades” ou “avisar a lei”, eu ficaria muito mais preocupado em rezar um pai nosso, achar algo de metal para encostar, cruzar os dedos, sei lá! No fim das contas, você se juntou àquela horda de figuras retorcidas cantantes e agora sai ameaçando as pessoas, dizendo que vai possuir o corpo delas. Não parece ser nada agradável.

É interessante perceber que no fim da letra e no refrão, parece que o eu lírico é o próprio tinhoso, mas acredito que há a possibilidade de ser o mesmo personagem sonhador pirado do começo da música. Essa minha dúvida surgiu pelo fato de ele parecer vencido na parte que ele diz “Mas me sinto atraído para a maligna horda cantante / Parecem hipnotizar, não dá para evitar seus olhos.”. De duas uma: ou ele se perdeu completamente, foi possuído e agora ameaça o ouvinte; ou ele realmente estava sonhando e acordou no ápice do pesadelo, não sem antes ouvir um recado do chifrudo. De qualquer forma, em nenhum momento há um alívio do terror acometido na música.

Supondo que Satã tenha realmente encomendado essa música para disseminar o ódio e atacar os bons costumes sagrados, isso ainda não tiraria o valor artístico de The Number of the Beast. A estrutura da música é circular, é como se o evento se repetisse inúmeras vezes em uma mente perturbada. O vocal do Bruce Dickinson da uma sensação de realidade rara em uma música, quase uma atuação. O Riff inicial cumpre uma função de trilha sonora, como em um filme, criando o clima de tensão. Tudo isso combinado, no ano de 1982, deve ter causado um grande alvoroço.

Durante os meus 12 anos, essa música era sempre uma das mais difíceis de defender quando diziam que rock era coisa do diabo. Naquela época, não me importava muito com a letra da música, eu ficava encantado com os riffs e com a melodia, isso era o suficiente pra mim. O meu inglês era inexistente, mesmo com a ajuda de um dicionário, era difícil explicar sobre o que era aquela música que eu ouvia compulsivamente. Claramente, eu defendia que era uma letra de terror e que não tinha nada de mais. Mas para agravar a situação, a capa do CD homónimo mostra o Eddie, mascote da banda, “manipulando” o demônio, um prato cheio para sensacionalistas de plantão.



Uma música tão controversa não poderia alcançar o patamar de hino do rock, se não estivesse inserida no contexto de sua época. Estamos falando de 1982, 3 anos antes Margaret Thatcher assumia como primeira-ministra inglesa e começavam as suas políticas neoliberais. Nesse momento o movimento Punk e o New Wave of British Heavy Metal encontraram terreno fértil para desabrochar. Com letras contestadoras e sonoridade mais agressiva, esses estilos encontraram um público de jovens desempregados nos pólos industriais britânicos.

Essa foi a primeira parte deste post que ficou gigantesco! Na minha próxima postagem, falarei sobre o contexto em que essa música foi criada e rebaterei a ideia de satanismo nessa grande música.