Mostrando postagens com marcador Religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Religião. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Raio X: Highway to Hell - Vivendo fácil, vivendo livre

 

Vivendo fácil, vivendo livre
Um bilhete para a temporada em uma rua de mão única
Sem pedir nada, me deixe em paz
Pegando tudo em meu caminho
Não preciso de razão, não preciso de rima
Não tem nada que eu prefira fazer
Descendo, hora da festa
Meus amigos vão estar lá também

Estou na estrada para o inferno

Sem sinais de "pare", sem limites de velocidade
Ninguém vai me fazer reduzir a velocidade
Como uma roda, vou rodar
Ninguém vai me sacanear
Ei Satã, paguei minhas dívidas
Tocando em uma banda de rock
Ei mamãe, olhe para mim
Estou no meu caminho para a terra prometida
                                                 
Estou na estrada para o inferno
Não me pare

E eu vou descendo, descendo até o fim
Estou na estrada para o inferno



No primeiro raio x do ano não poderia deixar de falar de uma música clássica. Highway To Hell é uma das músicas mais conhecidas do rock, enquanto o AC/DC é praticamente uma unanimidade. Além de ser uma música foda, a Highway To Hell tem bastante história.
                                                              
Tudo começou quando um jornalista perguntou a Angus Young como era a vida estando sempre em turnê, a resposta foi: “It’s a fucking highway to hell”. Os rumores de que a banda teria algum envolvimento com satanismo começaram a crescer (acho que toda banda de sucesso deve ter passado por isso) e a capa do próprio CD “Highway to Hell” não ajudou muito na defesa dos australianos. Apesar de eles sempre negarem qualquer envolvimento com o satanismo.

A letra da música em si parece até bem simples. Não acredito que ela tenha algum significado muito profundo além de viver na estrada como estrelas do rock indo ao encontro do inferno, por assim dizer. Mas, quando a mensagem é simples, ela abre bastante espaço para a interpretação e para a especulação e é isso que eu vou fazer aqui.



Uma vez ouvi em um podcast que hoje em dia vivemos menos porque temos medo da morte. A teoria é que se tratássemos a morte como algo mais natural, nós nos arriscaríamos mais e que “arriscar” é viver no fim das contas. Acho que esse tipo de visão combina bem com o teor da música.

Vendo a morte da perspectiva de um rockeiro, o destino mais sonoro é o inferno. Pense se a música se chamasse “highway to heaven”, causaria o mesmo impacto? Eu acho que não. O inferno, na minha opinião, é apenas a metáfora para morte, enquanto a estrada é a metáfora para a vida. Juntando tudo, a idéia é que viver é ir em direção a morte.

E como a vida é apenas uma única estrada e com um único sentido, tentar evitar o destino é um esforço em vão. Aquela máxima de que “o que se leva da vida é a vida que se leva” se encaixa bem com a letra da Highway to Hell. Já que o “sentido” da vida é a morte, não existiria um jeito “certo” de se viver: Não preciso de razão, não preciso de rima. Não vale a pena fazer qualquer outra coisa que você não queira ou, pelo menos, não tenha uma motivação clara. A ideia que me parece forte na música é que a gente mesmo escreve a nossa história, dentro das limitações impostas pela vida.

Claro que isso é só uma interpretação, mas a forma como Bon Scott morreu: sufocado pelo próprio vômito dormindo bêbado no banco de trás do carro de um amigo, seis meses depois do lançamento da Highway to Hell, música que ele ajudou a escrever, diz muito sobre como ele levava a vida. E, talvez, devido à visão de vida que ele tinha, ele tenha morrido feliz.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Universo Headbanger: A Feminina e Mística Cultura Celta


Atenção: Este post é melhor apreciado ao som de Tuatha de Danann e Mago de Oz

No post de hoje falarei um pouco da cultura celta e de sua influência no heavy metal. Os celtas foram uma grande civilização que dominou boa parte da Europa ocidental e, assim como os nórdicos, nunca foram totalmente dominados. Aliás, pela forte identificação do povo irlandês e de alguns outros com os celtas, é possível dizer que estão aí até hoje, de certa forma.



Não dá pra falar do imaginário celta apenas como uma mitologia, nem valeria a pena tratá-lo como uma religião e cair no “esoterismo salada” dos nossos dias. Neste post tentarei mostrar que essa força da imagem céltica está em seu simbolismo como inspiração de resistência. Seja na busca de uma volta a um passado lúdico antes do domínio da razão em que o homem se fundia com a natureza, ou na busca de uma espiritualidade fora da lógica monoteísta, patriarcal e dogmática; a cultura celta se mostra como um fenômeno interessante de resgate de uma identidade européia.

Quando falamos dos celtas, estamos nos referindo a um conjunto bem heterogêneo de tribos que engloba os Gauleses, os Galegos, os Belgas e os Bretões, entre outros. É essa abrangência da cultura celta que traz todo esse simbolismo de “volta às origens”. É a ideia de celta que liga a história dos eternos rivais França e Inglaterra. É a própria identidade Celta que dá o nome ao País de Gales, ou que reforçou a resistência católica na Irlanda. Os grupos que se consideram celtas já defendiam a idéia de uma Europa unida antes mesmo da consolidação da União Europeia.

Bem, antes, vou resumir um pouco da mitologia celta em si. Como já dito, os celtas são um grupo heterogêneo e sua mitologia também não é diferente. Os celtas eram politeístas. A lista de divindades é grande e confusa. O conjunto do panteão irlandês é o bem conhecido dos headbangers aqui no Brasil: o “Tuatha dé Danann”, que pode ser traduzido como povo de Danú, ou nação de Danú. Danú seria (numa das versões) a deusa mais poderosa do panteão. Ela é a mãe terra, a deusa da vida e também da morte. Outro deus famoso é o Cernuno, que talvez fosse o marido ou então o filho da própria Danú. Mas essa é só uma versão dele, “Cernuno” é o nome dado a todas as representações celtas de um deus chifrudo.



Outro elemento bastante associado à mitologia celta são as fadas e os duendes. No caso das fadas, provavelmente elas são a versão “politicamente correta” de se tratar deuses pagãos na Europa cristã (outra forma era considerar como demônios mesmo), um povo acostumado a venerar os espíritos da floresta, não vai parar de um dia para o outro (muitos continuam até hoje). Já os Duendes, ao contrário do que eu imaginava, são a galera “do mal” do folclore celta. Eles são os espíritos que fazem as maldades inexplicáveis, tipo uma versão verde do saci pererê, eu acho.

Só que mais importante do que os seres sobrenaturais que eles acreditavam, é a estrutura da sociedade. Os Celtas talvez tenham sido a única civilização matriarcal. Existiram várias outras sociedades matriarcais, mas nenhuma chegou ao status de civilização (se é que os próprios celtas chegaram). Nós vivemos em uma sociedade patriarcal. Ela é baseada na razão, na hierarquia e na força, enquanto a sociedade matriarcal seria baseada no místico, na igualdade e na sexualidade. Os valores matriarcais são muito presentes nas reivindicações de nossa época: A equiparação (não igualdade) entre homens e mulheres, a igualdade de tratamento entre as pessoas e uma proximidade maior com a natureza. Esses valores celtas são bem contemporâneos afinal.

Outra coisa interessante sobre a cultura celta é o druidismo. Os Druidas eram os sacerdotes celtas, principalmente na região da Grã-Bretanha. Fontes Greco-Romanas atribuem a eles práticas de sacrifício humano. Uma ótima interpretação do druidismo está na série “Crônicas de Artur” do inglês Bernard Cornwell. Nestes livros, os druidas (entre eles o próprio Merlin) são o pilar da religião pagã, eles detêm todo conhecimento místico e frequentemente seus poderes são solicitados, inclusive em batalhas. Muito parecido com a ideia dos magos de fantasia, ou mesmo dos bruxos e bruxas das lendas.



Todos esses elementos culturais se mantiveram pelos séculos, principalmente devido às histórias do ciclo arturiano, cujo personagem principal é o fundador mitológico da Inglaterra e cuja história é referência de heroísmo até hoje. Tanto a história do rei Artur quanto a história de Tristão e Isolda têm interpretações ótimas feitas pelo Blind Guardian, vale muito a pena ouvir “A Past and Future Secret“ e “The Maiden And the Minstrel Knight”.

Toda essa idéia de valorização do místico e de volta às origens que vem com o ressurgimento da cultura celta acaba sendo uma forma de protesto à sociedade racionalizada e mecanizada em que vivemos. A razão e, principalmente, a ciência foram sempre grandes promessas de uma humanidade livre e justa. Porém o século XX foi uma grande demonstração da própria irracionalidade que a nossa sociedade estava imersa. No fim das contas, o progresso técnico foi mais útil para criar armas do que para criar soluções.

Claro que essa é uma visão muito parcial (e que eu particularmente tenho minhas ressalvas), porém esse sentimento de busca de um natural místico, de unidade com a natureza e com os nossos instintos, faz com que a apropriação de elementos antigos de uma cultura muito diferente ganhe força. Isso não poderia ser diferente no Heavy Metal.



No Geral, o heavy metal carrega uma forte característica patriarcal; afinal, não é à toa que a grande maioria dos músicos são homens. A Razão e, principalmente, a Força são elementos muito valorizados no estilo como um todo. Porém, há um elemento que ajudou a fundar o Heavy Metal que está muito presente na cultura celta: o misticismo.

O que encanta nas narrativas celtas é a forte presença do sobrenatural. No mundo celta, tudo é vivo. Além disso, a grande heterogeneidade das suas crenças traz certa possibilidade de criação. A própria história do Rei Artur foi contada de diversas formas e assim continuará, pois sempre haverá espaço para novas interpretações do mitológico rei da Bretanha. Esses elementos de criação não seriam ignorados pelo heavy metal tão facilmente.

Mesmo a mitologia celta agregando valores não convencionais ao metal, o principal valor das duas visões de mundo é compartilhado: a liberdade. É inclusive essa liberdade do heavy metal que faz com que um estilo tão marcado por instrumentos potentes e graves se incorporasse a flauta. É essa liberdade que a idéia do renascimento celta traz: A liberdade da subjetividade, de amar antes de entender, de se preocupar com os mais fracos, com os que não têm voz. O toque celta, mesmo que sentimental demais para a dureza do heavy metal, é a comprovação de que o metal é um estilo crítico acima de tudo.


domingo, 4 de dezembro de 2011

Review: The Great Execution - A sexta grande extinção está para chegar.


Quando o heavy metal começou, a sua principal marca era o místico, o obscuro, o terror. Com o tempo, o estilo foi se expandido e várias temáticas se tornaram tão comuns quanto o clássico terror. Porém não é fácil tirar uma identidade tão forte quanto o culto ao medo presente no início do heavy metal. Claro que, com o passar do tempo, as pessoas vão se acostumando com a linguagem do heavy metal e o terror das músicas do Black Sabbath já não são grande coisa (mas musicalmente continuam ótimas). Enquanto algumas bandas adotaram uma linguagem do medo mais light apenas como um aperitivo, outras bandas mais extremas criaram e recriaram novas linguagens para passar esse sentimento. Um ótimo exemplo para ilustrar o que eu estou falando é o CD novo do Krisiun, o “The Great Execution”.



As letras deste CD são muito bem escritas e totalmente incorretas, no bom sentido! Uma das melhores interpretações de uma arena de gladiadores que já ouvi está na faixa Violentia Gladiatore: “Corpos empalados em lanças de ferro, espetáculos de horror / A platéia da arena celebrando as bestas com um massivo rugido”. Isso é light ainda comparado com este trecho da Blood of Lions: “Aqui eu venho na velocidade de um som de assassinato / Cavalgando rápido nas asas de uma guerra infernal / No meu mundo apenas o mal glorifica, os caminhos do caos para purificar”. Tudo isso em meio de riffs muito bem elaborados e linhas de vocal muito bem feitas.

Em meio a essa linguagem extrema há uma forte crítica a humanidade, e o bode expiatório é, como de praxe, o cristianismo. As críticas seguem a linha parecida com as de Nietzsche; como, por exemplo, em um trecho da música que leva o nome do álbum: “Morto é o chamado salvador / A peste de cristo, eterna mentira universal / Colhendo rezas quebradas / Nos campos de engano, decadência e tristeza”. A fraqueza da humildade e a mentira da vida após a morte são outras críticas ao cristianismo presentes no álbum. Além de criticar a religiosidade da humanidade, critica também sua hipocresia e autodestruição, como no trecho da Extinção em Massa: “Atitude extrema / Falha no esquema / Queda no sistema / inverno nuclear / Morte por ganância / O fim por ignorância / A maquina não para / Não para de matar”



O death metal misturado com elementos de thrash metal forma uma das melhores misturas de estilos de metal. Krisiun o faz nesse CD de forma primorosa. As músicas que mais gostei foram a “The Great Execution” e a “Violentia Glatiatore”, mas o CD todo é ótimo. Apesar de não muito aconselhável para pessoas muito religiosas, ou pudicas, o The Great Execution é um dos CDs nacionais que não podem passar em branco na sua playlist.


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Raio X: The Land’s Revenge – A “Terra” dá voltas!


Olá leitores! Hoje quem “vos posta” sou eu, chamo Guilherme Euripedes, amigo do Vinícius de tempos inacabados e pedi espaço aqui no Filosofia Metal pra tirar um pouco do preto e acrescentar um pouco de verde nesse Heavy Metal aqui! Espero que gostem do post, reflitam e comentem sobre. Salute!

 

Eu me lembro quando este jogo começou há muito tempo atrás
Nossa relação era muito melhor do que é hoje
Antes havia muito respeito por ambas as partes do jogo
Agora parece que vocês esqueceram tudo isso.

Vocês têm ido muito longe sem olhar para trás
Vocês precisam se lembrar: sem mim suas vidas decairão

Eu pensei que vocês pudessem aprender com as coisas que se passaram
Eu estava esperançosa por uma estrada de beleza eterna
Agora é minha vez de lhe mostrar quão forte é minha vingança
Sem meu carinho e meu amor vocês cairão. Vocês vão ver.

Seria tão fácil para ambos se vivêssemos bem
E eu nunca lhe pedi muito – Nunca, Nunca...
Apenas pedi por atenção, união, amor e parceria
Vocês vêm matando partes de mim dia após dia

Rios, mares, lagos vocês têm sujado,
Madeira, árvores, animais vocês têm matado
Por que você não tira de mim apenas o que precisa?
Nossa existência seria maravilhosa meu amigo...

Esse é o último aviso que eu lhe dou:
Mude o modo que você age
Na terra eu estou.

Esse é o último aviso que eu lhe dou:
Mude o modo que você age
Na terra eu estou.





Quem de nós que nunca parou pra pensar sobre Sustentabilidade, futuro da humanidade na Terra e futuro da Terra com a humanidade que atire a primeira pedra.

Um dos assuntos TOP 3, ou mesmo TOP 1, das discussões políticas/econômicas mundiais é a questão do Desenvolvimento Sustentável, ou como hoje tem sido generalizado, Sustentabilidade.

Creio que uma introdução ao assunto seja desnecessária, já que se estão sendo capazes de ler este post num site da Internet, certamente em algum momento já foram de alguma forma inseridos a este assunto. Não saber que não só a Empresa X, mas o Mundo carece de um plano de Desenvolvimento Sustentável é como nunca ter ouvido falar dos famosos Beatles, ou de um homem menos famoso, Jesus.

Qualquer coisa pode ser considerada ou não “sustentável” e existem alguns fatores que conceituam algo como tal, o: economicamente viável, socialmente justo, culturalmente diverso e o ecologicamente correto. E é sobre este último principalmente que o Tuatha de Danann vem retratar com esta música.

Claramente “The Land’s Revenge” vem para dar um recado muito importante pela própria Mãe Natureza. Como mostrado nas últimas estrofes, se não mudarmos nosso jeito de agir, conheceremos de fato a “vingança da terra”.

Voltamos nossa atenção para temas como o Aquecimento Global, Camada de Ozônio e Efeito Estufa, problemas mais “palpáveis” e controversos, afinal muito cientistas afirmam que os ambientalistas, ONGs, Governos e outros cientistas estão exagerando quanto à grandiosidade do problema e, não suficiente, chegam a declarar que este é um problema pequeno comparado com o que o Planeta já passou. De fato é sim... O Planeta já passou por momentos mais difíceis, mas o que me assusta é como o Planeta vai resolver isto. Porque o problema não são os assuntos estudados, mas sim aqueles que estudam. O problema somos nós. Seres Humanos.

Não tiro a razão dos que dizem que o clima da Terra se move em ciclos e o aquecimento global é um fenômeno natural e normal. Mas outros problemas como a impermeabilização desprogramada do solo, despejo de dejetos químicos e tóxicos nos ar e na água, desmatamento acelerado, exacerbado e descontrolado, destruição de habitats naturais (consequentemente a dizimação da biodiversidade), derramamento de petróleo no mar... entre dezenas de outros problemas ambientais NÃO são naturais, portanto não são previstos pela Mãe Natureza, e assim ela não vai saber remediar.



Ouvindo a música e acompanhando sua voz, melodia e ritmo nos sentimos como transportados para as épocas onde o homem vivia ainda em clãs nômades, em perfeita comunhão com a natureza, tratando-a como deusa e respeitando suas necessidades. Mas com o constante progresso, principalmente após as Revoluções Industriais, vemos esse “jogo” saindo do equilíbrio e a corda sendo puxada mais forte por nós, seres humanos, juntamente com a música aumentando sua velocidade e deixando o clima mais pesado, como agora quando lemos as notícias na internet/jornal. Mas lembre-se, a corda sempre quebra do lado mais fraco, e acreditem, o lado mais fraco somos nós. Essa “mãe” não vai ter dó de expulsar o filho de casa por desobediência...

Acreditamos sermos não somente parte do mundo, mas chegamos notadamente ao ponto de agirmos como soberanos tiranos do planeta, escravizando outras formas de vida a nosso bel prazer, não somente para sobrevivermos. Insistimos em caçar animais por esporte ou em sua época de procriação, torturá-los para a doma ou para o entretenimento, arrancarmos sua pele ainda em vida, e acabamos com seu habitat natural, forçando-os a se adaptarem a viverem de formas adversas a sua natureza. Há poucos anos atrás condenávamos um homem que tratava uma outra etnia humana como animais, e hoje tratamos da mesma forma os próprios animais. O que antes era “Nazismo” hoje chamamos “Especismo”.

Será que estamos no caminho certo esquecendo nosso passado e negligenciando nosso futuro? Vendo pelo ponto de vista material ou espiritual, já passou da hora de voltarmos ao equilíbrio natural e rumarmos juntos com a Mãe por uma estrada bela e eterna. Sem ela com certeza decairemos mais ainda. O mundo dá voltas... a Terra há de se vingar.


Guilherme Euripedes tem um Blog chamado Live to Live For, que trata apenas de pensamento e poemas pessoais. Visitem! www.livetolivefor.blogspot.com



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Raio X: Face the Emptiness - A história acabou antes mesmo de começar


 

A história acabou
Está finalizada, acabada
O sonho que você teve
Desapareceu na neblina

Parado na frente
Das ruinas do que você construiu
Chocado até os ossos
E esmagado

Quando gigantes caem e anjos choram
Você sabe – É difícil salvar o dia

A última palavra já está dita e feita
A história acaba onde ela começa
Você tem que encarar o vazio
Não tem como argumentar
Não tem como modificar
Você sabe
É aí que a chuva cai

Não há dúvida que você está acabado
A história termina sem nem começar
Venha e encare o vazio
Não há como se esconder
Você não pode correr, tem de ficar
Parado e assistir
A chuva caindo

Quanto mais alto você coloca seus objetivos
Mais fundo você pode cair
Algumas vezes a vida
Simplesmente não é Justa

Você é um guerreiro incansável
Você se levanta quando cai
Mesmos se você
Não conseguir entender ainda

A última palavra já está dita e feita
A história acaba onde ela começa
Você tem que encarar o vazio
Não tem como argumentar
Não tem como modificar
Você sabe
É aí que a chuva cai

Não há dúvida que você está acabado
A história termina sem nem começar
Venha e encare o vazio
Não há como se esconder
Você não pode correr, tem de ficar
Parado e assistir
A chuva caindo



Já vou me desculpando antecipadamente pela letra depressiva, mas considero que a mensagem passada na "Face the Emptiness" do Primal Fear vale a pena ser ouvida. Esse tipo de mensagem mais pessimista (ou realista, como acredito) é raro no Power Metal, normalmente, em músicas mais reflexivas do estilo, ou as músicas fomentam um sentimento de revolta, ou tentam te mostrar um lado positivo de algum tipo de aflição.

Quando estava traduzindo esta música, pensei seriamente em usar a palavra “estória” no lugar de “histórica” já que no inglês há a diferenciação entre history (disciplina que estuda o passado) e story (conto), mas percebi que ele mistura esses dois conceitos durante a música, como na ótima frase repetida na série Battlestar Galactica: All this has happened before, and all of it will happen again (tudo isso já aconteceu antes e tudo isso vai acontecer de novo). A música é uma repetição da mesma ideia: “encare o vazio, a hi(e)stória acaba antes de começar”. Mas essa ideia não é tão simples e é muito carregada de significado.



A música já começa falando que a história acabou, que os sonhos se perderam, que as ruinas do seu passado te esmagam; a música não te deixa nem respirar e já vai jogando pessimismo em você. Mas, pare para pensar, você deve ter vários planos e sonhos para seu futuro, principalmente se você for jovem. Mesmo que você seja o tipo de pessoa que vive o presente intensamente e deixa para se preocupar com o futuro só no futuro, não há como não criar grandes expectativas para o dia de amanhã. Não importa em qual área da sua vida você deposite sua confiança, você acredita que algo de bom está reservado para você, que você merece. Mas, mesmo que todas essas coisas se realizem, elas nunca são como imaginávamos, mesmo que já esperássemos, os problemas que surgem decorrentes de um futuro de sucesso (não importa em que esfera da vida) nunca são 100% previstos. É como se a angústia que tentamos aliviar hoje fosse irremediável.

Se mesmo quando as coisas ocorrem da forma que esperávamos não consigamos nos livrar da angústia; quando elas não acontecem, ou pior, quando os nossos sonhos ocorrem do avesso, esse sentimento de angústia se apodera da nossa alma e começamos a procurar um sentido para essas dificuldades, uma explicação. Apesar de, eventualmente, essa angústia se transformar em patologias, com o tempo acabamos cometendo os mesmos erros e sofrendo as mesmas decepções.



Há um momento em que se percebe na música a linha de pensamento para sustentar toda essa amargura, é o trecho: “Quando gigantes caem e anjos choram / Você sabe – É difícil salvar o dia”. Sempre estamos tentando salvar o dia, nem que seja só o nosso; mas nos frustramos, afinal não somos gigantes, muito menos anjos. Mesmo que você decida se alienar dos problemas a sua volta, pelo menos os seus problemas acabam, eventualmente, te revoltando.

Uma vez eu passei por uma situação que exemplifica bem esse sentimento de revolta despropositada. Certa vez, enquanto eu navegava na internet, me deparei com a notícia que em represália a ataques terroristas, o governo israelense havia atacado a faixa de gaza e deixado 1300 mortos e mais de 5.000 feridos. Aquilo era inaceitável! Claramente um ato condenável. Pelas imagens reproduzidas na reportagem que eu lia, os alvos principais eram civis; que, aliás, já sofriam o suficiente por viver como refugiados dentro de sua própria terra. A sensação de que eu precisava fazer algo para mudar aquela situação me preencheu como nunca antes uma notícia sobre algo em outro país havia feito. E era importante que eu fizesse algo que realmente interferisse; mas, em poucos segundos, eu percebi que aquilo não me pertencia e que eu estava fadado a tentar conscientizar as pessoas próximas a mim dos horrores acontecidos naquela região.



O sentimento que veio quando eu caí na real, é parecido com o que a música te aconselha a encarar. Mesmo que haja uma consciência responsável pelos rumos que o universo toma, ninguém é capaz de compreendê-los. Você não pode deixar essa angústia de que algo está faltando escondida dentro de ilusões, pois assim você nunca aprenderá a lidar com ela. Os momentos de angústia têm que ser aproveitados, pois é quando você está realmente angustiado, que você tem coragem de refletir sobre as suas ações. Quando as coisas parecem dar certo, talvez você tenha a ilusão de que está seguindo um caminho seguro, ou que algo no universo está olhando por você e te protegendo da imperfeição da vida. Mas quando isso não se confirma, é difícil se reerguer e recomeçar depois de toda a decepção.

Uma técnica legal que os caras usaram na letra para te causar estranhamento é escrever a letra falando direto com o interlocutor, toda música passa a mensagem para “você”, enquanto normalmente em questões mais abrangentes e determinantes o normal é falar para “nós”. Aparentemente o objetivo é chamar para reflexão, e eu também tentei usar essa técnica nesse texto, espero que não tenha sido muita pretensão.

Se aprendermos (agora parei de falar só de você) a lidar com a angústia, a encarar o vazio de nossa alma, entender que ele é parte estrutural de nossa mente; talvez consigamos traçar caminhos mais inusitados para a nós, formas mais realistas de enfrentar as dificuldades. Mesmo nos momentos de euforia, aprender a evitar as ilusões, evitar esconder a angústia no nosso subconsciente, talvez nos prepare para quando tivermos que cair na real.


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Universo Headbanger: A temida e implacável Morte

Atenção: Esse post é melhor apreciado ao som de Morbid Angel e de Black Sabbath.

O desenvolvimento científico e a consequente apropriação da Natureza mudaram a nossa relação com o conhecimento. Vários mistérios receberam respostas elegantes e lógicas. Hoje temos boas teorias científicas para questões polêmicas como a origem do universo, as forças que regem o movimento, a origem das espécies, o funcionamento fisiológico de nossos corpos etc. Esse tipo de conquista acabou gerando uma sociedade, principalmente no ocidente, mais materialista. Não confunda com aquele materialismo pejorativo no qual a pessoa valoriza mais os objetos do que as outras pessoas, o materialismo que falo aqui é o filosófico, no qual se compreende que tudo que existe é formado por matéria ou reduzível a processos de natureza material. Com essa visão mais materialista do mundo, um problema fica em aberto dentro do imaginário social: O que acontece depois da morte?

Ainda há, é claro, as explicações religiosas. Porém, a partir do momento que a ciência é a moeda de troca do conhecimento em nossa época e as instituições religiosas vão se relativizando e se adaptando a novos paradigmas, as nossas crenças subjetivas e espirituais garantem cada vez menos conforto. Nesse contexto, vai ser no espaço da morte que residirá nossas grandes dúvidas e, consequentemente, nossos grandes medos.



Esse espaço não poderia ser preenchido se não pela arte, inclusive, o heavy metal. O heavy Metal, no geral, se comunica através do choque, do conflito. Mesmo uma banda mais reflexiva vai usar elementos de conflito para atrair a atenção de seus ouvintes. Relacionar o tema da morte nas músicas vai se mostrar como um ótimo atrativo para a mensagem que a banda quer passar. A forma como a morte é apropriada pelo heavy metal varia e se confunde com as formas que a morte é apropriada na nossa vida e em nossa cultura.

Na antiguidade a morte era tratada mitologicamente de forma muito mais tranquila do que hoje. Na mitologia grega a morte do herói era também o ápice de sua vida. Era em seu momento de morte que ele alcançava o seu limite. Isso acabava tornando a morte também como uma ferramenta de autoconhecimento, pois e só na morte que o personagem cumpria (e conhecia) todo o seu potencial. Em algumas culturas a morte heroica é vista como uma forma de salvação. Na mitologia nórdica, por exemplo, o dia da sua morte já é predeterminado, porém, caso o viking morresse em batalha, ele iria para Valhalla, terra onde Odin reunia seu exército para a guerra do fim do mundo (ragnarok), lá seria um lugar onde os guerreiros passariam a vida lutando e bebendo esperando alegremente a última batalha. Já os que morressem de morte natural ou acidental (menos em naufrágios) iriam para o Hel que era uma terra melancólica onde os espíritos vagavam por toda a eternidade. Outra cultura que valoriza a morte heroica é o islã, onde, caso o fiel entregue a sua vida a Alá, ele garante o seu lugar no paraíso.

A morte heroica é uma das mais presentes no metal, principalmente nos estilos da família do power metal. Não tem forma melhor de dizer que a história foi dramática e que o sacrifício do protagonista foi enorme do que matando ele no fim, ou pelo menos deixando claro que a morte é o risco. A "Keeper of the Seven Keys" do Helloween é emblemática nesse sentido. Ela segue um ritmo de certa forma contínuo e rápido, até que chega no trecho em que Michael Kiske canta (grita):“Throw the key or you may die!” e o solo que segue é a parte mais melancólica da música. É importante dar ênfase que a jornada do guardião é mortal, é isso que faz grandes clássicos de músicas como essa.



Mesmo no início do cristianismo a morte era tratada apenas como uma passagem. A ideia de céu e inferno e da infinita misericórdia divina davam um aspecto natural ao falecimento. Porém, com a peste negra, a relação da morte com o desconhecido se intensificou. Um período onde um terço dos europeus morreu devido há uma doença desconhecida causou uma profunda ferida no inconsciente coletivo cristão. Desde então o medo da morte se intensificou na cultura ocidental. Com o renascimento e, posteriormente, com o desencantamento do mundo, esse medo teve o acréscimo da incerteza. Não mais vemos o paraíso como um lugar físico. Já viajamos pelo céu e sabemos que ele não está lá. Mesmo a religião cristã se mantendo forte até hoje, as vertentes protestantes tiraram o aspecto “mágico” que a religião tinha até então, fazendo com que as indulgências e a prática ritual não fossem mais garantias de salvação. Dentro da visão calvinista, por exemplo, não cabia ao indivíduo a sua própria salvação, mas sim a Deus. Nessa visão, Deus já havia escolhido, no momento da criação, as almas a serem salvas. A única “dica” que as pessoas teriam sobre o seu próprio salvamento seria a sua conduta, o fiel deveria viver como que se estivesse de passagem no mundo material, abnegando os prazeres e vivendo apenas para glorificar a Deus. Essa relação conflituosa com a morte e com a vida após a morte cria essa sensação terrível de incerteza.



Esse medo da morte é muito bem explorado no heavy metal. Como o estilo começou contando histórias ocultistas e de terror, a morte nesse sentido está presente em diversas vertentes do estilo. Uma música que explora muito bem o sentimento da peste negra é a "Plague and Fyre" da banda Hell. Uma música mais famosa que representa esse medo da morte é a "Raining Blood" do Slayer que fala de um juízo final duro e terrível. A força da música está na representação da espera tortuosa pelo juízo final no purgatório, uma clara ironia a benevolência das crenças cristãs.

O heavy metal tem uma estética muito ligada à força e ao poder. Em relação à morte não poderia ser diferente. As bandas mais pesadas normalmente tratam a morte como algo superável, ou controlável. Acho que não há melhor exemplo do que a "Stronger than Death" do Black Label Society que é uma análise bem peculiar da morte, tratando-a de uma forma bem fria e realista. Há também a apropriação do inferno como símbolo de força, como na "Welcome to Hell" do Venom. A simbologia da morte está também muito presente, como na adoção da personificação da morte como mascote pelo Children of Bodom ou o próprio morto-vivo Eddie, mascote do Iron Maiden.



A simbologia da morte é muito rica nas artes. A morte é a prova que estamos vivos e a vida é a prova que vamos morrer. O Mito grego de Sísifo é muito interessante para pensarmos simbolicamente a relação entre a morte e a vida. Sísifo era um cara muito esperto que conseguia tudo na lábia, era tão bom que acabou enganando até os deuses. Sísifo contou a Asopo, deus dos rios, que Zeus havia sequestrado sua filha Egina. Zeus ficou furioso e mandou Tanatos, deus da morte, perseguir Sísifo. Porém Sísifo prendeu Tanatos impedindo que as pessoas pudessem morrer. Ares então interviu e libertou Tanátos. Sísifo viu que não tinha como escapar e então pediu a sua esposa que não executasse os rituais funerários. Chegando ao mundo dos mortos, Sísifo se queixou a Hades da falta de consideração de sua esposa por não ter efetuado os rituais e solicitou permissão para que voltasse ao mundo dos vivos apenas para castiga-la. Hades aceitou e Sísifo não voltou ao mundo dos mortos até que morreu de velhice. Quando voltou Hades o condenou a empurrar uma pedra até o cume de um monte, caindo a pedra invariavelmente da montanha sempre que o topo era atingido. Esse processo foi repetido até a eternidade.



O mito de Sísifo é sujeito a diversas interpretações. A que eu mais gosto é que Sísifo viveu a sua vida toda com medo da morte e isso fez com que vivesse apenas lutando para evitar o fim. O seu maior anseio era viver eternamente, porém esse foi o seu próprio castigo. A ideia de carregar a pedra até o topo do morro pela eternidade pode ser encarada como uma metáfora para a vida. A vida é um constante carregar a pedra acima do morro, porém nunca conseguimos chegar até lá, o ideal seria que o nosso processo de carregar a pedra seja suficiente em si mesmo. Se esperarmos que a nossa vida só valha a pena quando a pedra estiver parada no topo, então nunca nos realizaremos, pois a morte chegará antes. Sísifo é um elogio a vida sem sentido. Ele é um dos poucos personagens da mitologia grega sem um objetivo definido, o seu único objetivo era viver, e ele acabou, ironicamente, conseguindo. Devemos sempre encarar a morte, pois é essa limitação que nos move, se tivéssemos certeza que viveríamos para sempre, jamais teríamos coragem de carregar as nossas pedras.