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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Raio X: Run to the Hills - Assassinando por liberdade, esfaqueando pelas costas

 

O homem branco veio atravessando o mar
Ele nos trouxe dor e miséria
Ele matou nossa tribo, matou nossa crença
Ele pegou nosso jogo para seu próprio proveito
Nós lutamos forte, lutamos bem
Lá nas planícies, nós lhe demos o inferno
Mas muitos vieram, demais para acreditar
Oh, será que seremos libertados?

Cavalgando por nuvens de poeira e terras estéreis
Galopando em disparada nas planícies
Perseguindo os peles-vermelhas de volta para suas tocas
Lutando com eles em seu próprio jogo
Assassinando por liberdade, esfaqueando pelas costas
Mulheres, crianças e covardes, ataquem!

Corra para as colinas
Corram por suas vidas!
Corra para as colinas
Corram por suas vidas!

Soldado azul nas terras estéreis
Caçando e matando sua caça
Estuprando as mulheres
E enfraquecendo os homens
Os únicos índios bons são domados
Vendendo a eles Uísque
E tomando o seu ouro
Escravizando o jovem e destruindo o velho

Corra para as colinas
Corram por suas vidas!
Corra para as colinas
Corram por suas vidas!




O primeiro raio x do blog foi do Iron Maiden, então nada mais justo eles serem a primeira banda a ter um segundo raio x. Não é só por isso que escolhi repetir o Iron Maiden, todo fã de metal sabe da qualidade das letras da banda e principalmente daquelas que têm literatura ou história como tema. Pensando nas músicas com tema histórico do Iron, uma das mais aclamadas é a Run to the Hills.

A música fala das guerras que os colonos americanos travaram com os nativos dos EUA. É interessante como a letra é informativa e ao mesmo tempo sonora. Não é tão fácil narrar eventos históricos sem dar uma de professor, mas isso o Steve Harris consegue fazer muito bem na Run to the Hills. Até da pra imaginar as cenas dos cruéis soldados queimando vilas e matando Índios.

Antes dos Ingleses chegarem a América do Norte ela era dividida por várias tribos que no geral eram caçadores e coletores. Diferentemente das civilizações da América central e dos Andes, eles não tinham escrita e nem grandes cidades, mas eram povos complexos com rituais e mitos diversificados, além de diversas formas de se organizar socialmente. A base, entretanto, segue a lógica tribal de poder aos mais velhos, divisão do trabalho entre homens e mulheres e muitos rituais de passagem.



Muitas vezes ouvimos falar que a facilidade dos espanhóis em destruir toda a civilização ameríndia veio da diferença cultural das duas civilizações e isso teria causado a errada impressão que os espanhóis eram deuses. Apesar de realmente haver profecias de alguns povos sobre deuses vindos do mar e, em alguns lugares (como no Havaí), realmente os brancos terem sido tratados como representações de divindades, só isso é muito pouco para justificar o fim de uma civilização tão numerosa. Acredito que o fator principal da vitória dos europeus tenha sido, além da superioridade militar, a determinação em conquistar a América a qualquer custo. Os espanhóis foram tão cruéis em suas ações e tão mesquinhos em suas estratégias e traições, que um povo mais espiritual como os nativos da América não estavam preparados para enfrentar. A forma como eles tratavam os escravos e destruíam as vilas não devia ser fácil de assimilar por um povo que viveu tanto tempo isolado.



Voltando para a música, ela mostra o lado norte-americano da conquista e exprime muito bem o horror que nós brancos podemos causar quando achamos necessário. Apesar de os americanos terem sido famosos em sua luta pela liberdade e pela democracia, eles não mediram esforços para tomar as terras indígenas e praticar um genocídio no processo. O pensamento de tomar a força o que interessa não é exclusividade dos americanos, até o fim da segunda guerra mundial ainda se acreditava que o europeu colonizador estava levado civilização aos nativos.

É importante que músicas como Run to the Hills cantem sobre os nossos erros para que não os cometamos mais. O que acontece no Iraque e no Afeganistão hoje até pode ser encarado por esse prisma, alguns ainda acreditam que vale a pena entrar em guerra contra um povo para libertá-lo. Apesar de já ser vista com maus olhos pelo mundo hoje, qual será a versão sobre as guerras imperialistas atuais nos livros de história do futuro? E nas músicas de Heavy Metal?



terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Universo Headbanger: A Feminina e Mística Cultura Celta


Atenção: Este post é melhor apreciado ao som de Tuatha de Danann e Mago de Oz

No post de hoje falarei um pouco da cultura celta e de sua influência no heavy metal. Os celtas foram uma grande civilização que dominou boa parte da Europa ocidental e, assim como os nórdicos, nunca foram totalmente dominados. Aliás, pela forte identificação do povo irlandês e de alguns outros com os celtas, é possível dizer que estão aí até hoje, de certa forma.



Não dá pra falar do imaginário celta apenas como uma mitologia, nem valeria a pena tratá-lo como uma religião e cair no “esoterismo salada” dos nossos dias. Neste post tentarei mostrar que essa força da imagem céltica está em seu simbolismo como inspiração de resistência. Seja na busca de uma volta a um passado lúdico antes do domínio da razão em que o homem se fundia com a natureza, ou na busca de uma espiritualidade fora da lógica monoteísta, patriarcal e dogmática; a cultura celta se mostra como um fenômeno interessante de resgate de uma identidade européia.

Quando falamos dos celtas, estamos nos referindo a um conjunto bem heterogêneo de tribos que engloba os Gauleses, os Galegos, os Belgas e os Bretões, entre outros. É essa abrangência da cultura celta que traz todo esse simbolismo de “volta às origens”. É a ideia de celta que liga a história dos eternos rivais França e Inglaterra. É a própria identidade Celta que dá o nome ao País de Gales, ou que reforçou a resistência católica na Irlanda. Os grupos que se consideram celtas já defendiam a idéia de uma Europa unida antes mesmo da consolidação da União Europeia.

Bem, antes, vou resumir um pouco da mitologia celta em si. Como já dito, os celtas são um grupo heterogêneo e sua mitologia também não é diferente. Os celtas eram politeístas. A lista de divindades é grande e confusa. O conjunto do panteão irlandês é o bem conhecido dos headbangers aqui no Brasil: o “Tuatha dé Danann”, que pode ser traduzido como povo de Danú, ou nação de Danú. Danú seria (numa das versões) a deusa mais poderosa do panteão. Ela é a mãe terra, a deusa da vida e também da morte. Outro deus famoso é o Cernuno, que talvez fosse o marido ou então o filho da própria Danú. Mas essa é só uma versão dele, “Cernuno” é o nome dado a todas as representações celtas de um deus chifrudo.



Outro elemento bastante associado à mitologia celta são as fadas e os duendes. No caso das fadas, provavelmente elas são a versão “politicamente correta” de se tratar deuses pagãos na Europa cristã (outra forma era considerar como demônios mesmo), um povo acostumado a venerar os espíritos da floresta, não vai parar de um dia para o outro (muitos continuam até hoje). Já os Duendes, ao contrário do que eu imaginava, são a galera “do mal” do folclore celta. Eles são os espíritos que fazem as maldades inexplicáveis, tipo uma versão verde do saci pererê, eu acho.

Só que mais importante do que os seres sobrenaturais que eles acreditavam, é a estrutura da sociedade. Os Celtas talvez tenham sido a única civilização matriarcal. Existiram várias outras sociedades matriarcais, mas nenhuma chegou ao status de civilização (se é que os próprios celtas chegaram). Nós vivemos em uma sociedade patriarcal. Ela é baseada na razão, na hierarquia e na força, enquanto a sociedade matriarcal seria baseada no místico, na igualdade e na sexualidade. Os valores matriarcais são muito presentes nas reivindicações de nossa época: A equiparação (não igualdade) entre homens e mulheres, a igualdade de tratamento entre as pessoas e uma proximidade maior com a natureza. Esses valores celtas são bem contemporâneos afinal.

Outra coisa interessante sobre a cultura celta é o druidismo. Os Druidas eram os sacerdotes celtas, principalmente na região da Grã-Bretanha. Fontes Greco-Romanas atribuem a eles práticas de sacrifício humano. Uma ótima interpretação do druidismo está na série “Crônicas de Artur” do inglês Bernard Cornwell. Nestes livros, os druidas (entre eles o próprio Merlin) são o pilar da religião pagã, eles detêm todo conhecimento místico e frequentemente seus poderes são solicitados, inclusive em batalhas. Muito parecido com a ideia dos magos de fantasia, ou mesmo dos bruxos e bruxas das lendas.



Todos esses elementos culturais se mantiveram pelos séculos, principalmente devido às histórias do ciclo arturiano, cujo personagem principal é o fundador mitológico da Inglaterra e cuja história é referência de heroísmo até hoje. Tanto a história do rei Artur quanto a história de Tristão e Isolda têm interpretações ótimas feitas pelo Blind Guardian, vale muito a pena ouvir “A Past and Future Secret“ e “The Maiden And the Minstrel Knight”.

Toda essa idéia de valorização do místico e de volta às origens que vem com o ressurgimento da cultura celta acaba sendo uma forma de protesto à sociedade racionalizada e mecanizada em que vivemos. A razão e, principalmente, a ciência foram sempre grandes promessas de uma humanidade livre e justa. Porém o século XX foi uma grande demonstração da própria irracionalidade que a nossa sociedade estava imersa. No fim das contas, o progresso técnico foi mais útil para criar armas do que para criar soluções.

Claro que essa é uma visão muito parcial (e que eu particularmente tenho minhas ressalvas), porém esse sentimento de busca de um natural místico, de unidade com a natureza e com os nossos instintos, faz com que a apropriação de elementos antigos de uma cultura muito diferente ganhe força. Isso não poderia ser diferente no Heavy Metal.



No Geral, o heavy metal carrega uma forte característica patriarcal; afinal, não é à toa que a grande maioria dos músicos são homens. A Razão e, principalmente, a Força são elementos muito valorizados no estilo como um todo. Porém, há um elemento que ajudou a fundar o Heavy Metal que está muito presente na cultura celta: o misticismo.

O que encanta nas narrativas celtas é a forte presença do sobrenatural. No mundo celta, tudo é vivo. Além disso, a grande heterogeneidade das suas crenças traz certa possibilidade de criação. A própria história do Rei Artur foi contada de diversas formas e assim continuará, pois sempre haverá espaço para novas interpretações do mitológico rei da Bretanha. Esses elementos de criação não seriam ignorados pelo heavy metal tão facilmente.

Mesmo a mitologia celta agregando valores não convencionais ao metal, o principal valor das duas visões de mundo é compartilhado: a liberdade. É inclusive essa liberdade do heavy metal que faz com que um estilo tão marcado por instrumentos potentes e graves se incorporasse a flauta. É essa liberdade que a idéia do renascimento celta traz: A liberdade da subjetividade, de amar antes de entender, de se preocupar com os mais fracos, com os que não têm voz. O toque celta, mesmo que sentimental demais para a dureza do heavy metal, é a comprovação de que o metal é um estilo crítico acima de tudo.


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Universo Headbanger: A temida e implacável Morte

Atenção: Esse post é melhor apreciado ao som de Morbid Angel e de Black Sabbath.

O desenvolvimento científico e a consequente apropriação da Natureza mudaram a nossa relação com o conhecimento. Vários mistérios receberam respostas elegantes e lógicas. Hoje temos boas teorias científicas para questões polêmicas como a origem do universo, as forças que regem o movimento, a origem das espécies, o funcionamento fisiológico de nossos corpos etc. Esse tipo de conquista acabou gerando uma sociedade, principalmente no ocidente, mais materialista. Não confunda com aquele materialismo pejorativo no qual a pessoa valoriza mais os objetos do que as outras pessoas, o materialismo que falo aqui é o filosófico, no qual se compreende que tudo que existe é formado por matéria ou reduzível a processos de natureza material. Com essa visão mais materialista do mundo, um problema fica em aberto dentro do imaginário social: O que acontece depois da morte?

Ainda há, é claro, as explicações religiosas. Porém, a partir do momento que a ciência é a moeda de troca do conhecimento em nossa época e as instituições religiosas vão se relativizando e se adaptando a novos paradigmas, as nossas crenças subjetivas e espirituais garantem cada vez menos conforto. Nesse contexto, vai ser no espaço da morte que residirá nossas grandes dúvidas e, consequentemente, nossos grandes medos.



Esse espaço não poderia ser preenchido se não pela arte, inclusive, o heavy metal. O heavy Metal, no geral, se comunica através do choque, do conflito. Mesmo uma banda mais reflexiva vai usar elementos de conflito para atrair a atenção de seus ouvintes. Relacionar o tema da morte nas músicas vai se mostrar como um ótimo atrativo para a mensagem que a banda quer passar. A forma como a morte é apropriada pelo heavy metal varia e se confunde com as formas que a morte é apropriada na nossa vida e em nossa cultura.

Na antiguidade a morte era tratada mitologicamente de forma muito mais tranquila do que hoje. Na mitologia grega a morte do herói era também o ápice de sua vida. Era em seu momento de morte que ele alcançava o seu limite. Isso acabava tornando a morte também como uma ferramenta de autoconhecimento, pois e só na morte que o personagem cumpria (e conhecia) todo o seu potencial. Em algumas culturas a morte heroica é vista como uma forma de salvação. Na mitologia nórdica, por exemplo, o dia da sua morte já é predeterminado, porém, caso o viking morresse em batalha, ele iria para Valhalla, terra onde Odin reunia seu exército para a guerra do fim do mundo (ragnarok), lá seria um lugar onde os guerreiros passariam a vida lutando e bebendo esperando alegremente a última batalha. Já os que morressem de morte natural ou acidental (menos em naufrágios) iriam para o Hel que era uma terra melancólica onde os espíritos vagavam por toda a eternidade. Outra cultura que valoriza a morte heroica é o islã, onde, caso o fiel entregue a sua vida a Alá, ele garante o seu lugar no paraíso.

A morte heroica é uma das mais presentes no metal, principalmente nos estilos da família do power metal. Não tem forma melhor de dizer que a história foi dramática e que o sacrifício do protagonista foi enorme do que matando ele no fim, ou pelo menos deixando claro que a morte é o risco. A "Keeper of the Seven Keys" do Helloween é emblemática nesse sentido. Ela segue um ritmo de certa forma contínuo e rápido, até que chega no trecho em que Michael Kiske canta (grita):“Throw the key or you may die!” e o solo que segue é a parte mais melancólica da música. É importante dar ênfase que a jornada do guardião é mortal, é isso que faz grandes clássicos de músicas como essa.



Mesmo no início do cristianismo a morte era tratada apenas como uma passagem. A ideia de céu e inferno e da infinita misericórdia divina davam um aspecto natural ao falecimento. Porém, com a peste negra, a relação da morte com o desconhecido se intensificou. Um período onde um terço dos europeus morreu devido há uma doença desconhecida causou uma profunda ferida no inconsciente coletivo cristão. Desde então o medo da morte se intensificou na cultura ocidental. Com o renascimento e, posteriormente, com o desencantamento do mundo, esse medo teve o acréscimo da incerteza. Não mais vemos o paraíso como um lugar físico. Já viajamos pelo céu e sabemos que ele não está lá. Mesmo a religião cristã se mantendo forte até hoje, as vertentes protestantes tiraram o aspecto “mágico” que a religião tinha até então, fazendo com que as indulgências e a prática ritual não fossem mais garantias de salvação. Dentro da visão calvinista, por exemplo, não cabia ao indivíduo a sua própria salvação, mas sim a Deus. Nessa visão, Deus já havia escolhido, no momento da criação, as almas a serem salvas. A única “dica” que as pessoas teriam sobre o seu próprio salvamento seria a sua conduta, o fiel deveria viver como que se estivesse de passagem no mundo material, abnegando os prazeres e vivendo apenas para glorificar a Deus. Essa relação conflituosa com a morte e com a vida após a morte cria essa sensação terrível de incerteza.



Esse medo da morte é muito bem explorado no heavy metal. Como o estilo começou contando histórias ocultistas e de terror, a morte nesse sentido está presente em diversas vertentes do estilo. Uma música que explora muito bem o sentimento da peste negra é a "Plague and Fyre" da banda Hell. Uma música mais famosa que representa esse medo da morte é a "Raining Blood" do Slayer que fala de um juízo final duro e terrível. A força da música está na representação da espera tortuosa pelo juízo final no purgatório, uma clara ironia a benevolência das crenças cristãs.

O heavy metal tem uma estética muito ligada à força e ao poder. Em relação à morte não poderia ser diferente. As bandas mais pesadas normalmente tratam a morte como algo superável, ou controlável. Acho que não há melhor exemplo do que a "Stronger than Death" do Black Label Society que é uma análise bem peculiar da morte, tratando-a de uma forma bem fria e realista. Há também a apropriação do inferno como símbolo de força, como na "Welcome to Hell" do Venom. A simbologia da morte está também muito presente, como na adoção da personificação da morte como mascote pelo Children of Bodom ou o próprio morto-vivo Eddie, mascote do Iron Maiden.



A simbologia da morte é muito rica nas artes. A morte é a prova que estamos vivos e a vida é a prova que vamos morrer. O Mito grego de Sísifo é muito interessante para pensarmos simbolicamente a relação entre a morte e a vida. Sísifo era um cara muito esperto que conseguia tudo na lábia, era tão bom que acabou enganando até os deuses. Sísifo contou a Asopo, deus dos rios, que Zeus havia sequestrado sua filha Egina. Zeus ficou furioso e mandou Tanatos, deus da morte, perseguir Sísifo. Porém Sísifo prendeu Tanatos impedindo que as pessoas pudessem morrer. Ares então interviu e libertou Tanátos. Sísifo viu que não tinha como escapar e então pediu a sua esposa que não executasse os rituais funerários. Chegando ao mundo dos mortos, Sísifo se queixou a Hades da falta de consideração de sua esposa por não ter efetuado os rituais e solicitou permissão para que voltasse ao mundo dos vivos apenas para castiga-la. Hades aceitou e Sísifo não voltou ao mundo dos mortos até que morreu de velhice. Quando voltou Hades o condenou a empurrar uma pedra até o cume de um monte, caindo a pedra invariavelmente da montanha sempre que o topo era atingido. Esse processo foi repetido até a eternidade.



O mito de Sísifo é sujeito a diversas interpretações. A que eu mais gosto é que Sísifo viveu a sua vida toda com medo da morte e isso fez com que vivesse apenas lutando para evitar o fim. O seu maior anseio era viver eternamente, porém esse foi o seu próprio castigo. A ideia de carregar a pedra até o topo do morro pela eternidade pode ser encarada como uma metáfora para a vida. A vida é um constante carregar a pedra acima do morro, porém nunca conseguimos chegar até lá, o ideal seria que o nosso processo de carregar a pedra seja suficiente em si mesmo. Se esperarmos que a nossa vida só valha a pena quando a pedra estiver parada no topo, então nunca nos realizaremos, pois a morte chegará antes. Sísifo é um elogio a vida sem sentido. Ele é um dos poucos personagens da mitologia grega sem um objetivo definido, o seu único objetivo era viver, e ele acabou, ironicamente, conseguindo. Devemos sempre encarar a morte, pois é essa limitação que nos move, se tivéssemos certeza que viveríamos para sempre, jamais teríamos coragem de carregar as nossas pedras.


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Universo Headbanger: A livre e excitante vida sobre duas rodas.


Atenção: Esse post é melhor apreciado ao som de Saxon e Deep Purple.

Um tema sempre tratado em músicas de heavy metal é a Liberdade. Não apenas como um tema abstrato, mas contemplado em suas mais diversas formas. Mesmo quando uma banda não é muito inspirada politicamente, pode ter certeza que em alguma música a liberdade vai ser exaltada, mesmo que seja a liberdade de não ser inspirado politicamente. Esse sentimento de liberdade propagado pelas músicas de metal, além da sua alma contestadora, não poderia deixar de dialogar com o mundo de duas rodas.

Ser motociclista e fazer parte de um clube de motos é mais do que gostar de andar de moto, envolve todo o estilo de vida: A forma de se vestir, o jeito de falar e, principalmente, o jeito de ver o mundo. Apesar de grandes defensores da liberdade, internamente esses grupos têm suas próprias regras, uma estrutura organizacional algumas vezes rígida e um grande comprometimento com a sobrevivência do grupo. Dentro destes clubes há uma complexa relação de símbolos e rituais que asseguram a ligação do membro com seus “irmãos”.



A origem dos clubes de motociclistas como conhecemos tem muito a ver com o sentimento do pós-guerra no fim dos anos 40. Devido às experiências vividas em batalha, alguns veteranos não conseguiam aceitar levar uma vida pacata dentro dos moldes convencionais. A guerra mexe com a cabeça das pessoas e é difícil viver uma vida padrão após sucessivas experiências com altas taxas de adrenalina. A guerra do Vietnã foi também uma grande catalizadora deste tipo de indivíduo, pois, além de ter sido uma guerra longa e difícil, os veteranos eram hostilizados pelos crimes de guerra cometidos pelos militares como um todo. Somado a isso, muitos dos veteranos de guerra tiveram contato com motocicleta durante os treinamentos e ações de guerra. Além disso, o sentimento de lutar lado a lado com seus companheiros de batalha, arriscar a vida por eles e vê-los morrer para defender o grupo ajudou a criar em alguns veteranos essa cultura da "irmandade".

A imagem dos motociclistas na sociedade é muito controversa e as opiniões são muito polarizadas. Enquanto alguns os veem como bárbaros sobre rodas, vivendo à margem da sociedade e gerando insegurança, para outros eles são verdadeiramente livres e levam a vida fora da lógica repressora de nosso mundo. Enquanto a mídia os trata como gangues, eles preferem se ver como um clube. Nada muito diferente do que acontece com os headbangers, principalmente os fãs de estilos mais agressivos.

O termo inglês para designar os motoclubes tradicionais é “Outlaw Motorcycle Club” ou então os “1%” esses nomes vieram de uma confusão em uma cidade americana chamada Hollister em um evento organizado pela “American Motorcyclist Association” (AMA) que disse em um pronunciamento que os envolvidos representavam apenas 1% dos motociclistas presentes no evento. Alguns clubes então romperam com a AMA e se autoproclamaram os “1%” ou os “foras-da-lei”. Aqui no Brasil quando nos referimos aos clubes desse tipo apenas usamos o termo “tradicional”.



Não dá pra categorizar logo de cara todos os clubes de motociclistas como foras-da-lei ligados a arruaceiros e sem nenhuma relevância para a sociedade. A ideia dos clubes de motocicleta segue a lógica de “irmandade” Como diria “Maz” Harris do Hell’s Angels em sua autobiografia: “os motociclistas também são uma raça de homens que não se enquadram” citando um poema de Robert Service. Os clubes de motocicleta enxergam de forma diferente quem está dentro dele (insiders) e quem está fora (outsiders). Um clube pode até mostrar como funciona a dinâmica do grupo e algum de seus símbolos para um outsider, mas só um insider realmente tem acesso a todas as informações.

Nos EUA os Outlaw Motorcycle Club se dividem por regiões, diferentemente do Brasil, lá você não pode simplesmente criar um clube, pois, provavelmente, já existe algum clube dominando sua área. Dentro destes clubes (mesmo aqui no Brasil) há uma hierarquia e demora um pouco até que o iniciante seja realmente aceito. Estes clubes se identificam através de brasões e cores e, em geral, se respeitam mutualmente. A organização interna varia de grupo para grupo e não é muito divulgada. Os grandes clubes têm sedes em diversos lugares do mundo, têm marca registrada e até fazem ações de caridade.



As semelhanças com o mundo do heavy metal são marcantes. A própria forma de se vestir, a noção de moral mais individualizada e, principalmente, a não conformidade em relação ao senso comum são pontos de encontro que ligam fortemente os dois universos. É comum ver integrantes de bandas entrarem de moto no palco, como os caras do Manowar ou o Rob Halford do Judas Priest. Mesmo nas capas de CDs e nas letras das músicas, frequentemente há referencia ao mundo dos motociclistas como na Motorcycle man do Saxon: “Eu posso derrotar sua máquina de rua. Nós estamos assumindo riscos é isso que estamos dizendo, porque sou o homem de motocicleta”.

Mesmo eu não sendo um grande entusiasta do veículo motocicleta, acho que a cultura envolvida é muito interessante e acrescenta de forma positiva o heavy metal. Diferentemente do que acontece em um carro, ou em um avião, na imagem de alguém dirigindo uma moto há quase que uma simbiose entre o homem e a máquina. Quando alguém dirige uma moto a pessoa ainda está, de certa forma, fora dela. Viajar de moto produz uma sensação de unidade com o ambiente, você não está isolado dentro de uma máquina, você está em cima dela. A ideia de juntar os amigos e viajar sem saber por quanto tempo é tentador de mais para não virar tema de boas músicas.



terça-feira, 18 de outubro de 2011

Universo Headbanger: A dura e ativa mitologia nórdica



Atenção: Esse post é melhor apreciado ao som de Amon Amarth ou Manowar.

Uma coisa que sempre me atraiu no heavy metal é a capacidade de contar estórias. A influência da música clássica auxilia muito nesse quesito. Bandas como Blind Guardian e Avantasia narram verdadeiros épicos através de variações de linas melódicas e uma narração digna de chamar de poesia. As temáticas das estórias vão longe, desde temas históricos, passando pela literatura e, é claro, a mitologia. 

A mitologia nórdica tem um espaço considerável no estilo. A imagem cristã dos guerreiros vikings incansáveis, terríveis em batalha, é um prato cheio para narrativas de grandes guerras e improváveis conquistas. Assim como na mitologia grega, os deuses nórdicos representam, em uma escala divina, a humanidade. Mas quando olhamos para a mitologia nórdica mais a fundo, encontramos elementos que os aproximam muito mais do “jeito” metal de ver o mundo.



A fonte para as análises deste post é o livro “Magic, Fate, and History: The Changing Ethos of the Vikings” da antropóloga Rosalie H. Wax. Ela chama a atenção para alguns fatores peculiares da mitologia escandinava. Uma delas é que na mitologia viking nada é estático, tudo está em movimento. Por exemplo, o Sol e a Lua voam pelo céu e atrás deles lobos correm com a intenção de comê-los. Outro exemplo é a árvore-mundo “Yggdrasill” que é sujeita a intermináveis assaltos e renovações, serpentes roem as suas raízes e cervos rasgam seus ramos. Enquanto isso, Três deusas banham a árvore com um líquido potente de um poço sagrado, só assim Yggdrasill consegue se manter viva. Mesmo os deuses sempre estão fazendo alguma coisa, Odin está sempre buscando sabedoria arcana, Thor Está sempre indo para o leste enfrentar os gigantes, nada nunca para.

Isso tem tudo a ver com heavy metal, ainda mais os estilos mais épicos. As músicas precisam sempre “se mover”. Os riffs deixam sempre clara a passagem do tempo. A visão de mundo de um headbanger é de um mundo que muda e precisa ser mudado. Assim como na mitologia nórdica, a impressão é que tudo pode ruir a qualquer momento. Não há espaço para contemplação pura e simples, é sempre preciso avançar, crescer, melhorar. Diferentemente da cultura grega ou judaica, na mitologia nórdica os homens são responsáveis por suas ações, não há inspiração ou manipulação divina, se queremos alcançar algum objetivo, nada nos carregará até ele. Um choque de realidade muito comum em letras de heavy metal.


 Outra coisa interessante que eu vi neste livro é a substancialidade do mundo nórdico, como diria Wax: “Se algo não pode ser sentido pelas mãos, ou, melhor ainda, não emite som (ring) ou quebra quando acertado, não é considerado digno de nota; Se algo não pode ser claramente visto pelo olho em seu contorno preciso e definitivo, não vale a pena descrevê-lo”. Na mitologia viking os mortos nunca viram fantasmas, eles ainda mantêm o seu corpo em Valhalla ou em Hel. Graças a isso, o mito de criação viking não vem de um vazio primordial, mas de vastos rios cósmicos alimentados por várias chuvas, esses rios congelaram e, quando começaram a derreter, de uma gota nasceu o primeiro gigante de gelo “Ymir”. Mas ele foi assassinado por Odin e outros deuses e estes fizeram o mundo a partir do corpo do gigante: Do sangue dele fizeram os mares e lagos, da sua carne fizeram a terra, dos seus ossos fizeram as montanhas, do seu crânio fizeram o céu e de seu cérebro fizeram as nuvens.

Essa visão substancial do mundo é muito peculiar. Normalmente ligamos religiões e mitologia a espíritos e coisas que não fazem parte do nosso plano, mas os homens do norte não precisavam supor outro patamar para os seus deuses, eles eram como eles. Com a forte característica antirreligiosa de alguns estilos de metal, nada como uma mitologia onde todos podem ser quebrados, esmagados, cortados, torcidos e rasgados.  Essa forma materialista de ver o mundo e os deuses se aproxima muito mais das pessoas com pouca crença. Cantar sobre a alma quando você não é religioso é complicado, mas falar sobre Thor, que é simplesmente um guerreiro com status de deus, não tem nenhum problema. Ninguém sabe como Jeová é, mesmo Jesus transcendia a sua própria carne, mas não havia dúvidas de como descrever Odin, grande e terrível.



A mitologia do povo que se arranjou nos confins mais frios da Europa tem tudo para combinar com o estilo de rock mais agressivo e mais fantasioso, mas a própria história de conquistas dos Vikings também é uma ótima inspiração. Seu território se espalhou pela Europa no inicio segundo milênio, chegaram a ter possessões na Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Rússia e até nas margens do mar negro. Fora da Europa, dominaram parte da Groelândia e chegaram até a o Canadá e invadiam constantemente territórios ao norte da África. Essa Disposição expansionista somada a imagem da antiga literatura escandinava dos “Bersekers” – Guerreiros incontroláveis lutando com inspiração religiosa fanática – Cria uma imagem do povo guerreiro perfeito. O complexo de Davi e Golias não é uma temática unânime nas músicas de heavy metal, muitas vezes é o mais forte que vence, e os vikings, pelo menos nas lendas, sempre eram os mais fortes.

Talvez haja algo na cultura dos Vikings que os aproximem mais intimamente com o heavy metal, não deve ser por acaso que os países nórdicos são uma das principais fontes de boas bandas. Da Finlândia temos Children of Bodom, Finntroll, Nightwish e Stratovarius; da Noruega temos Burzum, Darkthrone, Dimmu Borgir, Mayhen, Tristania e toda uma cena de Black Metal e Gothic Metal; Na Suécia temos o Amon Amarth, Arch Enemy, HammerFall e Marduk; Na Dinamarca temos o King Diamond e o Mercyful Fate (desculpem-me pelas bandas que esqueci). Para se ter uma ideia, estamos falando de uma população total de aproximadamente 20 milhões de pessoas, a mesma que a região metropolitana de São Paulo. Não há como negar que os Vikings têm tudo a ver com heavy metal.