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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Profile: Tente falar "New Wave Of British Heavy Metal" três vezes rápido!


O New Wave of British of Heavy Metal (NWOBHM) é o evento mais importante da história do heavy metal, se ele não tivesse ocorrido, talvez o heavy metal não sobrevivesse os anos 80. Foi esse movimento que trouxe o heavy metal para mídia como um movimento, não como uma sonoridade experimental de algumas bandas. Poucas bandas conseguiram sobreviver até hoje com um sucesso expressivo, mas graças ao NWOBHM o metal proliferou pelo mundo.


Apesar de ser visto como um movimento espontâneo, independente da mídia e de desmandos de gravadoras, houve um jornal que foi determinante para a divulgação do movimento, o periódico se chamava “Sounds”. Esse jornal também foi responsável por cunhar pela primeira vez o termo NWOBHM. Mas, musicalmente falando, se alguém pode ser considerado responsável pelo movimento é o DJ Neal Kay, dono da Soundhouse, clube em que o Iron Maiden fez a sua primeira gravação. Kay foi mentor e incentivador de bandas como Iron Maiden, Saxon, Samson, Angel Witch e Praying Mants. Ele também começou a escrever para sounds artigos sobre as bandas do movimento.

Uma das primeiras bandas do movimento e a mais famosa é o Iron Maiden. Ainda no fim da década de 70 eles lançaram o “The Soundhouse Tapes”. O EP foi gravado de forma independente e sintetiza muito bem o espírito do movimento. Houve muita influência do Punk, a ideia do “Do it yourself” estava presente. O som era mais alto e agressivo do que os antecessores e a influência do blues já não era mais perceptível. Apesar de os músicos do Iron mostrarem ao longo do tempo que eram exímios músicos, nesse momento o importante era o entusiasmo. A sonoridade da banda na era Paul Di’Anno é bem diferente da sonoridade que a banda adotaria depois, mais leve e mais melódica.

O Iron Maiden (e também o Metallica) é, muitas vezes, a banda responsável pelo primeiro contato que as pessoas têm com o heavy metal e isso não é à toa. Além de eles terem sido pioneiros em um dos momentos mais importantes da história do metal, eles conseguiram sair do paradigma do começo dos anos 80 e passou todos esses anos produzindo um som de qualidade. Músicas como "Fear of the Dark" e "The Number of the Beast” estão marcadas na história do rock e são poucos que não as conhecem. A banda também incorporou elementos de História e Literatura em suas composições, abrindo um leque de possibilidades que posteriormente seria adotado por diversas bandas do gênero. A discografia da banda é grande e são muitas músicas ótimas. Além das duas músicas já citadas neste parágrafo, não deixe de ouvir "Holy Smoke" e "Wasted Years”, minhas músicas preferidas da banda.


Apesar do clube Soundhouse, o Iron Maiden e o periódico Sound serem de Londres, o NWOBHM foi um evento que ocorreu simultaneamente em toda Inglaterra. Uma banda da cidade de Sheffield que também ajudou a iniciar o movimento foi o Def Leppard. Eles começaram a fazer seus shows ainda em 1977 e conseguiram uma rápida notoriedade. Porém, quando, em 1980 lançaram seu primeiro disco, o “On Through the Night”, eles se desviaram da idéia do NWOBHM e adotaram uma sonoridade mais acessível, inspirada no hard rock nascente nos EUA. Por mais blasfêmico que isso possa ter parecido na época, foi dessa forma que a banda conseguiu se consagrar na história do rock, atingindo marcas impressionantes, inclusive uma marca no Guinness Book por ter tocado em três continentes em um único  dia! Ouçam "High’n Dry” e "Let’s Get Rocked" que vocês não vão se arrepender.

Outra banda que conseguiu se manter firme até a atualidade foi o Saxon. Entre 79 e 83 a banda lançou cinco álbuns com ótima crítica, sendo que quatro deles conseguiram boas colocações das listas inglesas. Em 1984 a banda lançou o álbum Crusader que, mesmo sendo considerado um dos melhores álbuns da banda, já mostrava uma “americanização” da sonoridade da banda. O NWOBHM foi cruel com as bandas que não souberam se atualizar, poucas tiveram fôlego para chegar aos anos 90 com alguma visibilidade. Talvez essa comercialização do som do Saxon (o mesmo para as mudanças do Iron Maiden e do Def Leppard) tenha sido crucial para o sucesso da banda que está firme e forte até hoje. Ouça "Rock City" e "Surviving Against the Odds”!


Uma das bandas desse movimento que mais influenciou o que viria posteriormente foi o Venom. Muitas vezes vistos como os pais do metal extremo, o Venom foi a primeira banda a usar temas satânicos com um papel de destaque em suas composições. O resultado disso é meio óbvio, aclamados por fãs de metal pesado, mas duramente criticados pela crítica, o Venom não conseguiu alcançar o mesmo patamar das outras bandas citadas aqui. Mas não é nada mal ficar marcado na história como a inspiração para o Black e o Death Metal! "Processed” e "Sadist” são minhas indicações.

Muitas bandas fizeram parte desse movimento que, temos que admitir, é datado. As bandas que realmente conseguiram superar o início dos anos 80 e deixar sua marca na história do rock foram aquelas que encontraram uma identidade própria ainda no começo da década. Apesar de breve, o NWOBHM influenciou praticamente tudo que foi produzido de heavy metal nos anos 80, do power metal até o black metal. Para quem quer entender melhor a sonoridade do movimento, a compilação New Wave of British Heavy Metal '79 Revisited é um CD bem legal, vale a pena!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Universo Headbanger: A temida e implacável Morte

Atenção: Esse post é melhor apreciado ao som de Morbid Angel e de Black Sabbath.

O desenvolvimento científico e a consequente apropriação da Natureza mudaram a nossa relação com o conhecimento. Vários mistérios receberam respostas elegantes e lógicas. Hoje temos boas teorias científicas para questões polêmicas como a origem do universo, as forças que regem o movimento, a origem das espécies, o funcionamento fisiológico de nossos corpos etc. Esse tipo de conquista acabou gerando uma sociedade, principalmente no ocidente, mais materialista. Não confunda com aquele materialismo pejorativo no qual a pessoa valoriza mais os objetos do que as outras pessoas, o materialismo que falo aqui é o filosófico, no qual se compreende que tudo que existe é formado por matéria ou reduzível a processos de natureza material. Com essa visão mais materialista do mundo, um problema fica em aberto dentro do imaginário social: O que acontece depois da morte?

Ainda há, é claro, as explicações religiosas. Porém, a partir do momento que a ciência é a moeda de troca do conhecimento em nossa época e as instituições religiosas vão se relativizando e se adaptando a novos paradigmas, as nossas crenças subjetivas e espirituais garantem cada vez menos conforto. Nesse contexto, vai ser no espaço da morte que residirá nossas grandes dúvidas e, consequentemente, nossos grandes medos.



Esse espaço não poderia ser preenchido se não pela arte, inclusive, o heavy metal. O heavy Metal, no geral, se comunica através do choque, do conflito. Mesmo uma banda mais reflexiva vai usar elementos de conflito para atrair a atenção de seus ouvintes. Relacionar o tema da morte nas músicas vai se mostrar como um ótimo atrativo para a mensagem que a banda quer passar. A forma como a morte é apropriada pelo heavy metal varia e se confunde com as formas que a morte é apropriada na nossa vida e em nossa cultura.

Na antiguidade a morte era tratada mitologicamente de forma muito mais tranquila do que hoje. Na mitologia grega a morte do herói era também o ápice de sua vida. Era em seu momento de morte que ele alcançava o seu limite. Isso acabava tornando a morte também como uma ferramenta de autoconhecimento, pois e só na morte que o personagem cumpria (e conhecia) todo o seu potencial. Em algumas culturas a morte heroica é vista como uma forma de salvação. Na mitologia nórdica, por exemplo, o dia da sua morte já é predeterminado, porém, caso o viking morresse em batalha, ele iria para Valhalla, terra onde Odin reunia seu exército para a guerra do fim do mundo (ragnarok), lá seria um lugar onde os guerreiros passariam a vida lutando e bebendo esperando alegremente a última batalha. Já os que morressem de morte natural ou acidental (menos em naufrágios) iriam para o Hel que era uma terra melancólica onde os espíritos vagavam por toda a eternidade. Outra cultura que valoriza a morte heroica é o islã, onde, caso o fiel entregue a sua vida a Alá, ele garante o seu lugar no paraíso.

A morte heroica é uma das mais presentes no metal, principalmente nos estilos da família do power metal. Não tem forma melhor de dizer que a história foi dramática e que o sacrifício do protagonista foi enorme do que matando ele no fim, ou pelo menos deixando claro que a morte é o risco. A "Keeper of the Seven Keys" do Helloween é emblemática nesse sentido. Ela segue um ritmo de certa forma contínuo e rápido, até que chega no trecho em que Michael Kiske canta (grita):“Throw the key or you may die!” e o solo que segue é a parte mais melancólica da música. É importante dar ênfase que a jornada do guardião é mortal, é isso que faz grandes clássicos de músicas como essa.



Mesmo no início do cristianismo a morte era tratada apenas como uma passagem. A ideia de céu e inferno e da infinita misericórdia divina davam um aspecto natural ao falecimento. Porém, com a peste negra, a relação da morte com o desconhecido se intensificou. Um período onde um terço dos europeus morreu devido há uma doença desconhecida causou uma profunda ferida no inconsciente coletivo cristão. Desde então o medo da morte se intensificou na cultura ocidental. Com o renascimento e, posteriormente, com o desencantamento do mundo, esse medo teve o acréscimo da incerteza. Não mais vemos o paraíso como um lugar físico. Já viajamos pelo céu e sabemos que ele não está lá. Mesmo a religião cristã se mantendo forte até hoje, as vertentes protestantes tiraram o aspecto “mágico” que a religião tinha até então, fazendo com que as indulgências e a prática ritual não fossem mais garantias de salvação. Dentro da visão calvinista, por exemplo, não cabia ao indivíduo a sua própria salvação, mas sim a Deus. Nessa visão, Deus já havia escolhido, no momento da criação, as almas a serem salvas. A única “dica” que as pessoas teriam sobre o seu próprio salvamento seria a sua conduta, o fiel deveria viver como que se estivesse de passagem no mundo material, abnegando os prazeres e vivendo apenas para glorificar a Deus. Essa relação conflituosa com a morte e com a vida após a morte cria essa sensação terrível de incerteza.



Esse medo da morte é muito bem explorado no heavy metal. Como o estilo começou contando histórias ocultistas e de terror, a morte nesse sentido está presente em diversas vertentes do estilo. Uma música que explora muito bem o sentimento da peste negra é a "Plague and Fyre" da banda Hell. Uma música mais famosa que representa esse medo da morte é a "Raining Blood" do Slayer que fala de um juízo final duro e terrível. A força da música está na representação da espera tortuosa pelo juízo final no purgatório, uma clara ironia a benevolência das crenças cristãs.

O heavy metal tem uma estética muito ligada à força e ao poder. Em relação à morte não poderia ser diferente. As bandas mais pesadas normalmente tratam a morte como algo superável, ou controlável. Acho que não há melhor exemplo do que a "Stronger than Death" do Black Label Society que é uma análise bem peculiar da morte, tratando-a de uma forma bem fria e realista. Há também a apropriação do inferno como símbolo de força, como na "Welcome to Hell" do Venom. A simbologia da morte está também muito presente, como na adoção da personificação da morte como mascote pelo Children of Bodom ou o próprio morto-vivo Eddie, mascote do Iron Maiden.



A simbologia da morte é muito rica nas artes. A morte é a prova que estamos vivos e a vida é a prova que vamos morrer. O Mito grego de Sísifo é muito interessante para pensarmos simbolicamente a relação entre a morte e a vida. Sísifo era um cara muito esperto que conseguia tudo na lábia, era tão bom que acabou enganando até os deuses. Sísifo contou a Asopo, deus dos rios, que Zeus havia sequestrado sua filha Egina. Zeus ficou furioso e mandou Tanatos, deus da morte, perseguir Sísifo. Porém Sísifo prendeu Tanatos impedindo que as pessoas pudessem morrer. Ares então interviu e libertou Tanátos. Sísifo viu que não tinha como escapar e então pediu a sua esposa que não executasse os rituais funerários. Chegando ao mundo dos mortos, Sísifo se queixou a Hades da falta de consideração de sua esposa por não ter efetuado os rituais e solicitou permissão para que voltasse ao mundo dos vivos apenas para castiga-la. Hades aceitou e Sísifo não voltou ao mundo dos mortos até que morreu de velhice. Quando voltou Hades o condenou a empurrar uma pedra até o cume de um monte, caindo a pedra invariavelmente da montanha sempre que o topo era atingido. Esse processo foi repetido até a eternidade.



O mito de Sísifo é sujeito a diversas interpretações. A que eu mais gosto é que Sísifo viveu a sua vida toda com medo da morte e isso fez com que vivesse apenas lutando para evitar o fim. O seu maior anseio era viver eternamente, porém esse foi o seu próprio castigo. A ideia de carregar a pedra até o topo do morro pela eternidade pode ser encarada como uma metáfora para a vida. A vida é um constante carregar a pedra acima do morro, porém nunca conseguimos chegar até lá, o ideal seria que o nosso processo de carregar a pedra seja suficiente em si mesmo. Se esperarmos que a nossa vida só valha a pena quando a pedra estiver parada no topo, então nunca nos realizaremos, pois a morte chegará antes. Sísifo é um elogio a vida sem sentido. Ele é um dos poucos personagens da mitologia grega sem um objetivo definido, o seu único objetivo era viver, e ele acabou, ironicamente, conseguindo. Devemos sempre encarar a morte, pois é essa limitação que nos move, se tivéssemos certeza que viveríamos para sempre, jamais teríamos coragem de carregar as nossas pedras.