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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Raio X: Highway to Hell - Vivendo fácil, vivendo livre

 

Vivendo fácil, vivendo livre
Um bilhete para a temporada em uma rua de mão única
Sem pedir nada, me deixe em paz
Pegando tudo em meu caminho
Não preciso de razão, não preciso de rima
Não tem nada que eu prefira fazer
Descendo, hora da festa
Meus amigos vão estar lá também

Estou na estrada para o inferno

Sem sinais de "pare", sem limites de velocidade
Ninguém vai me fazer reduzir a velocidade
Como uma roda, vou rodar
Ninguém vai me sacanear
Ei Satã, paguei minhas dívidas
Tocando em uma banda de rock
Ei mamãe, olhe para mim
Estou no meu caminho para a terra prometida
                                                 
Estou na estrada para o inferno
Não me pare

E eu vou descendo, descendo até o fim
Estou na estrada para o inferno



No primeiro raio x do ano não poderia deixar de falar de uma música clássica. Highway To Hell é uma das músicas mais conhecidas do rock, enquanto o AC/DC é praticamente uma unanimidade. Além de ser uma música foda, a Highway To Hell tem bastante história.
                                                              
Tudo começou quando um jornalista perguntou a Angus Young como era a vida estando sempre em turnê, a resposta foi: “It’s a fucking highway to hell”. Os rumores de que a banda teria algum envolvimento com satanismo começaram a crescer (acho que toda banda de sucesso deve ter passado por isso) e a capa do próprio CD “Highway to Hell” não ajudou muito na defesa dos australianos. Apesar de eles sempre negarem qualquer envolvimento com o satanismo.

A letra da música em si parece até bem simples. Não acredito que ela tenha algum significado muito profundo além de viver na estrada como estrelas do rock indo ao encontro do inferno, por assim dizer. Mas, quando a mensagem é simples, ela abre bastante espaço para a interpretação e para a especulação e é isso que eu vou fazer aqui.



Uma vez ouvi em um podcast que hoje em dia vivemos menos porque temos medo da morte. A teoria é que se tratássemos a morte como algo mais natural, nós nos arriscaríamos mais e que “arriscar” é viver no fim das contas. Acho que esse tipo de visão combina bem com o teor da música.

Vendo a morte da perspectiva de um rockeiro, o destino mais sonoro é o inferno. Pense se a música se chamasse “highway to heaven”, causaria o mesmo impacto? Eu acho que não. O inferno, na minha opinião, é apenas a metáfora para morte, enquanto a estrada é a metáfora para a vida. Juntando tudo, a idéia é que viver é ir em direção a morte.

E como a vida é apenas uma única estrada e com um único sentido, tentar evitar o destino é um esforço em vão. Aquela máxima de que “o que se leva da vida é a vida que se leva” se encaixa bem com a letra da Highway to Hell. Já que o “sentido” da vida é a morte, não existiria um jeito “certo” de se viver: Não preciso de razão, não preciso de rima. Não vale a pena fazer qualquer outra coisa que você não queira ou, pelo menos, não tenha uma motivação clara. A ideia que me parece forte na música é que a gente mesmo escreve a nossa história, dentro das limitações impostas pela vida.

Claro que isso é só uma interpretação, mas a forma como Bon Scott morreu: sufocado pelo próprio vômito dormindo bêbado no banco de trás do carro de um amigo, seis meses depois do lançamento da Highway to Hell, música que ele ajudou a escrever, diz muito sobre como ele levava a vida. E, talvez, devido à visão de vida que ele tinha, ele tenha morrido feliz.


domingo, 4 de dezembro de 2011

Review: The Great Execution - A sexta grande extinção está para chegar.


Quando o heavy metal começou, a sua principal marca era o místico, o obscuro, o terror. Com o tempo, o estilo foi se expandido e várias temáticas se tornaram tão comuns quanto o clássico terror. Porém não é fácil tirar uma identidade tão forte quanto o culto ao medo presente no início do heavy metal. Claro que, com o passar do tempo, as pessoas vão se acostumando com a linguagem do heavy metal e o terror das músicas do Black Sabbath já não são grande coisa (mas musicalmente continuam ótimas). Enquanto algumas bandas adotaram uma linguagem do medo mais light apenas como um aperitivo, outras bandas mais extremas criaram e recriaram novas linguagens para passar esse sentimento. Um ótimo exemplo para ilustrar o que eu estou falando é o CD novo do Krisiun, o “The Great Execution”.



As letras deste CD são muito bem escritas e totalmente incorretas, no bom sentido! Uma das melhores interpretações de uma arena de gladiadores que já ouvi está na faixa Violentia Gladiatore: “Corpos empalados em lanças de ferro, espetáculos de horror / A platéia da arena celebrando as bestas com um massivo rugido”. Isso é light ainda comparado com este trecho da Blood of Lions: “Aqui eu venho na velocidade de um som de assassinato / Cavalgando rápido nas asas de uma guerra infernal / No meu mundo apenas o mal glorifica, os caminhos do caos para purificar”. Tudo isso em meio de riffs muito bem elaborados e linhas de vocal muito bem feitas.

Em meio a essa linguagem extrema há uma forte crítica a humanidade, e o bode expiatório é, como de praxe, o cristianismo. As críticas seguem a linha parecida com as de Nietzsche; como, por exemplo, em um trecho da música que leva o nome do álbum: “Morto é o chamado salvador / A peste de cristo, eterna mentira universal / Colhendo rezas quebradas / Nos campos de engano, decadência e tristeza”. A fraqueza da humildade e a mentira da vida após a morte são outras críticas ao cristianismo presentes no álbum. Além de criticar a religiosidade da humanidade, critica também sua hipocresia e autodestruição, como no trecho da Extinção em Massa: “Atitude extrema / Falha no esquema / Queda no sistema / inverno nuclear / Morte por ganância / O fim por ignorância / A maquina não para / Não para de matar”



O death metal misturado com elementos de thrash metal forma uma das melhores misturas de estilos de metal. Krisiun o faz nesse CD de forma primorosa. As músicas que mais gostei foram a “The Great Execution” e a “Violentia Glatiatore”, mas o CD todo é ótimo. Apesar de não muito aconselhável para pessoas muito religiosas, ou pudicas, o The Great Execution é um dos CDs nacionais que não podem passar em branco na sua playlist.


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Raio X: Face the Emptiness - A história acabou antes mesmo de começar


 

A história acabou
Está finalizada, acabada
O sonho que você teve
Desapareceu na neblina

Parado na frente
Das ruinas do que você construiu
Chocado até os ossos
E esmagado

Quando gigantes caem e anjos choram
Você sabe – É difícil salvar o dia

A última palavra já está dita e feita
A história acaba onde ela começa
Você tem que encarar o vazio
Não tem como argumentar
Não tem como modificar
Você sabe
É aí que a chuva cai

Não há dúvida que você está acabado
A história termina sem nem começar
Venha e encare o vazio
Não há como se esconder
Você não pode correr, tem de ficar
Parado e assistir
A chuva caindo

Quanto mais alto você coloca seus objetivos
Mais fundo você pode cair
Algumas vezes a vida
Simplesmente não é Justa

Você é um guerreiro incansável
Você se levanta quando cai
Mesmos se você
Não conseguir entender ainda

A última palavra já está dita e feita
A história acaba onde ela começa
Você tem que encarar o vazio
Não tem como argumentar
Não tem como modificar
Você sabe
É aí que a chuva cai

Não há dúvida que você está acabado
A história termina sem nem começar
Venha e encare o vazio
Não há como se esconder
Você não pode correr, tem de ficar
Parado e assistir
A chuva caindo



Já vou me desculpando antecipadamente pela letra depressiva, mas considero que a mensagem passada na "Face the Emptiness" do Primal Fear vale a pena ser ouvida. Esse tipo de mensagem mais pessimista (ou realista, como acredito) é raro no Power Metal, normalmente, em músicas mais reflexivas do estilo, ou as músicas fomentam um sentimento de revolta, ou tentam te mostrar um lado positivo de algum tipo de aflição.

Quando estava traduzindo esta música, pensei seriamente em usar a palavra “estória” no lugar de “histórica” já que no inglês há a diferenciação entre history (disciplina que estuda o passado) e story (conto), mas percebi que ele mistura esses dois conceitos durante a música, como na ótima frase repetida na série Battlestar Galactica: All this has happened before, and all of it will happen again (tudo isso já aconteceu antes e tudo isso vai acontecer de novo). A música é uma repetição da mesma ideia: “encare o vazio, a hi(e)stória acaba antes de começar”. Mas essa ideia não é tão simples e é muito carregada de significado.



A música já começa falando que a história acabou, que os sonhos se perderam, que as ruinas do seu passado te esmagam; a música não te deixa nem respirar e já vai jogando pessimismo em você. Mas, pare para pensar, você deve ter vários planos e sonhos para seu futuro, principalmente se você for jovem. Mesmo que você seja o tipo de pessoa que vive o presente intensamente e deixa para se preocupar com o futuro só no futuro, não há como não criar grandes expectativas para o dia de amanhã. Não importa em qual área da sua vida você deposite sua confiança, você acredita que algo de bom está reservado para você, que você merece. Mas, mesmo que todas essas coisas se realizem, elas nunca são como imaginávamos, mesmo que já esperássemos, os problemas que surgem decorrentes de um futuro de sucesso (não importa em que esfera da vida) nunca são 100% previstos. É como se a angústia que tentamos aliviar hoje fosse irremediável.

Se mesmo quando as coisas ocorrem da forma que esperávamos não consigamos nos livrar da angústia; quando elas não acontecem, ou pior, quando os nossos sonhos ocorrem do avesso, esse sentimento de angústia se apodera da nossa alma e começamos a procurar um sentido para essas dificuldades, uma explicação. Apesar de, eventualmente, essa angústia se transformar em patologias, com o tempo acabamos cometendo os mesmos erros e sofrendo as mesmas decepções.



Há um momento em que se percebe na música a linha de pensamento para sustentar toda essa amargura, é o trecho: “Quando gigantes caem e anjos choram / Você sabe – É difícil salvar o dia”. Sempre estamos tentando salvar o dia, nem que seja só o nosso; mas nos frustramos, afinal não somos gigantes, muito menos anjos. Mesmo que você decida se alienar dos problemas a sua volta, pelo menos os seus problemas acabam, eventualmente, te revoltando.

Uma vez eu passei por uma situação que exemplifica bem esse sentimento de revolta despropositada. Certa vez, enquanto eu navegava na internet, me deparei com a notícia que em represália a ataques terroristas, o governo israelense havia atacado a faixa de gaza e deixado 1300 mortos e mais de 5.000 feridos. Aquilo era inaceitável! Claramente um ato condenável. Pelas imagens reproduzidas na reportagem que eu lia, os alvos principais eram civis; que, aliás, já sofriam o suficiente por viver como refugiados dentro de sua própria terra. A sensação de que eu precisava fazer algo para mudar aquela situação me preencheu como nunca antes uma notícia sobre algo em outro país havia feito. E era importante que eu fizesse algo que realmente interferisse; mas, em poucos segundos, eu percebi que aquilo não me pertencia e que eu estava fadado a tentar conscientizar as pessoas próximas a mim dos horrores acontecidos naquela região.



O sentimento que veio quando eu caí na real, é parecido com o que a música te aconselha a encarar. Mesmo que haja uma consciência responsável pelos rumos que o universo toma, ninguém é capaz de compreendê-los. Você não pode deixar essa angústia de que algo está faltando escondida dentro de ilusões, pois assim você nunca aprenderá a lidar com ela. Os momentos de angústia têm que ser aproveitados, pois é quando você está realmente angustiado, que você tem coragem de refletir sobre as suas ações. Quando as coisas parecem dar certo, talvez você tenha a ilusão de que está seguindo um caminho seguro, ou que algo no universo está olhando por você e te protegendo da imperfeição da vida. Mas quando isso não se confirma, é difícil se reerguer e recomeçar depois de toda a decepção.

Uma técnica legal que os caras usaram na letra para te causar estranhamento é escrever a letra falando direto com o interlocutor, toda música passa a mensagem para “você”, enquanto normalmente em questões mais abrangentes e determinantes o normal é falar para “nós”. Aparentemente o objetivo é chamar para reflexão, e eu também tentei usar essa técnica nesse texto, espero que não tenha sido muita pretensão.

Se aprendermos (agora parei de falar só de você) a lidar com a angústia, a encarar o vazio de nossa alma, entender que ele é parte estrutural de nossa mente; talvez consigamos traçar caminhos mais inusitados para a nós, formas mais realistas de enfrentar as dificuldades. Mesmo nos momentos de euforia, aprender a evitar as ilusões, evitar esconder a angústia no nosso subconsciente, talvez nos prepare para quando tivermos que cair na real.


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Universo Headbanger: A temida e implacável Morte

Atenção: Esse post é melhor apreciado ao som de Morbid Angel e de Black Sabbath.

O desenvolvimento científico e a consequente apropriação da Natureza mudaram a nossa relação com o conhecimento. Vários mistérios receberam respostas elegantes e lógicas. Hoje temos boas teorias científicas para questões polêmicas como a origem do universo, as forças que regem o movimento, a origem das espécies, o funcionamento fisiológico de nossos corpos etc. Esse tipo de conquista acabou gerando uma sociedade, principalmente no ocidente, mais materialista. Não confunda com aquele materialismo pejorativo no qual a pessoa valoriza mais os objetos do que as outras pessoas, o materialismo que falo aqui é o filosófico, no qual se compreende que tudo que existe é formado por matéria ou reduzível a processos de natureza material. Com essa visão mais materialista do mundo, um problema fica em aberto dentro do imaginário social: O que acontece depois da morte?

Ainda há, é claro, as explicações religiosas. Porém, a partir do momento que a ciência é a moeda de troca do conhecimento em nossa época e as instituições religiosas vão se relativizando e se adaptando a novos paradigmas, as nossas crenças subjetivas e espirituais garantem cada vez menos conforto. Nesse contexto, vai ser no espaço da morte que residirá nossas grandes dúvidas e, consequentemente, nossos grandes medos.



Esse espaço não poderia ser preenchido se não pela arte, inclusive, o heavy metal. O heavy Metal, no geral, se comunica através do choque, do conflito. Mesmo uma banda mais reflexiva vai usar elementos de conflito para atrair a atenção de seus ouvintes. Relacionar o tema da morte nas músicas vai se mostrar como um ótimo atrativo para a mensagem que a banda quer passar. A forma como a morte é apropriada pelo heavy metal varia e se confunde com as formas que a morte é apropriada na nossa vida e em nossa cultura.

Na antiguidade a morte era tratada mitologicamente de forma muito mais tranquila do que hoje. Na mitologia grega a morte do herói era também o ápice de sua vida. Era em seu momento de morte que ele alcançava o seu limite. Isso acabava tornando a morte também como uma ferramenta de autoconhecimento, pois e só na morte que o personagem cumpria (e conhecia) todo o seu potencial. Em algumas culturas a morte heroica é vista como uma forma de salvação. Na mitologia nórdica, por exemplo, o dia da sua morte já é predeterminado, porém, caso o viking morresse em batalha, ele iria para Valhalla, terra onde Odin reunia seu exército para a guerra do fim do mundo (ragnarok), lá seria um lugar onde os guerreiros passariam a vida lutando e bebendo esperando alegremente a última batalha. Já os que morressem de morte natural ou acidental (menos em naufrágios) iriam para o Hel que era uma terra melancólica onde os espíritos vagavam por toda a eternidade. Outra cultura que valoriza a morte heroica é o islã, onde, caso o fiel entregue a sua vida a Alá, ele garante o seu lugar no paraíso.

A morte heroica é uma das mais presentes no metal, principalmente nos estilos da família do power metal. Não tem forma melhor de dizer que a história foi dramática e que o sacrifício do protagonista foi enorme do que matando ele no fim, ou pelo menos deixando claro que a morte é o risco. A "Keeper of the Seven Keys" do Helloween é emblemática nesse sentido. Ela segue um ritmo de certa forma contínuo e rápido, até que chega no trecho em que Michael Kiske canta (grita):“Throw the key or you may die!” e o solo que segue é a parte mais melancólica da música. É importante dar ênfase que a jornada do guardião é mortal, é isso que faz grandes clássicos de músicas como essa.



Mesmo no início do cristianismo a morte era tratada apenas como uma passagem. A ideia de céu e inferno e da infinita misericórdia divina davam um aspecto natural ao falecimento. Porém, com a peste negra, a relação da morte com o desconhecido se intensificou. Um período onde um terço dos europeus morreu devido há uma doença desconhecida causou uma profunda ferida no inconsciente coletivo cristão. Desde então o medo da morte se intensificou na cultura ocidental. Com o renascimento e, posteriormente, com o desencantamento do mundo, esse medo teve o acréscimo da incerteza. Não mais vemos o paraíso como um lugar físico. Já viajamos pelo céu e sabemos que ele não está lá. Mesmo a religião cristã se mantendo forte até hoje, as vertentes protestantes tiraram o aspecto “mágico” que a religião tinha até então, fazendo com que as indulgências e a prática ritual não fossem mais garantias de salvação. Dentro da visão calvinista, por exemplo, não cabia ao indivíduo a sua própria salvação, mas sim a Deus. Nessa visão, Deus já havia escolhido, no momento da criação, as almas a serem salvas. A única “dica” que as pessoas teriam sobre o seu próprio salvamento seria a sua conduta, o fiel deveria viver como que se estivesse de passagem no mundo material, abnegando os prazeres e vivendo apenas para glorificar a Deus. Essa relação conflituosa com a morte e com a vida após a morte cria essa sensação terrível de incerteza.



Esse medo da morte é muito bem explorado no heavy metal. Como o estilo começou contando histórias ocultistas e de terror, a morte nesse sentido está presente em diversas vertentes do estilo. Uma música que explora muito bem o sentimento da peste negra é a "Plague and Fyre" da banda Hell. Uma música mais famosa que representa esse medo da morte é a "Raining Blood" do Slayer que fala de um juízo final duro e terrível. A força da música está na representação da espera tortuosa pelo juízo final no purgatório, uma clara ironia a benevolência das crenças cristãs.

O heavy metal tem uma estética muito ligada à força e ao poder. Em relação à morte não poderia ser diferente. As bandas mais pesadas normalmente tratam a morte como algo superável, ou controlável. Acho que não há melhor exemplo do que a "Stronger than Death" do Black Label Society que é uma análise bem peculiar da morte, tratando-a de uma forma bem fria e realista. Há também a apropriação do inferno como símbolo de força, como na "Welcome to Hell" do Venom. A simbologia da morte está também muito presente, como na adoção da personificação da morte como mascote pelo Children of Bodom ou o próprio morto-vivo Eddie, mascote do Iron Maiden.



A simbologia da morte é muito rica nas artes. A morte é a prova que estamos vivos e a vida é a prova que vamos morrer. O Mito grego de Sísifo é muito interessante para pensarmos simbolicamente a relação entre a morte e a vida. Sísifo era um cara muito esperto que conseguia tudo na lábia, era tão bom que acabou enganando até os deuses. Sísifo contou a Asopo, deus dos rios, que Zeus havia sequestrado sua filha Egina. Zeus ficou furioso e mandou Tanatos, deus da morte, perseguir Sísifo. Porém Sísifo prendeu Tanatos impedindo que as pessoas pudessem morrer. Ares então interviu e libertou Tanátos. Sísifo viu que não tinha como escapar e então pediu a sua esposa que não executasse os rituais funerários. Chegando ao mundo dos mortos, Sísifo se queixou a Hades da falta de consideração de sua esposa por não ter efetuado os rituais e solicitou permissão para que voltasse ao mundo dos vivos apenas para castiga-la. Hades aceitou e Sísifo não voltou ao mundo dos mortos até que morreu de velhice. Quando voltou Hades o condenou a empurrar uma pedra até o cume de um monte, caindo a pedra invariavelmente da montanha sempre que o topo era atingido. Esse processo foi repetido até a eternidade.



O mito de Sísifo é sujeito a diversas interpretações. A que eu mais gosto é que Sísifo viveu a sua vida toda com medo da morte e isso fez com que vivesse apenas lutando para evitar o fim. O seu maior anseio era viver eternamente, porém esse foi o seu próprio castigo. A ideia de carregar a pedra até o topo do morro pela eternidade pode ser encarada como uma metáfora para a vida. A vida é um constante carregar a pedra acima do morro, porém nunca conseguimos chegar até lá, o ideal seria que o nosso processo de carregar a pedra seja suficiente em si mesmo. Se esperarmos que a nossa vida só valha a pena quando a pedra estiver parada no topo, então nunca nos realizaremos, pois a morte chegará antes. Sísifo é um elogio a vida sem sentido. Ele é um dos poucos personagens da mitologia grega sem um objetivo definido, o seu único objetivo era viver, e ele acabou, ironicamente, conseguindo. Devemos sempre encarar a morte, pois é essa limitação que nos move, se tivéssemos certeza que viveríamos para sempre, jamais teríamos coragem de carregar as nossas pedras.


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Raio X: Yesterday Don't Mean Shit - Porque amanhã é o dia que temos que encarar



Não há nada especial nisso
Isso existe quer você nasça ou não
Pessoas dotadas com talento não são grande coisa
Bem-vindo à morte de um século.

Porque o ontem não significa nada
O que aconteceu, aconteceu e não há nada no meio
Ontem não significa nada
Porque o amanhã é o dia que você tem que encarar
Não há como voltar ao passado
Ontem não significa nada
Ontem não significa nada

Reviver velhas avaliações
É uma ferramenta inútil de confusão
Não prenda sua respiração para se virar
Entre no mundo de possibilidades infinitas

Porque o ontem não significa nada
O que aconteceu, aconteceu e não há nada no meio
Ontem não significa nada
Porque o amanhã é o dia que você tem que encarar
Não há como voltar ao passado
Ontem não significa nada
Ontem não significa nada

Eles irão te falar sobre culpa
E na hora certa você enfrentará a escuridão
Mas a escuridão é uma amiga para você
Abrace e voe através da loucura
Voando passados Deus, guerras e conflitos
O opressor em você
Arando pelas mentes e paranoia
O opressor em você
O opressor está em você

Porque o ontem não significa nada
O que aconteceu, aconteceu e não há nada no meio
Ontem não significa nada
Porque o amanhã é o dia que você tem que encarar
Não há como voltar ao passado
Ontem não significa nada
Ontem não significa nada

Ontem não significa porra nenhuma

Para te proteger e eu guardarei pra mim mesmo
É assim que tem que ser!



O Raio X de hoje é de uma música que vai mais direta ao ponto do que de costume. Como uma boa música de thrash metal, a melhor forma de passar uma ideia é mostrar claramente o que você pensa sobre o assunto, sem muitos rodeios. A significação do passado é o alvo da “Yesterday Don’t Mean Shit” do Pantera.

A tese da música é clara: O passado não importa, o que realmente importa é como você vive o “hoje”. Não acho que a intenção seja o esquecimento completo do passado, mas sim a sua superação. A impressão que a música passa é que o passado não deve ser um peso na hora de lidar com o presente, quando erramos temos que ser fortes o suficiente para não deixar esses erros influenciarem negativamente nossas decisões.

Acho que o auge da música é o trecho: “Ontem não significa nada porque o amanhã é o dia que você tem que encarar”. A ideia, apesar de simples, carrega um conselho muito difícil de ser seguido. Muitas vezes agimos de forma errada, ou, pelo menos, contra nossa vontade, para concertar equívocos do passado. Deixamos de ser e fazer o que queremos pelo que éramos e acreditávamos anteriormente. Algumas vezes é difícil aceitar as mudanças, é difícil perceber que as nossas antigas convicções não mais fazem sentido e que não nos tornamos quem nós projetamos.

Tente se lembrar de como você era há 10 anos, você se reconheceria hoje? Esse seu “eu” do passado se orgulharia do que você se tornou? Ele concordaria com suas crenças atuais, com suas visões de mundo, com sua rotina e com todo o resto que faz você querer sair da cama e enfrentar um novo dia? Acredito que a mensagem da música é que isso não importa mais, porque nós mudamos e isso é bom.



Quem leu o livro 1984 de George Orwell (se ainda não leu, você não sabe o que está perdendo!) deve se lembrar da visão do personagem O’Brien da realidade (que resumia a visão do partido único opressor): A realidade só existe no espírito e em nenhuma outra parte. O personagem questiona Winston, protagonista do livro, se o passado existe em algum lugar, se ele está acontecendo paralelamente ao presente. A conclusão de Winston é que o passado existe apenas nos registros e na memória das pessoas. Porém, a partir disso, O’Brien mostra que o passado não é algo fixo, considerando que o partido controla os registros e que a mente individual é falha.

Essa referência ajuda a reforçar a relativização que a “Yesterday don’t Mean Shit” faz do passado. O passado não é uma “coisa”, ele não é algo que existe fora da gente. Se um vírus surgisse e acabasse com a vida na terra, nada do que aconteceu antes teria a menor importância para o resto do universo (a não ser que outros seres inteligentes resolvessem estudar nossa história). O que a gente faz e as coisas que acontecem desaparecem no exato instante seguinte, a não ser que fique registrado na memória de alguém, ou em alguma outra forma de registro. Filosoficamente falando, os nossos fantasmas do passado só nos assombram porque nós permitimos, o que passou não tem existência necessária, essas coisas só influenciam o presente se alguém não for capaz de esquecê-las.



Claro que esse tipo de visão é muito polarizada. Não é porque o passado pode ser esquecido que ele deva ser esquecido. O passado pode ter uma função parecida do mito, no sentido de nos dar exemplos, de nos fazer refletir sobre o presente. Quando o mito diz que Eva e Adão comeram do fruto proibido e que, graças a isso, Jeová expulsou o casal primordial do Jardim do Éden, a importância não é explicar literalmente o passado, mas ajudar a entender o presente. Essa história não teria valor nenhum se não fosse pela sua simbologia, ela ajuda a entender o pecado, a relação entre o homem e a mulher, a questão do conhecimento, do prazer e de várias coisas a partir da visão bíblica.

No mundo menos espiritual que vivemos hoje em dia, muitas vezes os mitos místicos não conseguem mais nos servir como guia para avaliar o presente e a história materialista acaba cumprindo essa função. Experimente tentar ver um personagem icônico como Hitler de uma forma menos polarizada e veja a reação das pessoas. Muitas delas não irão aceitar com facilidade. Um personagem demonizado como Hitler é importante para reforçar certos valores atuais, o valor de ainda sabermos quem ele era e o que ele fez não é apenas o mero registro. O que importa é que ele acabou se tornando, no imaginário coletivo, uma personificação dos erros da civilização no século XX. A trajetória dele e do nazismo mostrou para onde o racionalismo impessoal e a supervalorização do progresso técnico-científico pode nos levar se não houver uma maior reflexão crítica desses processos.



É claro que isso é só a minha visão e que a música em si valoriza muito mais o hoje do que eu, particularmente. Na tradução dessa letra no Whiplash, o tradutor diz que essa música foi uma resposta aos críticos que insistiam em lembrar do início glam metal da banda. Caso isso seja verdade, a mensagem é clara: você deve avaliar a qualidade de algo baseado apenas nele, não deve deixar os preconceitos ofuscar a verdadeira essência do presente. Não é porque o Sol nasce todos os dias no horizonte que ele vai continuar nascendo para sempre, e nada impede que a aurora de amanhã seja a mais bela de todas.


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Raio X: These Days - Não restou ninguém a não ser nós




Eu andava por aí, apenas mais um na multidão
Tentando me proteger da chuva
Quando vi um rei mendigo, com sua coroa de isopor
E imaginei se um dia terminaria assim também.

Há um homem na esquina cantando velhas canções sobre mudanças
Todos têm sua cruz para carregar nos dias de hoje.
Ela veio procurando por abrigo, com sua mala cheia de sonhos
Veio para um quarto de motel na avenida
Acho que ela estava tentando ser James Dean
Ela conheceu todos os discípulos, e todos os imitadores
Ninguém quer ser si mesmo nos dias de hoje.
E, ainda assim, não há nada em que se agarrar hoje em dia.

Hoje em dia, as estrelas parecem fora de alcance
Hoje em dia, não há uma escada sequer nas ruas
Os dias de hoje passam rápido, e nada dura nesta época perdida
Não restou ninguém a não ser nós, nos dias de hoje.

Jimmy Shoes quebrou suas duas pernas tentando aprender a voar
De uma janela do segundo andar ele simplesmente saltou, de olhos fechados
Sua mãe o chamou de louco, e ele disse “Mãe, eu tenho que tentar”
“Você não sabe que todos os meus heróis morreram?
E acho que eu preferiria morrer a ser esquecido.”

Hoje em dia, as estrelas não estão fora de alcance
Mas, hoje em dia, não há uma escada sequer nas ruas
Os dias de hoje passam rápido, e nada dura nesta época perdida
Até mesmo a inocência se foi no trem da meia-noite    
E não restou ninguém a não ser nós, nos dias de hoje.

Eu sei que Roma ainda arde em chamas
Mesmo que os tempos tenham mudado
Este mundo continua girando, e girando, e girando
Nos dias de hoje.

Hoje em dia, as estrelas não estão fora de alcance
Mas, hoje em dia, não há uma escada sequer nas ruas
Os dias de hoje passam rápido, o amor não perdura nesta época perdida
Até mesmo a inocência se foi no trem da meia-noite

Hoje em dia, as estrelas não estão fora de alcance
Mas, hoje em dia, não há uma escada sequer nas ruas
Os dias de hoje passam rápido, nada dura, não há tempo a perder
E não sobrou ninguém para levar a culpa
E não restou ninguém a não ser nós, nos dias de hoje.



Hoje temos um Raio X especial e diferente. Especial porque é o primeiro texto do blog que não foi escrito por mim (Vinícius), mas pelo meu grande amigo Daniel Santa Cruz. Também é um texto diferente porque trata de uma banda que não tem muita ligação com o metal, apesar de ter muita ligação com bandas de Hard Rock americano dos anos 80. Acredito que muitos que acompanham o blog não o acompanham apenas por que trata de heavy metal, mas porque gostam de textos que fazem refletir, e Bon Jovi é cheio de músicas inteligentes. Eu sou muito fã da banda e gostei muito do texto, espero que vocês também gostem, fiquem com a análise tensa e sóbria de Daniel.

O ano era 1995. Depois de uma época considerada por muitos a “década perdida” (os anos 1980), o mundo experimentava os primeiros anos de uma geopolítica estadunidense oficialmente hegemônica, após quatro décadas de Guerra Fria. Alguns anos após a queda do Muro de Berlim, parecia haver um vazio de objetivos a atingir.

E esse contexto parece ter inspirado These Days, o disco mais soturno do Bon Jovi. A banda sempre teve em suas canções um forte componente sentimental até Keep The Faith, que em 1992 marcou uma transição para letras mais políticas, culminando no álbum significativamente negativista que o sucedeu em 95.

These Days, faixa-título do álbum, expressa muito bem essa mudança da temática de sexo, drogas e rock and roll, característica do hard rock dos anos 70 e 80, para uma visão mais crítica da sociedade.

Não há nem muito que analisar, é tudo quase literal. As pessoas, nos dias de hoje, ainda buscam seus heróis mortos de outrora, sem nada que possa sustentar seus sonhos. O homem tem as estrelas a seu alcance, mas não consegue tocá-las, pois só quem restou fomos nós, pessoas comuns. E mesmo a inocência, enfim, pegou o último trem e foi-se embora.

Não temos personalidade própria, e nossos ideais ainda são resquícios do passado.



Pesado, não? Pois é. Essa letra me atrai pelo fato de – além de ser uma mudança radical na banda que anos antes gravara “I’ll Be There for You”, clássico dos corações partidos – ser extremamente atual.

Quem são nossos grandes ídolos hoje? Olhando para a música, os únicos que poderiam ostentar tal título ou estão mortos, ou estão bem velhos. Quais são os grandes ideais, numa época de mentes que se tornam mais volúveis e superficiais à medida que ficam mais tolerantes?

Gilles Lipovetsky* e Zygmunt Bauman** são dois caras muito interessantes que exploram essa característica acelerada, contraditória e insegura do mundo atual, ou hipermoderno – como diria Lipovetsky.

Segundo eles, as relações humanas hoje são pautadas pela superficialidade, pois são fundamentadas na rapidez e na volatilidade do mundo atual. As ideologias e convicções deram lugar a fragmentos de pensamento, trocados e modificados a cada instante como peças de roupa. Estamos conectados a cada vez mais pessoas, mas nossos laços são cada vez mais frágeis, convenientes e instáveis. E, segundo Bauman, o consumo acaba por preencher o espaço vazio antes ocupado por relações interpessoais mais profundas.

É, sem dúvida, uma análise pessimista da vida. E, em muitos pontos, concordo com ela.



Mesmo assim, acho que a ausência de certezas e a mudança de paradigmas que vivemos hoje podem ser benéficas. Não é à toa que os últimos regimes autoritários estão ruindo – interesses geopolíticos e econômicos à parte. As pessoas lentamente passam a aceitar as diferenças, e isso é bom, mesmo que signifique às vezes a perda de uma posição firme.

Mesmo sendo pessimista na maioria das vezes, insisto em crer que a humanidade tem salvação. E acredito que a salvação esteja na consciência de que estamos todos fodidos, nesta barca furada que chamamos de Terra, esta geoide maltratada que continua girando mesmo com todo o prejuízo que causamos a ela.

Lentamente, começamos a nos preocupar com o meio ambiente, com a miséria e com a escravidão moderna – ainda que para aplacar nossas consciências pesadas.

A passos de formiga, vamos aprendendo que somos todos seres humanos, e que nossa sobrevivência neste “milagre probabilístico” (gostaria de ter pensado nessa definição brilhante antes de meu grande amigo Vinícius) depende de uma mudança que deve começar agora, ainda que já seja meio tarde.

E você, concorda comigo?



*Gilles Lipovetsky é um filósofo francês. Recomendo: “Os Tempos Hipermodernos”.
** Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês. Recomendo: “Modernidade Líquida”.
 

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Universo Headbanger: A livre e excitante vida sobre duas rodas.


Atenção: Esse post é melhor apreciado ao som de Saxon e Deep Purple.

Um tema sempre tratado em músicas de heavy metal é a Liberdade. Não apenas como um tema abstrato, mas contemplado em suas mais diversas formas. Mesmo quando uma banda não é muito inspirada politicamente, pode ter certeza que em alguma música a liberdade vai ser exaltada, mesmo que seja a liberdade de não ser inspirado politicamente. Esse sentimento de liberdade propagado pelas músicas de metal, além da sua alma contestadora, não poderia deixar de dialogar com o mundo de duas rodas.

Ser motociclista e fazer parte de um clube de motos é mais do que gostar de andar de moto, envolve todo o estilo de vida: A forma de se vestir, o jeito de falar e, principalmente, o jeito de ver o mundo. Apesar de grandes defensores da liberdade, internamente esses grupos têm suas próprias regras, uma estrutura organizacional algumas vezes rígida e um grande comprometimento com a sobrevivência do grupo. Dentro destes clubes há uma complexa relação de símbolos e rituais que asseguram a ligação do membro com seus “irmãos”.



A origem dos clubes de motociclistas como conhecemos tem muito a ver com o sentimento do pós-guerra no fim dos anos 40. Devido às experiências vividas em batalha, alguns veteranos não conseguiam aceitar levar uma vida pacata dentro dos moldes convencionais. A guerra mexe com a cabeça das pessoas e é difícil viver uma vida padrão após sucessivas experiências com altas taxas de adrenalina. A guerra do Vietnã foi também uma grande catalizadora deste tipo de indivíduo, pois, além de ter sido uma guerra longa e difícil, os veteranos eram hostilizados pelos crimes de guerra cometidos pelos militares como um todo. Somado a isso, muitos dos veteranos de guerra tiveram contato com motocicleta durante os treinamentos e ações de guerra. Além disso, o sentimento de lutar lado a lado com seus companheiros de batalha, arriscar a vida por eles e vê-los morrer para defender o grupo ajudou a criar em alguns veteranos essa cultura da "irmandade".

A imagem dos motociclistas na sociedade é muito controversa e as opiniões são muito polarizadas. Enquanto alguns os veem como bárbaros sobre rodas, vivendo à margem da sociedade e gerando insegurança, para outros eles são verdadeiramente livres e levam a vida fora da lógica repressora de nosso mundo. Enquanto a mídia os trata como gangues, eles preferem se ver como um clube. Nada muito diferente do que acontece com os headbangers, principalmente os fãs de estilos mais agressivos.

O termo inglês para designar os motoclubes tradicionais é “Outlaw Motorcycle Club” ou então os “1%” esses nomes vieram de uma confusão em uma cidade americana chamada Hollister em um evento organizado pela “American Motorcyclist Association” (AMA) que disse em um pronunciamento que os envolvidos representavam apenas 1% dos motociclistas presentes no evento. Alguns clubes então romperam com a AMA e se autoproclamaram os “1%” ou os “foras-da-lei”. Aqui no Brasil quando nos referimos aos clubes desse tipo apenas usamos o termo “tradicional”.



Não dá pra categorizar logo de cara todos os clubes de motociclistas como foras-da-lei ligados a arruaceiros e sem nenhuma relevância para a sociedade. A ideia dos clubes de motocicleta segue a lógica de “irmandade” Como diria “Maz” Harris do Hell’s Angels em sua autobiografia: “os motociclistas também são uma raça de homens que não se enquadram” citando um poema de Robert Service. Os clubes de motocicleta enxergam de forma diferente quem está dentro dele (insiders) e quem está fora (outsiders). Um clube pode até mostrar como funciona a dinâmica do grupo e algum de seus símbolos para um outsider, mas só um insider realmente tem acesso a todas as informações.

Nos EUA os Outlaw Motorcycle Club se dividem por regiões, diferentemente do Brasil, lá você não pode simplesmente criar um clube, pois, provavelmente, já existe algum clube dominando sua área. Dentro destes clubes (mesmo aqui no Brasil) há uma hierarquia e demora um pouco até que o iniciante seja realmente aceito. Estes clubes se identificam através de brasões e cores e, em geral, se respeitam mutualmente. A organização interna varia de grupo para grupo e não é muito divulgada. Os grandes clubes têm sedes em diversos lugares do mundo, têm marca registrada e até fazem ações de caridade.



As semelhanças com o mundo do heavy metal são marcantes. A própria forma de se vestir, a noção de moral mais individualizada e, principalmente, a não conformidade em relação ao senso comum são pontos de encontro que ligam fortemente os dois universos. É comum ver integrantes de bandas entrarem de moto no palco, como os caras do Manowar ou o Rob Halford do Judas Priest. Mesmo nas capas de CDs e nas letras das músicas, frequentemente há referencia ao mundo dos motociclistas como na Motorcycle man do Saxon: “Eu posso derrotar sua máquina de rua. Nós estamos assumindo riscos é isso que estamos dizendo, porque sou o homem de motocicleta”.

Mesmo eu não sendo um grande entusiasta do veículo motocicleta, acho que a cultura envolvida é muito interessante e acrescenta de forma positiva o heavy metal. Diferentemente do que acontece em um carro, ou em um avião, na imagem de alguém dirigindo uma moto há quase que uma simbiose entre o homem e a máquina. Quando alguém dirige uma moto a pessoa ainda está, de certa forma, fora dela. Viajar de moto produz uma sensação de unidade com o ambiente, você não está isolado dentro de uma máquina, você está em cima dela. A ideia de juntar os amigos e viajar sem saber por quanto tempo é tentador de mais para não virar tema de boas músicas.



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Raio X: Angel of Death - Descrevendo o nazismo pelo seu lado mais perverso




Atenção: Esta música contém descrições detalhadas de processos de tortura.

Auschwitz, a verdadeira dor
O jeito que eu quero que você morra
Morte lenta, decadência imensa
Chuveiros que lhe purificam a vida

Forçados
Como gado vocês correm
Despojado do valor de sua vida
Rato humano, para o anjo da morte
Mais de quatrocentos mil para morrer

Anjo da morte
Monarca do reino dos mortos

Sádico, cirurgião da morte
Sadista do mais nobre sangue
Destruindo, sem piedade
Para beneficiar a raça ariana

Cirurgia, sem anestesia
Sinta a faca te perfurando intensamente
Inferior, sem utilidade para humanidade
Amarrado, gritando loucamente para morrer

Anjo da morte
Monarca do reino dos mortos
Açougueiro infame
Anjo da morte

Bombeado com fluido, dentro do cérebro
A pressão no seu crânio começa a
Empurrar os seus olhos
Carne queimando, pingando
Testes mentais queimam sua pele
Sua mente começa a ferver

Frio frígido quebra os seus membros
Quanto tempo você consegue aguentar
Neste funeral de água congelada?
Costurados juntos, juntando cabeças
Apenas uma questão de tempo
Até vocês serem esquartejados

Milhões jazem nas suas
Tumbas lotadas
Jeitos perversos de alcançar
O Holocausto

Mares de sangue, vida enterrada.
Sinta o cheiro de sua morte enquanto você queima
Lá no fundo, dentro de você
Abacinar, olhos que sangram
Rezando para o fim       
Do seu bem desperto pesadelo

Asas de dor buscam você
Sua face de morte te encarando
Seu sangue correndo frio
Injetando células, olhos mortais
Se alimentando dos gritos dos
Mutantes que ele está criando

Vítimas patéticas e inofensivas
Deixadas para morrer
Desprezível anjo da morte
Voando livre

Anjo da morte
Monarca do reino dos mortos
Açougueiro infame
Anjo da morte



"Angel of Death" do Slayer é uma das músicas mais controversas do heavy metal. Acredito que quem ouve esta música e a encara como apologia ao nazismo, parou de ler nos primeiros versos. Mas, mesmo assim, essa foi uma interpretação muito comum na data de seu lançamento, isso ainda é agravado pelo interesse que Jeff Hanneman (compositor da música) tem por medalhas nazistas.

O “Anjo da Morte” tratado na música é um médico nazista chamado Josef Mengele que ministrava experiências com os prisioneiros de Auschwitz. A música foca no sofrimento de suas experiências e traz um sentimento de angústia por toda a letra. A forma como Hanneman descreve as torturas é desesperadora, trata de coisas que nem passam por nossas cabeças quando pensamos em tortura. Quando ele diz “costurados Juntos” (Sewn Together), talvez ele esteja se referindo a experiência realizado com gêmeos, que tinham suas veias interligadas, algo que só um nazista fanático, e um grande filho da puta, pensaria.

Uma das principais críticas à música é que ela não deixa claro que os nazistas são maus, eu discordo totalmente. Quem lê essas palavras e não fica imediatamente revoltado, deve ter algum tipo de sadismo perverso. Na própria música ele fala que o tal do Mengele era um cara desprezível, infame e perverso. A resposta de Hanneman, quando perguntado dessa omissão é bem clara: “Nada do que eu pus na letra diz necessariamente que ele era um cara mau, porque para mim, bem, não é óbvio? Eu não deveria ter que te dizer isso”.



O que talvez incomode um pouco quem não gosta da música é o seu clima de documentário, a música é muito mais descritiva do que argumentativa. Talvez um nazista sádico consiga gostar do que está escrito e se identificar com o tal anjo da morte, mas no contesto de uma banda americana com integrantes de diversas etnias, é muita ingenuidade rotular Angel of Death como apologia ao nazismo.

Há quem acredite que, apesar de não fazer apologia, a música banaliza o sofrimento causado pelas atrocidades dos campos de concentração e defende que o tema não deva ser tratado de determinadas formas. Eu acho isso um terrível engano, quanto mais ouvirmos falar sobre o Holocausto, mais tentaremos evitar que ele se repita. Hoje há algumas pessoas - como Ahmadinejad, presidente do Irã. – que acreditam que o Holocausto não aconteceu. Muitas pessoas não sabem da sua gravidade e uma música como Angel of Death mostra que é algo que não pode se repetir.



Na minha opinião, o que os nazistas fizeram com seus prisioneiros - tanto judeus, como ciganos, russos e poloneses - em Auschwitz, é a demonstração que não podemos vacilar em relação aos direitos humanos. Se olharmos para Alemanha do século XIX, vemos um país com grandes filósofos e artistas, uma grande oposição ao utilitarismo tão em voga na época, grandes pensadores, que valorizavam a força dos indivíduos em relação ao todo. Esse mesmo país, devido ao turbulento início do século XX, acabou mudando a ponto de se tornar irreconhecível na mão dos nazistas, e o que no começo era, para o povo, um projeto de construção de uma grande nação, acabou se transformando em um estado totalmente despótico.

Quando passamos por determinadas crises, muitas vezes é mais fácil apontar um inimigo, qualquer que seja, ao invés de tratar o problema da forma correta. As pessoas são manipuláveis e o ódio une muito mais que respeito. É preciso sempre respeitar os indivíduos e seus direitos inalienáveis não importa quem seja. Qualquer tipo de violação de direito pode sempre se voltar contra você. Ter consciência dos erros do passado é muito mais frutífero do que fingir que nunca aconteceu. Uma música como Angel of Death é claramente uma denuncia do que o ser humano é capaz, e é extremamente importante que saibamos disso.