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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Raio X: These Days - Não restou ninguém a não ser nós




Eu andava por aí, apenas mais um na multidão
Tentando me proteger da chuva
Quando vi um rei mendigo, com sua coroa de isopor
E imaginei se um dia terminaria assim também.

Há um homem na esquina cantando velhas canções sobre mudanças
Todos têm sua cruz para carregar nos dias de hoje.
Ela veio procurando por abrigo, com sua mala cheia de sonhos
Veio para um quarto de motel na avenida
Acho que ela estava tentando ser James Dean
Ela conheceu todos os discípulos, e todos os imitadores
Ninguém quer ser si mesmo nos dias de hoje.
E, ainda assim, não há nada em que se agarrar hoje em dia.

Hoje em dia, as estrelas parecem fora de alcance
Hoje em dia, não há uma escada sequer nas ruas
Os dias de hoje passam rápido, e nada dura nesta época perdida
Não restou ninguém a não ser nós, nos dias de hoje.

Jimmy Shoes quebrou suas duas pernas tentando aprender a voar
De uma janela do segundo andar ele simplesmente saltou, de olhos fechados
Sua mãe o chamou de louco, e ele disse “Mãe, eu tenho que tentar”
“Você não sabe que todos os meus heróis morreram?
E acho que eu preferiria morrer a ser esquecido.”

Hoje em dia, as estrelas não estão fora de alcance
Mas, hoje em dia, não há uma escada sequer nas ruas
Os dias de hoje passam rápido, e nada dura nesta época perdida
Até mesmo a inocência se foi no trem da meia-noite    
E não restou ninguém a não ser nós, nos dias de hoje.

Eu sei que Roma ainda arde em chamas
Mesmo que os tempos tenham mudado
Este mundo continua girando, e girando, e girando
Nos dias de hoje.

Hoje em dia, as estrelas não estão fora de alcance
Mas, hoje em dia, não há uma escada sequer nas ruas
Os dias de hoje passam rápido, o amor não perdura nesta época perdida
Até mesmo a inocência se foi no trem da meia-noite

Hoje em dia, as estrelas não estão fora de alcance
Mas, hoje em dia, não há uma escada sequer nas ruas
Os dias de hoje passam rápido, nada dura, não há tempo a perder
E não sobrou ninguém para levar a culpa
E não restou ninguém a não ser nós, nos dias de hoje.



Hoje temos um Raio X especial e diferente. Especial porque é o primeiro texto do blog que não foi escrito por mim (Vinícius), mas pelo meu grande amigo Daniel Santa Cruz. Também é um texto diferente porque trata de uma banda que não tem muita ligação com o metal, apesar de ter muita ligação com bandas de Hard Rock americano dos anos 80. Acredito que muitos que acompanham o blog não o acompanham apenas por que trata de heavy metal, mas porque gostam de textos que fazem refletir, e Bon Jovi é cheio de músicas inteligentes. Eu sou muito fã da banda e gostei muito do texto, espero que vocês também gostem, fiquem com a análise tensa e sóbria de Daniel.

O ano era 1995. Depois de uma época considerada por muitos a “década perdida” (os anos 1980), o mundo experimentava os primeiros anos de uma geopolítica estadunidense oficialmente hegemônica, após quatro décadas de Guerra Fria. Alguns anos após a queda do Muro de Berlim, parecia haver um vazio de objetivos a atingir.

E esse contexto parece ter inspirado These Days, o disco mais soturno do Bon Jovi. A banda sempre teve em suas canções um forte componente sentimental até Keep The Faith, que em 1992 marcou uma transição para letras mais políticas, culminando no álbum significativamente negativista que o sucedeu em 95.

These Days, faixa-título do álbum, expressa muito bem essa mudança da temática de sexo, drogas e rock and roll, característica do hard rock dos anos 70 e 80, para uma visão mais crítica da sociedade.

Não há nem muito que analisar, é tudo quase literal. As pessoas, nos dias de hoje, ainda buscam seus heróis mortos de outrora, sem nada que possa sustentar seus sonhos. O homem tem as estrelas a seu alcance, mas não consegue tocá-las, pois só quem restou fomos nós, pessoas comuns. E mesmo a inocência, enfim, pegou o último trem e foi-se embora.

Não temos personalidade própria, e nossos ideais ainda são resquícios do passado.



Pesado, não? Pois é. Essa letra me atrai pelo fato de – além de ser uma mudança radical na banda que anos antes gravara “I’ll Be There for You”, clássico dos corações partidos – ser extremamente atual.

Quem são nossos grandes ídolos hoje? Olhando para a música, os únicos que poderiam ostentar tal título ou estão mortos, ou estão bem velhos. Quais são os grandes ideais, numa época de mentes que se tornam mais volúveis e superficiais à medida que ficam mais tolerantes?

Gilles Lipovetsky* e Zygmunt Bauman** são dois caras muito interessantes que exploram essa característica acelerada, contraditória e insegura do mundo atual, ou hipermoderno – como diria Lipovetsky.

Segundo eles, as relações humanas hoje são pautadas pela superficialidade, pois são fundamentadas na rapidez e na volatilidade do mundo atual. As ideologias e convicções deram lugar a fragmentos de pensamento, trocados e modificados a cada instante como peças de roupa. Estamos conectados a cada vez mais pessoas, mas nossos laços são cada vez mais frágeis, convenientes e instáveis. E, segundo Bauman, o consumo acaba por preencher o espaço vazio antes ocupado por relações interpessoais mais profundas.

É, sem dúvida, uma análise pessimista da vida. E, em muitos pontos, concordo com ela.



Mesmo assim, acho que a ausência de certezas e a mudança de paradigmas que vivemos hoje podem ser benéficas. Não é à toa que os últimos regimes autoritários estão ruindo – interesses geopolíticos e econômicos à parte. As pessoas lentamente passam a aceitar as diferenças, e isso é bom, mesmo que signifique às vezes a perda de uma posição firme.

Mesmo sendo pessimista na maioria das vezes, insisto em crer que a humanidade tem salvação. E acredito que a salvação esteja na consciência de que estamos todos fodidos, nesta barca furada que chamamos de Terra, esta geoide maltratada que continua girando mesmo com todo o prejuízo que causamos a ela.

Lentamente, começamos a nos preocupar com o meio ambiente, com a miséria e com a escravidão moderna – ainda que para aplacar nossas consciências pesadas.

A passos de formiga, vamos aprendendo que somos todos seres humanos, e que nossa sobrevivência neste “milagre probabilístico” (gostaria de ter pensado nessa definição brilhante antes de meu grande amigo Vinícius) depende de uma mudança que deve começar agora, ainda que já seja meio tarde.

E você, concorda comigo?



*Gilles Lipovetsky é um filósofo francês. Recomendo: “Os Tempos Hipermodernos”.
** Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês. Recomendo: “Modernidade Líquida”.
 

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Raio X: Balls to the Walls - "Eles te farão beber o próprio sangue"




Tantos escravos neste mundo
Morrem por tortura e dor
Tantas pessoas não enxergam
Eles estão se mantando, enlouquecendo.

Tantas pessoas não sabem
Escravidão está sobre a raça humana
Eles acreditam que escravos sempre perdem
E este medo os mantém submissos

Cuidado com os condenados – Deus os abençoe
Eles vão quebrar as correntes
Não, você não pode detê-los – Deus os abençoe
Eles estão vindo te pegar!

E você terá suas bolas no muro, cara
Bolas no Muro
Você terá suas bolas no muro, cara
Bolas no Muro, Bolas no muro

Você pode confundir a mente deles
Você pode sacrificá-los também
Você pode deixa-los em carne viva
Você pode estuprar todos eles

Um dia os torturados se levantarão
E se revoltarão contra o mal
Eles te farão beber o próprio sangue
E te farão em pedaços

É melhor tomar cuidado com os condenados – Deus os abençoe
Eles vão quebrar as correntes
Não, você não pode detê-los  - Deus os Abençoe
Eles estão vindo para te pegar!

E você terá suas bolas no muro, cara
Bolas no Muro
Você terá suas bolas no muro, cara
Bolas no Muro, Bolas no muro

Vamos!

Ei cara, vamos nos erguer perante o mundo
Vamos enfiar uma bomba no cu de cada um
Se eles não nos deixarem viver
Nós vamos lutar pelos nossos direitos
Construa um muro com os corpos e você estará a salvo
Deixe o mundo apavorado
Vamos me mostre o sinal da vitória

E você terá suas bolas no muro, cara
Bolas no Muro
Você terá suas bolas no muro, cara
Bolas no Muro, Bolas no muro



Hoje farei um post totalmente contraditório com o raio x da semana passada, falarei da revoltada “Balls to the Walls” do Accept. A letra dessa música é daquelas que, de imediato, não toca no coração e nem faz refletir tanto – ela vai direto às entranhas e, se você se deixar levar, o sentimento de vingança e ódio se apodera imediatamente.

A música faz uma análise seca e amarga da sociedade: somos escravos. Apesar de a palavra ser forte, não chega a me surpreender este tipo de comparação. Levando essa análise para a época em que a música foi composta (1983), é importante lembrar que o muro de Berlim ainda estava de pé. O socialismo já estava em decadência e a geração que nasceu após a segunda guerra mundial já estava na casa dos 40 anos. Os motivos que dividiam a Alemanha em duas já não aparentavam tão legítimos. A diferença econômica entre essas duas Alemanhas já era gritante e clara, o muro de Berlim provavelmente foi a principal inspiração de Balls to the Walls.



Mas, pra mim, essa análise pode extrapolar a Guerra Fria e ainda pode ser aplicada a nossa realidade. Temos o nosso sentimento de liberdade, mas será que somos livres na prática? Já experimentou pensar em algum estilo de vida fora do padrão das “44 horas semanais”? Será que é realmente necessário que todos nós vivamos nossas vidas em função de nossa vida profissional? É difícil pensar em uma alternativa diferente dessas que não envolva diversos sacrifícios. Mas será que vale a pena gastar 26% de toda nossa semana? Atribuindo 1h diária para o transporte 1h para o almoço e 8h de sono, você tem para viver apenas um terço de sua semana, isso se você não faz nenhum tipo de curso.

Existem duas coisas que nos prendem nessa vida “padrão”. A primeira é a moral. Há a concepção de que o trabalho é necessário para a formação do caráter do indivíduo. Há uma ideia muito difundida de que não se pode ser “vagabundo”, e esse estigma é atribuído inclusive às pessoas que estudam e também às que trabalham de formas não convencionais (como free lancers, por exemplo). A segunda coisa é a valorização do consumo. Apesar de ser possível viver tranquilamente em um emprego que nos dê mais autonomia e tempo livre, há uma pressão para que tenhamos o máximo de produtos possíveis para que possamos nos encaixar nos padrões. Ter um carro, roupas de marca, frequentar lugares caros é muito mais importante para a sociedade do que ter tempo para aproveitar essas coisas.



Seja o opressor o capitalismo ou o socialismo, a música defende uma postura radical em favor da liberdade. A história da humanidade é preenchida por várias grandes civilizações em que poucos governavam e muitos obedeciam. Apesar dos avanços a lógica ainda permanece essa. É muito difícil destituir alguém do poder apenas com negociações, quanto mais toda uma classe. Os exemplos de verdadeiras mudanças de poder são sempre coloridos com muito sangue. Muitas vezes não percebemos que aqueles que estão no topo da sociedade morrem de medo do que os que não estão podem fazer. E, de acordo com a Balls to the Walls, eventualmente os “condenados” fazem alguma coisa.

Depois de um período de marasmo, estamos passando por uma época que as pessoas no mundo estão percebendo que algo precisa ser mudado. Os diversos movimentos que estão surgindo no mundo inspirados no “Ocupe Wall-Street” são uma demonstração que, pelo menos parte dos jovens, não vão mais aceitar o governo em favor dos 1% (que não são os motoqueiros do post anterior) e que os governos têm que dar um jeito de resolver a falta de renda que a crise de 2008 gerou. Que proporções esses movimentos vão tomar é difícil dizer, imagino que as coisas na Grécia ainda vão ficar muito feias, e é possível que jovens de países como Portugal e Espanha aprendam com o exemplo. Acho que a União Europeia está assinando seu atestado de óbito com a política de passar as dívidas contraídas para o povo. Enquanto eles não começarem a encontrar formas de produzir mais, a bola de neve das dívidas tende a crescer até que o povo tenha que tomar as rédeas da situação.


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Universo Headbanger: A livre e excitante vida sobre duas rodas.


Atenção: Esse post é melhor apreciado ao som de Saxon e Deep Purple.

Um tema sempre tratado em músicas de heavy metal é a Liberdade. Não apenas como um tema abstrato, mas contemplado em suas mais diversas formas. Mesmo quando uma banda não é muito inspirada politicamente, pode ter certeza que em alguma música a liberdade vai ser exaltada, mesmo que seja a liberdade de não ser inspirado politicamente. Esse sentimento de liberdade propagado pelas músicas de metal, além da sua alma contestadora, não poderia deixar de dialogar com o mundo de duas rodas.

Ser motociclista e fazer parte de um clube de motos é mais do que gostar de andar de moto, envolve todo o estilo de vida: A forma de se vestir, o jeito de falar e, principalmente, o jeito de ver o mundo. Apesar de grandes defensores da liberdade, internamente esses grupos têm suas próprias regras, uma estrutura organizacional algumas vezes rígida e um grande comprometimento com a sobrevivência do grupo. Dentro destes clubes há uma complexa relação de símbolos e rituais que asseguram a ligação do membro com seus “irmãos”.



A origem dos clubes de motociclistas como conhecemos tem muito a ver com o sentimento do pós-guerra no fim dos anos 40. Devido às experiências vividas em batalha, alguns veteranos não conseguiam aceitar levar uma vida pacata dentro dos moldes convencionais. A guerra mexe com a cabeça das pessoas e é difícil viver uma vida padrão após sucessivas experiências com altas taxas de adrenalina. A guerra do Vietnã foi também uma grande catalizadora deste tipo de indivíduo, pois, além de ter sido uma guerra longa e difícil, os veteranos eram hostilizados pelos crimes de guerra cometidos pelos militares como um todo. Somado a isso, muitos dos veteranos de guerra tiveram contato com motocicleta durante os treinamentos e ações de guerra. Além disso, o sentimento de lutar lado a lado com seus companheiros de batalha, arriscar a vida por eles e vê-los morrer para defender o grupo ajudou a criar em alguns veteranos essa cultura da "irmandade".

A imagem dos motociclistas na sociedade é muito controversa e as opiniões são muito polarizadas. Enquanto alguns os veem como bárbaros sobre rodas, vivendo à margem da sociedade e gerando insegurança, para outros eles são verdadeiramente livres e levam a vida fora da lógica repressora de nosso mundo. Enquanto a mídia os trata como gangues, eles preferem se ver como um clube. Nada muito diferente do que acontece com os headbangers, principalmente os fãs de estilos mais agressivos.

O termo inglês para designar os motoclubes tradicionais é “Outlaw Motorcycle Club” ou então os “1%” esses nomes vieram de uma confusão em uma cidade americana chamada Hollister em um evento organizado pela “American Motorcyclist Association” (AMA) que disse em um pronunciamento que os envolvidos representavam apenas 1% dos motociclistas presentes no evento. Alguns clubes então romperam com a AMA e se autoproclamaram os “1%” ou os “foras-da-lei”. Aqui no Brasil quando nos referimos aos clubes desse tipo apenas usamos o termo “tradicional”.



Não dá pra categorizar logo de cara todos os clubes de motociclistas como foras-da-lei ligados a arruaceiros e sem nenhuma relevância para a sociedade. A ideia dos clubes de motocicleta segue a lógica de “irmandade” Como diria “Maz” Harris do Hell’s Angels em sua autobiografia: “os motociclistas também são uma raça de homens que não se enquadram” citando um poema de Robert Service. Os clubes de motocicleta enxergam de forma diferente quem está dentro dele (insiders) e quem está fora (outsiders). Um clube pode até mostrar como funciona a dinâmica do grupo e algum de seus símbolos para um outsider, mas só um insider realmente tem acesso a todas as informações.

Nos EUA os Outlaw Motorcycle Club se dividem por regiões, diferentemente do Brasil, lá você não pode simplesmente criar um clube, pois, provavelmente, já existe algum clube dominando sua área. Dentro destes clubes (mesmo aqui no Brasil) há uma hierarquia e demora um pouco até que o iniciante seja realmente aceito. Estes clubes se identificam através de brasões e cores e, em geral, se respeitam mutualmente. A organização interna varia de grupo para grupo e não é muito divulgada. Os grandes clubes têm sedes em diversos lugares do mundo, têm marca registrada e até fazem ações de caridade.



As semelhanças com o mundo do heavy metal são marcantes. A própria forma de se vestir, a noção de moral mais individualizada e, principalmente, a não conformidade em relação ao senso comum são pontos de encontro que ligam fortemente os dois universos. É comum ver integrantes de bandas entrarem de moto no palco, como os caras do Manowar ou o Rob Halford do Judas Priest. Mesmo nas capas de CDs e nas letras das músicas, frequentemente há referencia ao mundo dos motociclistas como na Motorcycle man do Saxon: “Eu posso derrotar sua máquina de rua. Nós estamos assumindo riscos é isso que estamos dizendo, porque sou o homem de motocicleta”.

Mesmo eu não sendo um grande entusiasta do veículo motocicleta, acho que a cultura envolvida é muito interessante e acrescenta de forma positiva o heavy metal. Diferentemente do que acontece em um carro, ou em um avião, na imagem de alguém dirigindo uma moto há quase que uma simbiose entre o homem e a máquina. Quando alguém dirige uma moto a pessoa ainda está, de certa forma, fora dela. Viajar de moto produz uma sensação de unidade com o ambiente, você não está isolado dentro de uma máquina, você está em cima dela. A ideia de juntar os amigos e viajar sem saber por quanto tempo é tentador de mais para não virar tema de boas músicas.



quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Raio X: Born in a Mourning Hall - "Preso dentro de uma teia chamada vida"




“De fato isso foi quase uma explosão (fallout) real
Tudo está sob controle”
O narrador disse com um sorriso sério
Atrás de sua máscara
Ele sabia a verdade
“Eu trarei uma nova era de melhores caminhos”
O pregador da TV disse
“Apenas pague hoje
Pague hoje”

O mundo está vestido de preto
No dia do julgamento da terra
E eu?
Eu sei que isto não pode continuar
Sinais proibidos aumentam
Eu estou sentado em casa
E observando

Nascido em um aposento de lamentações
Nuvens pálidas temeram
A criança não nascida
Então ela cresceu com planos crescentes
De suicídio
Nascido em um aposento de lamentações
Sombras deixam o medo dentro
Aquele Peter Pan nunca irá alcançar
O outro lado

É aterrorizante
Excitante sentar em casa
E observar os campos em chamas
Ser hipnotizado pela cobra da TV

Obedeça, trabalhe duro
E não sinta raiva
Apenas simpatia pela alta classe
Não há chance de mudar as coisas
Porque eu sou

Nascido em um aposento de lamentações
Gritos silenciosos ocorrem
Quando o berço quebra
Sonhos destruídos não foram ouvidos
No outro lado
Nascido em um aposento de lamentações
Sombras deixam o medo
na criança recém-nascida
Aquele Peter Pan nunca irá alcançar
O outro lado

E eu sou parte da máquina
Um fantoche nas cordas
Um rebelde, outrora
Agora eu sou um homem velho

Eu sei que isto não pode continuar
Mas o fantasma chamado medo interior
Aleija minha língua
Meus nervos, minha mente
Queda eterna
Alguém corta as cordas
Eu não consigo me mexer
Para recuperar a coragem
Eu tenho que encarar a verdade
Mas não hoje
Adeus

Nascido em um aposento de lamentações
Preso dentro de uma teia chamada vida
O único jeito de sair dela logo
É o suicídio
Nascido em um aposento de lamentações
Almas pálidas constroem um mundo gelado
Cérebros infectados
Nunca alcançarão o outro lado
O outro lado



O post de hoje vai falar da ótima “Born in a Mourning Hall” do Blind Guardian! Se você gosta de músicas que não tenham apenas letras, mas sim poemas, Blind Guardian é a banda para você. Eles são mestres na arte da composição, eles elevam a arte de fazer heavy metal a outro patamar. Uma das coisas mais impressionantes é que eles conseguem fazer quase todas as músicas sem rimar e é muito difícil de perceber quando você ouve despreocupadamente. Além disso, a grande maioria das músicas dos caras são interpretações de obras de ficção, de momentos históricos ou de passagens mitológicas. O interessante é que eles não recontam as obras em suas músicas, eles revivem os personagens. Ouvir Blind Guardian cantando sobre um algo que você goste é uma experiência ímpar.

Born in a Mourning Hall foge um pouco da regra, pois o personagem que a banda nos apresenta está falando sobre a realidade atual (de 1996). Assim como em Paradise e Livin’ on a Chain Gang, o eu lírico começa assistindo TV, nesse caso a TV é o que motiva a reflexão sobre o mundo, principalmente pelo que ela não diz. Temos duas críticas já na primeira estrofe, mas elas se interligam. O jornalismo da TV tenta manter as pessoas em medo constante, no caso relatado, o medo é em relação a um acidente radioativo (fallout). Já a religião da TV se aproveita deste mesmo medo, para que você contribua financeiramente.

É interessante essa ideia de medo constante. Apesar de vivermos em um país violento, ninguém estranha termos vários programas que ficam “caçando” desgraça pelas ruas durante a tarde? Será que não há nenhum outro tipo de notícia para transmitir? Apesar de ser triste, não sei por que é tão importante que saibamos de todos os delitos cometidos durante o dia. A melhor explicação pra isso que eu já ouvi vem do documentário “Tiros em Columbine” de Michael Moore: Enquanto as pessoas estiverem com medo, não arriscarão subverter o status quo, enquanto não estiverem seguras em sair na rua, não vale a pena tentar resolver problemas mais urgentes. Esse tipo de argumento é ainda mais aprofundado no livro “1984” de George Orwell, onde o governo de “Oceania” está em guerra constante contra seus inimigos, muito provavelmente apenas para justificar todos os abusos de poder.



No decorrer da música somos apresentados a uma pessoa consciente das contradições do sistema, mas que se vê impossibilitada de agir. Aparentemente, o personagem descrito lutou contra tudo isso e falhou em seus objetivos. Mas não foi uma derrota física, foi uma derrota mental. A própria experiência de vida mostrou insistentemente que ele era muito insignificante perto da magnitude da estrutura estabelecida. Creio que muitas pessoas se sentem assim (eu sou uma delas): apesar de considerarem que o mundo poderia ser bem melhor, não encontram nenhum tipo de opção que traga algum horizonte de melhora. É claro que sempre podemos melhorar um pouco a vida das pessoas a nossa volta, mas com o tempo as coisas voltam a ser como sempre foram. A impressão é que nada nunca muda.

Porém, nos refrões, quem se comunica com o ouvinte é uma espécie de narrador que, através de metáforas, explicam o porquê de toda essa imobilidade. A impotência do personagem é muito mais interior do que exterior: Almas pálidas constroem um mundo gelado / Cérebros infectados / Nunca alcançarão o outro lado. O mundo em que vivemos é um pouco cruel nesse sentido. Diferentemente de outras épocas, em que as coisas eram como eram porque deveriam ser daquele jeito, qualquer um tem acesso fácil a diversos livros subversivos que vão do Manifesto Comunista até o Mein Kampf hoje em dia. Qualquer um que se interesse tem acesso aos mais diversos tipos de visão de mundo, mas somos tão condicionados a aceitar que o Estado e o sistema econômico são inatingíveis, que não enxergamos nenhum horizonte de mudança real, pelo menos não para melhor. É muito comum as pessoas não simpatizarem com seus governos e com o mundo em geral, mas mesmo assim, seus cérebros infectados não conseguem dar o primeiro passo em direção ao outro lado.

A mensagem que essa música passa é um pouco desanimadora, mas, apesar disso, ela causa um incômodo benéfico na minha opinião. A única coisa que não pode impedir-nos de fazer o que achamos certo é nós mesmos. Nunca saberemos se é possível mudar se não tentarmos, deixar de acreditar em algo sem antes tentar colocar em prática, pode ser um desperdício sem tamanho. Mesmo que acabemos como um rebelde frustrado, pelo menos teremos consciência que tentamos.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Raio X: Angel of Death - Descrevendo o nazismo pelo seu lado mais perverso




Atenção: Esta música contém descrições detalhadas de processos de tortura.

Auschwitz, a verdadeira dor
O jeito que eu quero que você morra
Morte lenta, decadência imensa
Chuveiros que lhe purificam a vida

Forçados
Como gado vocês correm
Despojado do valor de sua vida
Rato humano, para o anjo da morte
Mais de quatrocentos mil para morrer

Anjo da morte
Monarca do reino dos mortos

Sádico, cirurgião da morte
Sadista do mais nobre sangue
Destruindo, sem piedade
Para beneficiar a raça ariana

Cirurgia, sem anestesia
Sinta a faca te perfurando intensamente
Inferior, sem utilidade para humanidade
Amarrado, gritando loucamente para morrer

Anjo da morte
Monarca do reino dos mortos
Açougueiro infame
Anjo da morte

Bombeado com fluido, dentro do cérebro
A pressão no seu crânio começa a
Empurrar os seus olhos
Carne queimando, pingando
Testes mentais queimam sua pele
Sua mente começa a ferver

Frio frígido quebra os seus membros
Quanto tempo você consegue aguentar
Neste funeral de água congelada?
Costurados juntos, juntando cabeças
Apenas uma questão de tempo
Até vocês serem esquartejados

Milhões jazem nas suas
Tumbas lotadas
Jeitos perversos de alcançar
O Holocausto

Mares de sangue, vida enterrada.
Sinta o cheiro de sua morte enquanto você queima
Lá no fundo, dentro de você
Abacinar, olhos que sangram
Rezando para o fim       
Do seu bem desperto pesadelo

Asas de dor buscam você
Sua face de morte te encarando
Seu sangue correndo frio
Injetando células, olhos mortais
Se alimentando dos gritos dos
Mutantes que ele está criando

Vítimas patéticas e inofensivas
Deixadas para morrer
Desprezível anjo da morte
Voando livre

Anjo da morte
Monarca do reino dos mortos
Açougueiro infame
Anjo da morte



"Angel of Death" do Slayer é uma das músicas mais controversas do heavy metal. Acredito que quem ouve esta música e a encara como apologia ao nazismo, parou de ler nos primeiros versos. Mas, mesmo assim, essa foi uma interpretação muito comum na data de seu lançamento, isso ainda é agravado pelo interesse que Jeff Hanneman (compositor da música) tem por medalhas nazistas.

O “Anjo da Morte” tratado na música é um médico nazista chamado Josef Mengele que ministrava experiências com os prisioneiros de Auschwitz. A música foca no sofrimento de suas experiências e traz um sentimento de angústia por toda a letra. A forma como Hanneman descreve as torturas é desesperadora, trata de coisas que nem passam por nossas cabeças quando pensamos em tortura. Quando ele diz “costurados Juntos” (Sewn Together), talvez ele esteja se referindo a experiência realizado com gêmeos, que tinham suas veias interligadas, algo que só um nazista fanático, e um grande filho da puta, pensaria.

Uma das principais críticas à música é que ela não deixa claro que os nazistas são maus, eu discordo totalmente. Quem lê essas palavras e não fica imediatamente revoltado, deve ter algum tipo de sadismo perverso. Na própria música ele fala que o tal do Mengele era um cara desprezível, infame e perverso. A resposta de Hanneman, quando perguntado dessa omissão é bem clara: “Nada do que eu pus na letra diz necessariamente que ele era um cara mau, porque para mim, bem, não é óbvio? Eu não deveria ter que te dizer isso”.



O que talvez incomode um pouco quem não gosta da música é o seu clima de documentário, a música é muito mais descritiva do que argumentativa. Talvez um nazista sádico consiga gostar do que está escrito e se identificar com o tal anjo da morte, mas no contesto de uma banda americana com integrantes de diversas etnias, é muita ingenuidade rotular Angel of Death como apologia ao nazismo.

Há quem acredite que, apesar de não fazer apologia, a música banaliza o sofrimento causado pelas atrocidades dos campos de concentração e defende que o tema não deva ser tratado de determinadas formas. Eu acho isso um terrível engano, quanto mais ouvirmos falar sobre o Holocausto, mais tentaremos evitar que ele se repita. Hoje há algumas pessoas - como Ahmadinejad, presidente do Irã. – que acreditam que o Holocausto não aconteceu. Muitas pessoas não sabem da sua gravidade e uma música como Angel of Death mostra que é algo que não pode se repetir.



Na minha opinião, o que os nazistas fizeram com seus prisioneiros - tanto judeus, como ciganos, russos e poloneses - em Auschwitz, é a demonstração que não podemos vacilar em relação aos direitos humanos. Se olharmos para Alemanha do século XIX, vemos um país com grandes filósofos e artistas, uma grande oposição ao utilitarismo tão em voga na época, grandes pensadores, que valorizavam a força dos indivíduos em relação ao todo. Esse mesmo país, devido ao turbulento início do século XX, acabou mudando a ponto de se tornar irreconhecível na mão dos nazistas, e o que no começo era, para o povo, um projeto de construção de uma grande nação, acabou se transformando em um estado totalmente despótico.

Quando passamos por determinadas crises, muitas vezes é mais fácil apontar um inimigo, qualquer que seja, ao invés de tratar o problema da forma correta. As pessoas são manipuláveis e o ódio une muito mais que respeito. É preciso sempre respeitar os indivíduos e seus direitos inalienáveis não importa quem seja. Qualquer tipo de violação de direito pode sempre se voltar contra você. Ter consciência dos erros do passado é muito mais frutífero do que fingir que nunca aconteceu. Uma música como Angel of Death é claramente uma denuncia do que o ser humano é capaz, e é extremamente importante que saibamos disso.