terça-feira, 18 de outubro de 2011

Universo Headbanger: A dura e ativa mitologia nórdica



Atenção: Esse post é melhor apreciado ao som de Amon Amarth ou Manowar.

Uma coisa que sempre me atraiu no heavy metal é a capacidade de contar estórias. A influência da música clássica auxilia muito nesse quesito. Bandas como Blind Guardian e Avantasia narram verdadeiros épicos através de variações de linas melódicas e uma narração digna de chamar de poesia. As temáticas das estórias vão longe, desde temas históricos, passando pela literatura e, é claro, a mitologia. 

A mitologia nórdica tem um espaço considerável no estilo. A imagem cristã dos guerreiros vikings incansáveis, terríveis em batalha, é um prato cheio para narrativas de grandes guerras e improváveis conquistas. Assim como na mitologia grega, os deuses nórdicos representam, em uma escala divina, a humanidade. Mas quando olhamos para a mitologia nórdica mais a fundo, encontramos elementos que os aproximam muito mais do “jeito” metal de ver o mundo.



A fonte para as análises deste post é o livro “Magic, Fate, and History: The Changing Ethos of the Vikings” da antropóloga Rosalie H. Wax. Ela chama a atenção para alguns fatores peculiares da mitologia escandinava. Uma delas é que na mitologia viking nada é estático, tudo está em movimento. Por exemplo, o Sol e a Lua voam pelo céu e atrás deles lobos correm com a intenção de comê-los. Outro exemplo é a árvore-mundo “Yggdrasill” que é sujeita a intermináveis assaltos e renovações, serpentes roem as suas raízes e cervos rasgam seus ramos. Enquanto isso, Três deusas banham a árvore com um líquido potente de um poço sagrado, só assim Yggdrasill consegue se manter viva. Mesmo os deuses sempre estão fazendo alguma coisa, Odin está sempre buscando sabedoria arcana, Thor Está sempre indo para o leste enfrentar os gigantes, nada nunca para.

Isso tem tudo a ver com heavy metal, ainda mais os estilos mais épicos. As músicas precisam sempre “se mover”. Os riffs deixam sempre clara a passagem do tempo. A visão de mundo de um headbanger é de um mundo que muda e precisa ser mudado. Assim como na mitologia nórdica, a impressão é que tudo pode ruir a qualquer momento. Não há espaço para contemplação pura e simples, é sempre preciso avançar, crescer, melhorar. Diferentemente da cultura grega ou judaica, na mitologia nórdica os homens são responsáveis por suas ações, não há inspiração ou manipulação divina, se queremos alcançar algum objetivo, nada nos carregará até ele. Um choque de realidade muito comum em letras de heavy metal.


 Outra coisa interessante que eu vi neste livro é a substancialidade do mundo nórdico, como diria Wax: “Se algo não pode ser sentido pelas mãos, ou, melhor ainda, não emite som (ring) ou quebra quando acertado, não é considerado digno de nota; Se algo não pode ser claramente visto pelo olho em seu contorno preciso e definitivo, não vale a pena descrevê-lo”. Na mitologia viking os mortos nunca viram fantasmas, eles ainda mantêm o seu corpo em Valhalla ou em Hel. Graças a isso, o mito de criação viking não vem de um vazio primordial, mas de vastos rios cósmicos alimentados por várias chuvas, esses rios congelaram e, quando começaram a derreter, de uma gota nasceu o primeiro gigante de gelo “Ymir”. Mas ele foi assassinado por Odin e outros deuses e estes fizeram o mundo a partir do corpo do gigante: Do sangue dele fizeram os mares e lagos, da sua carne fizeram a terra, dos seus ossos fizeram as montanhas, do seu crânio fizeram o céu e de seu cérebro fizeram as nuvens.

Essa visão substancial do mundo é muito peculiar. Normalmente ligamos religiões e mitologia a espíritos e coisas que não fazem parte do nosso plano, mas os homens do norte não precisavam supor outro patamar para os seus deuses, eles eram como eles. Com a forte característica antirreligiosa de alguns estilos de metal, nada como uma mitologia onde todos podem ser quebrados, esmagados, cortados, torcidos e rasgados.  Essa forma materialista de ver o mundo e os deuses se aproxima muito mais das pessoas com pouca crença. Cantar sobre a alma quando você não é religioso é complicado, mas falar sobre Thor, que é simplesmente um guerreiro com status de deus, não tem nenhum problema. Ninguém sabe como Jeová é, mesmo Jesus transcendia a sua própria carne, mas não havia dúvidas de como descrever Odin, grande e terrível.



A mitologia do povo que se arranjou nos confins mais frios da Europa tem tudo para combinar com o estilo de rock mais agressivo e mais fantasioso, mas a própria história de conquistas dos Vikings também é uma ótima inspiração. Seu território se espalhou pela Europa no inicio segundo milênio, chegaram a ter possessões na Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Rússia e até nas margens do mar negro. Fora da Europa, dominaram parte da Groelândia e chegaram até a o Canadá e invadiam constantemente territórios ao norte da África. Essa Disposição expansionista somada a imagem da antiga literatura escandinava dos “Bersekers” – Guerreiros incontroláveis lutando com inspiração religiosa fanática – Cria uma imagem do povo guerreiro perfeito. O complexo de Davi e Golias não é uma temática unânime nas músicas de heavy metal, muitas vezes é o mais forte que vence, e os vikings, pelo menos nas lendas, sempre eram os mais fortes.

Talvez haja algo na cultura dos Vikings que os aproximem mais intimamente com o heavy metal, não deve ser por acaso que os países nórdicos são uma das principais fontes de boas bandas. Da Finlândia temos Children of Bodom, Finntroll, Nightwish e Stratovarius; da Noruega temos Burzum, Darkthrone, Dimmu Borgir, Mayhen, Tristania e toda uma cena de Black Metal e Gothic Metal; Na Suécia temos o Amon Amarth, Arch Enemy, HammerFall e Marduk; Na Dinamarca temos o King Diamond e o Mercyful Fate (desculpem-me pelas bandas que esqueci). Para se ter uma ideia, estamos falando de uma população total de aproximadamente 20 milhões de pessoas, a mesma que a região metropolitana de São Paulo. Não há como negar que os Vikings têm tudo a ver com heavy metal.


sábado, 15 de outubro de 2011

Review: Epilson - Evocando as vozes do seu coração


No geral, as bandas de heavy metal cumprem muito bem o seu papel de “mau”. Algumas bandas fazem críticas severas ao sistema, outras ironizam a tradição e o costume, algumas também invocam seres mitológicos ligados a crueldade como temática e, muitas delas, simplesmente descrevem situações violentas sem nenhuma temática definida. Mas, apesar de ser totalmente válido esse lado maligno, algumas bandas são um pouco mais “felizes” e, entre elas, temos a finlandesa Dreamtale com o seu épico álbum intitulado “Epilson”.



Esse tipo de música fantasiosa que narra grandes eventos e evoca um heroísmo ideal, libera o que há de pior em mim. Não canso de ouvir discursos inflamados, frases de efeitos e coisas que se relacionam com coragem e senso de dever. Quando isso se mistura com linhas melódicas elaboradas e um refrão longo e épico, pronto, meu lado brega aflora e eu ouço aquelas músicas como se elas falassem de algo muito mais “real” do que realmente falam. Muito parecido com a sensação de que conhecemos os personagens dos livros que lemos em sua mais íntima personalidade, ou quando torcemos pelo protagonista de um filme cujo final vai ser feliz de qualquer forma.

Todos esses elementos podem ser encontrados à exaustão em Epilson. Dreamtale foge um pouco da tendência atual do Power metal de misturar elementos de hard rock ou thrash metal. Eles ainda fazem o que, aqui no Brasil, chamamos de metal melódico. O teclado é muito presente nas composições e a guitarra é um pouco menos presente que o normal para elevar a importância das linhas de vocal. 



Gostei muito da décima faixa do CD, a “March to Glory”. Aliás, quando eu comecei a ler a sua letra, tive a impressão que tratava de temas religiosos, de tão sério que a letra evoca a sua fantasia. Claro que quando a música narra um anjo de luz dançando com uma besta e diz que o “bom e o mau são o mesmo, pelo menos” as coisas ficaram mais claras. As músicas “Angel of Light” e “Stranger’s Ode”  também me chamaram muito a atenção. Não deixe de ouvir Epilson!


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Raio X: Livin' on a chain gang - A sociedade está sendo conduzida para o colapso



Ligo a TV porque não tenho para onde ir
Parece que tiveram um problema lá no México
Um garoto de 13 anos roubou uma loja pra ter o que comer
Eles o pegaram fazendo hora enquanto assassinos andam pelas ruas

Um político esfomeado é como um lobo a sua porta
Determinado em submissão e se alimentando dos pobres
Poderíamos ver o sol se nós abríssemos nossos olhos
Mas nós nos pintamos em um canto colorido com mentiras brancas

Estourado em uma pilha de pedra, se empoeirando no calor
Algemado ao sistema e arrastando os meus pés

Eu sou conduzido por um colapso
Outra submissão a extorsão branca
Sinto-me como se vivesse em uma gangue de cadeia
Eu sou conduzido por um colapso
Uma submissão suicida
Sinto-me como se vivesse em uma gangue de cadeia

A instituição de um picareta pode te livrar de seus pecados
Mande a sua contribuição e ele salvará a sua alma hoje
O que ele pode saber? Ele passou pelo inferno e voltou?
Ele pega a grana e a leva pra casa em seu Cadillac novo em folha

Cuspindo no cão de guarda, queimando em sua parte maligna
Gritando no trlho sem ninguém no volante

Eu sou conduzido por um colapso
Outra submissão a extorsão branca
Sinto-me como se vivesse em uma gangue de cadeia
Eu sou conduzido por um colapso
Uma submissão suicida
Sinto-me como se vivesse em uma gangue de cadeia

Cura pela fé, superstição
Mente criminosa de sangue frio
Gozando em alta posição
Ei irmão você pode arranjar uma moeda
Para me tirar dessa linha de assassinato?

Eu sou conduzido por um colapso
Outra submissão a extorsão branca
Sinto-me como se vivesse em uma gangue de cadeia
Eu sou conduzido por um colapso
Uma submissão suicida
Sinto-me como se vivesse em uma gangue de cadeia



Pela primeira vez analisarei uma música de Hard Rock por aqui. O Hard Rock dos anos 80 foi marcado pela sua extravagância e pela filosofia do "sexo, drogas e rock ‘n’ roll". Com forte marca comercial, as bandas americanas que dominaram a cena naquela década precisavam de certo nível de alienação. Mas no fim desta era, algumas bandas apareceram com forte marca contestadora, entre elas estava o Skid Row. Esses caras não eram de medir palavras e a "Livin’ on a Chain Gang" resume bem o espírito da banda.

É legal a simbologia, que também foi usada na “Paradise” do Stratovarius, na qual o narrador começa assistindo TV. Essa caixa mágica parece ser colocada como a nossa janela para realidade, o que realmente está acontecendo é o que passa dentro dela e não no mundo a nossa volta. Como a música fala do sentimento de prisão gerado pela sociedade, a própria relação que a TV tem com a gente já é uma das correntes que prendem nossos pés.

O exemplo do garoto que rouba comida e é prontamente preso, mas os verdadeiros bandidos estão soltos por aí, é clássica. A grande reflexão desse exemplo é: para quem serve a justiça? É impossível criar um consenso em relação às noções de justiça, mas é muito mais fácil policiar aqueles que não têm defesa, do que os  “assassinos” que agem por vias muito mais complexas. Estes assassinos citados na música, não me parecem ser os assassinos comuns que matam com uma arma ou algo do tipo. Esses assassinos devem ser aqueles que as suas decisões destroem a vida de muitos, tanto causando a morte de pessoas, quanto destruindo as perspectivas delas. Esses assassinos são os políticos, os empresários, os líderes religiosos etc. Essa justiça que só pune quem não tem influência é outra das correntes.



Quando a música começa a falar de política, a crítica vai direto para as pessoas que participam dela. A forma como funciona o sistema democrático contemporâneo acaba gerando políticos profissionais. Trazendo a reflexão para o Brasil, as coisas ficam ainda mais claras quando vemos que temos, em todo país, mais de um milhão de cargos de confiança na máquina estatal. Os partidos políticos começam a depender do poder para manter seus filiados em seus empregos. Não há mais espaço para visões políticas, o grande objetivo dos grandes partidos, na maior parte do mundo, é simplesmente chegar e se manter no poder.  É isso que explica a centralização ideológica dos partidos políticos nos sistemas democráticos atuais, quanto mais nichos políticos o programa do partido abarcar, mais votos ele conquistará. Isso acaba afastando da política as pessoas idealistas e atrai pessoas que querem simplesmente um emprego. Esse sistema em que somos governados por políticos especializados em manter as coisas como estão, é mais uma das correntes apresentadas pela música.

Após o refrão, a música ataca a relação deturpada que as pessoas têm com a fé hoje em dia. A religião sempre se misturou com o Estado, mas com as revoluções liberais que separaram as duas coisas, o paradigma religioso precisou ser reinventado. As grandes religiões se mantém pela tradição e pelos costumes, mas, mesmo perdendo o seu espaço, ainda exercem um poder de influencia considerável. Esse vazio religioso deixado pelo mundo laico, muitas vezes é aproveitado por bandidos que se abusam da boa vontade das pessoas e rouba o dinheiro delas. Em algumas religiões mais novas, normalmente cristãs, há uma relação de troca entre a doação e o milagre. É como se a quantidade de dinheiro doado pra igreja influenciasse na qualidade do milagre. Esses caras pegam as pessoas pelo inconsciente, a pessoa não acha que está “comprando” um milagre, mas acha que a melhor forma de comprovar a sua fé é se desprender do dinheiro por Deus e a melhor forma de comprovar isso é doando. Mas, como vivemos em uma sociedade que tudo é medido pelo dinheiro, o que atrai um grande número de pessoas para essas seitas, é a possibilidade de comprar o milagre como se estivesse em um mercado. Essa religiosidade atual que muitas vezes trata a fé pela ótica do mercado é mais uma corrente denunciada pela letra.



A metáfora da música fica clara: a sociedade está tão deturpada, que é como se estivéssemos sobre regime carcerário. O trecho “Poderíamos ver o sol se nós abríssemos nossos olhos / Mas nós nos pintamos em um canto colorido com mentiras brancas” é o resumo da mensagem da música. Nós criamos tantas regras e somos coniventes com tantas injustiças que nos perdemos em nossas próprias escolhas. Se as pessoas tivessem a consciência de tudo o que permeia as suas relações, talvez a vida pudesse se concretizar de forma plena. As correntes que prendem nossos pés estão muito bem presas, se não começarmos a serrá-las logo, nunca conseguiremos nos libertar.


domingo, 9 de outubro de 2011

Review: Generation Why? - Apesar de confusa, a nova geração também sabe fazer heavy metal


O heavy metal é um universo independente há um bom tempo. Isso desde o seu começo controverso, passando pelo seu ápice comercial nos anos 80 e se mantendo firme até hoje. Há 20 anos figura como estilo de música alternativo e, mesmo assim, não dá mostra de decair. O que acaba caracterizando o estilo como um “universo” é que o heavy metal deixou de ser apenas um estilo, para virar um paradigma. Não dá para dizer que bandas como Dream Theater e Sepultura são do mesmo estilo, mesmo assim, é comum ver pessoas que gostam das duas bandas. Devido a essa grande diversidade do heavy metal e o seu grande número de fãs que entendem o paradigma, é possível “brincar” com os diversos estilos e criar pérolas musicais como o álbum “Generation Why?” do Diamond Plate e o seu Thrash Progressivo.



É até engraçado pensar em “thrash progressivo”, afinal a origem do thrash metal é muito ligada à música agressiva, clara e direta. Uma boa música de thrash metal vai te agradar pelo ritmo rápido e por sua sonoridade agressiva. O metal progressivo já é caracterizado pela sua virtuosidade e variância de temas e melodias.  Porém, a criatividade não vê barreiras, brincar com as regras é sempre uma ótima forma de manter a música viva. Não que o Diamond Plate tenha sido o primeiro a fazer isso, mas o equilíbrio entre os dois estilos é uma marca forte de “Generatio Why?”. Ouvir este CD é uma viagem entre melodias elaboradas em meio a belos riffs e vocais agressivos.

Além da qualidade musical, as letras são um show a parte. Generation Why? traz de forma interessante questões que permeiam os nossos tempos. As letras falam da brevidade da vida e das futilidades da sociedade. Combinam muito bem a crítica com a reflexão, da mesma forma que combinam bem os estilos. De forma alguma parece ser uma banda de garotos, como é, na realidade. 



Uma das músicas que me agradou foi a “Generation Why?”, que fala das contradições dos dias de hoje, da fuga da realidade da nossa geração que “teme o que pode ser, mas não se preocupa com o que tem sido”. Outra música que gosto muito é a “Fool’s Paradise” que crítica a ilusão que o passado justifica o presente. Resumindo, o CD é foda, não deixe de ouvir!

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Raio X: Crazy Train - Todos abordo!!!!



Louco, mas é assim que as coisas são
Milhões de pessoas vivendo como inimigas
Talvez não seja tarde demais
Para aprender a amar
E esquecer como odiar

Feridas mentais não têm cura
A vida é uma vergonha amarga
Estou saindo dos trilhos num trem maluco
Estou saindo dos trilhos num trem maluco

Eu escutei os pregadores
Eu escutei os tolos
Eu vi quem abandonou os estudos
Que fazem suas próprias regras
Uma pessoa condicionada
A mandar e controlar
A mídia vende isto
E você vive o papel

Feridas mentais ainda gritam
Deixando-me louco
Estou saindo dos trilhos num trem maluco
Estou saindo dos trilhos num trem maluco

Sei que as coisas estão saindo erradas para mim
Você precisa escutar minhas palavras

Herdeiros de uma guerra fria
Foi o que nos tornamos
Herdando problemas
Estou mentalmente anestesiado
Louco, eu simplesmente não consigo suportar
Estou vivendo com algo
Que simplesmente não é justo

Feridas mentais não têm cura
Quem e o que culpar
Estou saindo dos trilhos num trem maluco
Estou saindo dos trilhos num trem maluco


Mais um clássico do heavy metal será analisado no raio x de hoje. Nada mais, nada menos que Crazy Train de Ozzy Osbourn. Ozzy talvez seja a figura mais icônica do Heavy Metal, quase como se fosse a caricatura do próprio estilo que ele ajudou a inventar. Crazy Train é uma música que, além de ser uma ótima composição, parece dizer muito do que se passa na cabeça do príncipe das trevas (que apelido foda, pqp!)

Como era de se esperar, a música é meio louca. Em alguns momentos parece um elogio à própria loucura, em outros, a loucura é próprio problema. O que fica claro na música é a crítica à “normalidade” que é pregada pela sociedade.  O interessante é que em nenhum momento ele diz que, ao sair do ponto comum, você terá alívio. Pelo contrário, a música é quase um manifesto de alguém que desistiu deste mesmo “alívio”.

Este ponto é interessante, você pode viver a vida que esperam de você e sofrer por não poder dar vazão a seus anseios, ou você pode abandonar os estereótipos e, talvez, se perder em uma busca pela identidade. Pelo visto, foi a segunda alternativa que o eu lírico escolheu (e aposto que também o próprio Ozzy). A música não é muito animadora, ela indica que há uma pressão externa para que sejamos algo, mas este “algo” não condiz com o que realmente queremos e podemos ser.

Crazy Train não fica só em uma reflexão abstrata, ela aponta alguns culpados. No final da letra ela entrega uma das fontes do problema: a Guerra Fria. No meio da música, a mídia é citada como uma pressão externa e isso não é nenhuma novidade, mas quando a letra aponta o dedo para o período de embate entre os EUA e a URSS, as possibilidades de análise (leia: possibilidades de viagem) começam a sair um pouco do clichê.

A guerra fria, como o próprio nome já entrega, foi uma guerra disputada por meios não convencionais. Era uma guerra principalmente de propaganda. Não importava tanto se cada um estava satisfeito individualmente, mas que todos acreditassem que trocar de sistema econômico pioraria muito as coisas. No lado capitalista era importante mostrar a prosperidade e as diversas oportunidades. Basicamente, se você estivesse infeliz, a culpa era sua.



A publicidade em geral é muito policiada hoje em dia. Ela ainda segue a lógica de tentar te convencer a gastar seu dinheiro ou seu tempo em algo. Porém, por mais idiota que nós (consumidores) aparentamos ser, aprendemos a não engolir qualquer coisa que nos vendem com o tempo. Além do fato de a própria concorrência entre as marcas mostrarem, eventualmente, as contradições dentro do que nos é vinculado. Isso faz com que a publicidade no século XXI procure ter alguma relevância em suas estratégias e não tentar vender algo que não queremos. Mas, no auge da guerra fria, as coisas eram diferentes. Você precisava odiar os comunistas! A melhor forma de te convencer isso é fazer com que você ame o capitalismo e acredite em todas as suas promessas.

Um grande grupo de pessoas (o Ozzy incluído) foi criado em uma época na qual se acreditava que só o que você precisava para ser feliz era seguir corretamente a cartilha do “american way of life”. Muitos buscaram incessantemente por isso. Mas, no momento que esperavam colher os frutos, alguns se decepcionaram. Perceberam que mesmo tendo estabilidade financeira, poder de consumo e uma família padrão, você ainda pode ter aquele sentimento que tem algo faltando, porém, você não tem mais nenhuma cartilha para te dizer como preencher esse vazio.

Esse sentimento de angústia pode ser atribuído a outros fatores além da decepção com o modelo ocidental. Normalmente ficamos muito satisfeitos quando atingimos certos objetivos na vida, como por exemplo, cursar uma faculdade, conseguir um bom emprego etc. Porém, quando nos damos conta, nem mesmo começamos a aproveitar a nova vida e já estamos dedicando todos os nossos esforços para cumprir outro objetivo futuro. Se não pararmos de vez em quando e nos dedicar a nós mesmos, a vida acaba se tornando uma corrida para morte.

É claro que é possível que nada disso tenha passado na cabeça dos caras na hora de compor essa música, talvez tenha passado muito mais coisa. Mas o legal de uma obra de arte é que, assim que ela é finalizada, ela sai do controle do artista e se comunica com cada interlocutor a partir das próprias experiências de cada um.


domingo, 2 de outubro de 2011

Review: Inner Monster Out - Representando fodamente o Brasil em 2011


Uma coisa que me irrita é quando alguém vê algo mal feito e diz “você tem que entender que aqui é Brasil”. Primeiro que tem muita coisa errada no mundo e, além disso, transformar o seu próprio país como sinônimo de incompetência é dar um belo tiro no pé e não perceber a qualidade a sua volta. Procurando CDs novos para indicar aqui no blog eu resolvi ouvir uma banda que eu ainda não conhecia muito e, mesmo esta sendo brasileira, eu dei a sorte de não deixar passar um dos melhores CDs do ano: o “Inner Monster Out” do Shadowside



Desculpem-me pela repetição de temas e tratar de novo de metal nacional aqui, mas eu não podia deixar a empolgação esfriar antes de fazer este post. Shadowside foi uma grande surpresa para mim. Muitos já os devem conhecer, a banda não é nada nova, mas eu, particularmente, só os tinha ouvido há 10 anos em um barzinho. Nem parece a mesma banda que tocava para umas poucas pessoas, o “inner monster out” não deixa nada a desejar em relação aos grandes lançamentos deste ano.

Fico imaginando quantas bandas boas que há 10 anos tinham as mesmas dificuldades e o mesmo potencial e hoje já não existem mais. Sinto que há um certo descaso do próprio público daqui, pagamos fortunas pra assistir um show de bandas do mesmo nível que as nossas, mas as tentativas de festivais de metal nacional nunca duram por tanto tempo. Claro que isso passa também pelas gravadoras que não distribuem de forma eficiente as bandas.



“Inner Monster out” é um CD de Power Metal realmente foda. Sem muita frescura, o CD consegue transitar por várias sonoridades. A Dani Noldem manda muito bem nos vocais, o controle que ela tem em sua voz é incrível, creio que ela seja o grande diferencial da banda. O Shadowside é um bom exemplo que o heavy metal tupiniquim também é forte no século XXI e que nós não podemos abandoná-lo.


sábado, 1 de outubro de 2011

Raio X: Paradise - Temos muito a perder


Tarde da noite de novo eu me encontro
Refletindo e assistindo TV
Eu não posso acreditar no que está na tela
Algo que eu não gostaria de ver

Muitas espécies raras vão perecer em breve
E nós teremos falta de comida
Por que temos que ser tão egoístas?
Nós temos que mudar nossa atitude.

Eu sei que eu não sou
O único que está preocupado
Por que todos nós não
Acordamos e percebemos?

Como as aves no céu
Nós estamos voando tão alto
Sem fazer nenhum tipo de sacrifício
Nós temos tão pouco tempo
Para desfazer este crime
Ou nós perderemos o nosso paraíso

Parece-me que não há nenhum sentido
Ninguém se importa é sempre o mesmo
Mãe natureza está chorando de dor
Nós somos os culpados

Eu sei que eu não sou
O único que está preocupado
Por que todos nós não
Acordamos e percebemos?

Como as aves no céu
Nós estamos voando tão alto
Sem fazer nenhum tipo de sacrifício
Nós temos tanto pouco tempo
Para desfazer este crime
Ou nós perderemos o nosso paraíso



Hoje vamos tratar um tema não tão discutido ainda por aqui: o meio ambiente. Talvez pelo fato de o heavy metal ser um estilo musical dos anos 80, onde a preocupação ambiental não era tão presente quanto hoje (ou quanto nos anos 60), ainda estranhamos músicas com essa temática. Mas a “Paradise” do Stratovarius vai direto ao ponto sem muitos rodeios.

Acho muito interessante que na primeira estrofe o eu lírico esteja vendo TV. Mostra que apesar de muitos serem alienados, ainda sim o problema ambiental é claro para todos. É mais do que falta de informação, é falta de interesse mesmo. Duvido que, nos dias de hoje, ainda possamos duvidar que haja conseqüências pesadas se a humanidade não repensar sua relação com os recursos naturais.

A música continua como uma lição de moral mesmo, não tem muito que falar, a gente tá fodendo com tudo a nossa volta e com a gente mesmo. Apesar de algumas pessoas alertarem, a grande maioria não quer saber e, enquanto a gente não estiver na miséria, ninguém parece que vai mudar de idéia.

Mas será que é isso mesmo? Passamos milhares de anos nos desenvolvendo como humanidade, criando novas formas de vivenciar o mundo, passamos por guerras, conquistas, governos, religiões, filosofias, culturas e tudo acabará por que a gente não presta atenção nas plantinhas e nos bichinhos? Bem, por mais ridículo que pareça, é possível.

Claro que não vou dar uma de alarmista e dizer que a humanidade é o bastião do apocalipse e que temos que “salvar o planeta”. Nem acho que se der tudo errado é o fim da própria humanidade. Já sobrevivemos a algumas eras glaciais e outras catástrofes climáticas e ainda nem tínhamos inventado o número zero ou a roda. Ver a questão do meio ambiente tratando a humanidade como uma ameaça para natureza é puro alarmismo, como George Carlin disse com maestria em um de seus shows:


Mas o fato de a natureza e a própria humanidade terem boas chances de continuar por algum tempo, isso não faz com que devamos ignorar o que estamos fazendo conosco. Eu não vou perder tempo vomitando dados de como nosso nível de consumo é totalmente insustentável, ainda mais com sete bilhões de pessoas no planeta. Dentro de nossos paradigmas do que é felicidade (consumo) e do número de pessoas que vivem a margem da sociedade, não é possível termos um mundo melhor para todos. Temos sorte da maioria destes sete bilhões pessoas não terem oportunidade de consumir o necessário para uma vida digna. Bem, elas é que não têm nem um pouco de sorte.

Não adianta pensarmos em pequenas coisas para resolver a catástrofe social que a eminente falta de recursos naturais vai causar. Se você começar a reciclar o seu lixo, parar de comer carne e alimentos transgênicos, trocar o carro pela bicicleta, adotar um cachorrinho abandonado, gastar menos energia e água; nada vai mudar. Algumas vezes somos tão arrogantes que acreditamos que mudando algo em nossa vida estamos ajudando a mudar o mundo. Lembre-se que você representa 1/7000000000 do problema. Tentar resolver algum problema mudando apenas a sua própria atitude não passa e uma piada sem graça.

Claro que isso não impede que você faça as coisas listadas acima, ou que não tenham outros bons motivos para fazê-los, como seguir os seus valores por exemplo. Mas é importante que fique claro que você não é melhor do que ninguém por isso, nem está ajudando tanto assim. Dentro do grande jogo da humanidade os jogadores que realmente tem fichas para fazer uma aposta que mude algo são os governos. Não adianta você viver como um eremita enquanto a china está aumentando a sua indústria vertiginosamente sem a menor preocupação com as conseqüências. Não adianta você parar de consumir transgênicos ou carne se o principal consumidor do que é produzido no Brasil é o mercado externo.

Pouco de nós têm realmente o poder de mudar algo, mas têm algumas coisinhas que podemos fazer para, pelo menos, não ficarmos no caminho de quem realmente tem alguma chance. O grande problema da falta de sustentabilidade de nossa sociedade é o excesso de consumo. A coisa fica complicada porque a nossa sociedade é baseada no próprio consumo. Claro que seria inútil resolver este problema também individualmente. É importante que possamos imaginar que há felicidade fora do “american way of life”. 



Há algumas frentes que me parecem relevantes para esse tipo de mudança. A mais óbvia é o aumento da eficiência dos processos que demandam recursos naturais. É importante que novas formas de gerar de energia e de matérias-primas sejam criadas e constantemente aperfeiçoadas para que causem um menor impacto. Outra frente a ser considerada é a educação. Não é possível imaginar que uma pessoa com pouca educação, ou uma educação enviesada, vá perceber as contradições do mundo atual. Não haverá mudança de paradigma se as pessoas não puderem entender o problema do paradigma atual. Mas a frente que talvez causasse maior impacto é a política. Quem hoje financia a maior parte dos partidos políticos são as grandes corporações. Os votos são conseguidos muitas vezes através de campanhas políticas enganosas. Enquanto a sociedade tratar a política como algo que não muda, nenhuma outra coisa vai mudar.

A principal mensagem de “Paradise” é que o problema é nosso e que nós precisamos acordar. O individualismo que permeia a nossa sociedade acaba criando a ilusão que somos suficientes em nós mesmos. Nada mudará se não tomarmos as rédeas do futuro, não podemos mais deixar que poucos decidam por todos nós.